Etanol: Mercado: Futuro

Etanol pode voltar a ser competitivo


Jornal do Comércio - RS - 22 mar 2013 - 07:08 - Última atualização em: 29 nov -1 - 20:53

O governo federal volta a fazer uma investida para tornar atraente, nos postos de todo o País, a escolha do álcool com a predominância que vigorou na década de 1970, só que diferentemente da época áurea do Proálcool, agora o combustível de cana-de-açúcar atende pelo nome de etanol. A alternativa voltará a ser financeiramente viável, se o novo pacote de incentivos que o governo federal está lançando para o setor sucroalcooleiro resultar efetivamente em um empenho maior de agricultores e usineiros em ampliar a produção.

Nos próximos dias, é esperado pelos empresários do setor o anúncio de um conjunto de desonerações, como a redução da alíquota de PIS/Cofins sobre o etanol, hoje em 9,25%. Outros incentivos ainda estão em discussão, como a desoneração da folha de pagamento. No ano passado, o governo abriu linhas de financiamento bilionárias para estocagem e renovação de canaviais. E, partir de maio, a participação do álcool hidratado na mistura da gasolina sobe de 20% para 25%.

A concorrência com a soja, a disparada do preço do açúcar, a valorização dos terrenos e a quebradeira das usinas provocaram a estagnação do setor, restringindo o volume de etanol disponível no mercado e mantendo os preços na bomba em nível incapaz de atrair 57% da frota de automóveis do País, que podem ser abastecidos tanto por gasolina quanto por etanol.

Agora, o governo vai incentivar a retomada dos investimentos e a ampliação na produção de cana-de-açúcar, estagnada desde 2009. Segundo a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) 41 usinas fecharam de 2008, reduzindo a capacidade de processamento em 32 milhões de toneladas por ano. Com essas desonerações, o preço pago pelo litro do álcool hidratado ao produtor vai subir de R$ 1,25 para além de R$ 1,30, segundo o governo. "Vamos dar este ano uma importância estratégica para o setor do etanol, que teve várias dificuldades", garantiu a presidente Dilma Rousseff em discurso no mês passado.

Em Brasília há a crença de que existe um ambiente favorável ao segmento sucroalcooleiro como não havia desde o Proálcool, de 1975. Uma estimativa do governo mostra que o consumo do combustível pode chegar a 32,5 bilhões de litros este ano, contra 19 bilhões de litros em 2012. Para 2020, a demanda projetada deve atingir 63,1 bilhões de litros. Com as últimas medidas anunciadas pelo governo, o setor garante que vai produzir de 26 bilhões a 27 bilhões de litros.

A indústria promete acelerar os investimentos. A Odebrecht Agroindústria prevê aumentar a área com cana de 220 mil hectares em 2012 para 550 mil na safra 2014/2015, com investimento de R$ 1 bilhão neste ano. No ano passado, a Copersucar uniu-se à americana Eco-Energy para vender etanol no mundo. Com uma produção maior, a demanda por álcool poderia ser estimulada pelo preço menor. O aumento das vendas poderia reduzir as importações de gasolina, que pesaram na redução do lucro da Petrobras em 2011. Diante do cenário atual, porém, o governo não espera uma competitividade mais forte do etanol na bomba antes da safra de 2014/2015.

Apesar dos incentivos, a indústria critica deficiências estruturais do mercado brasileiro que tiram a competitividade do etanol no cenário interno e, principalmente, no externo. Uma delas, a logística, está sendo enfrentada com um alcoolduto de R$ 7 bilhões, que deverá ser inaugurado em abril na região Sudeste. Outro mais relevante, porém, é a elevada carga tributária do setor. "O governo já está agindo em questões pontuais, mas ainda precisamos de ajustes estruturais. Para que haja uma nova rodada de investimentos, são necessárias medidas de fundo", disse o porta-voz da Unica, Adhemar Altieri. "Neste momento em que o governo vai ter que produzir mais etanol para importar menos gasolina, que está causando dano à balança comercial e à Petrobras, é importante fazer a conta racional de custo-benefício. Se o prejuízo que estamos tendo com a importação de gasolina fosse investido no etanol, muito poderia melhorar a produção", argumenta Roberto Giannetti, ex-secretário da Câmara de Comércio Exterior do governo e diretor da Fiesp.

Para o governo, o setor tem de aproveitar os incentivos e a conjuntura para reduzir custos e aumentar a produtividade da área plantada. O secretário de Produção e Agroenergia do Ministério da Agricultura (Mapa), Cid Caldas, lembra que os custos de produção aumentaram por várias razões, entre elas a mecanização. "Uma máquina custa em torno de R$ 1 milhão. Além disso, a produtividade caiu porque houve casos em que as máquinas entraram em área que não estava preparada para aquele tipo de corte (que exige plantas alinhadas)." Investimentos em etanol de segunda geração, a partir de celulose, e a expectativa de o governo liberar a cana transgênica (mais resistente a secas) podem tornar o produto mais competitivo. Os Estados Unidos, principal mercado para o Brasil, querem substituir boa parte dos combustíveis fósseis por renováveis, e o etanol é uma grande opção, disse recentemente o presidente Barack Obama.

Aumento do percentual de álcool na gasolina reduz autonomia do veículo, dizem especialistas

O aumento do percentual de álcool anidro na gasolina, de 20% para 25%, a partir de 1 de maio, na teoria, reduz a autonomia de um veículo. No bolso, no entanto, o impacto é mínimo, garantem especialistas. "Abastecer com álcool significa ter menos autonomia. Como o álcool tem menor poder calorífico, seu aumento na mistura representa menos energia no tanque," afirma o assessor-técnico da Fiat Ricardo Dilser. "Em termos teóricos, é necessário mais gasolina para percorrer uma mesma quilometragem, mas, na prática, o usuário não vai sentir muita diferença no bolso no dia a dia. É uma questão de centavos num tanque de cerca de 60 litros."

O diretor de comunicação da Renault, Carlos Henrique Ferreira, explica que, quando roda com etanol, um motor consome cerca de 30% a mais do que o mesmo motor com gasolina. Por isso, se aumentarmos 5% de etanol na gasolina, o consumo vai aumentar 30% sobre os 5%, ou seja, cerca de 1,5%.

O economista Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, confirma que o aumento do anidro na mistura provoca uma diferença muito pequena no rendimento da gasolina. "A elevação do percentual é um ganho para o consumidor, para o País e para a Petrobras. A gasolina passa a ser um combustível com mais qualidade e ambientalmente melhor, o que é essencial principalmente para os grandes centros, já que grande parte da poluição é em decorrência da emissão de CO2. O aumento do anidro tem como resultado uma gasolina de melhor qualidade", explica Pires.

Para economizar de fato, a dica do assessor-técnico da Fiat é pesquisar os preços na hora de abastecer. E continuar prestando atenção na relação entre o custo do álcool e da gasolina. Só vale a pena abastecer com álcool se o seu valor for menor de 70% do preço da gasolina, já que esta tem um rendimento 30% maior do que o do biocombustível.

A Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) ressalta que os carros brasileiros estão preparados para essa oscilação na mistura, com percentual maior ou menor de álcool. A mistura-padrão homologada pelo governo, no entanto, é de 22% de anidro na gasolina, com margem de um ponto percentual para cima ou para baixo.

"No caso do carro flex, ele foi feito para isso: receber álcool, gasolina ou gasolina com mais ou menos álcool. O carro brasileiro pode fazer um autoajuste para essa elevação do álcool na gasolina sem problemas", diz Dilser, explicando que isso não gera danos ao motor ou custos extras com manutenção ou reparo ao motorista.

O aumento do percentual do anidro — com mais álcool puro em sua composição do que a versão hidratada, vendida nos postos — na gasolina responde a uma determinação do governo para reduzir o impacto da alta do preço do combustível fóssil na bomba, depois do reajuste de 6,6% nas refinarias, que entrou em vigor em janeiro. Além disso, o aumento do uso do anidro deve reduzir a necessidade de importação de gasolina pela Petrobras, que tem pesado nos resultados da estatal.

Mais caro, etanol é deixado de lado pelo consumidor

Por rodar com 100% de etanol (uma raridade no mundo), o "carro verde" é festejado pelo governo e por empresas. Mas o combustível alternativo está sendo deixado de lado pelo consumidor na hora de abastecer os tanques flex, em razão da falta de competitividade de preço em relação à gasolina. Desde 2003, quando teve início a venda desse tipo de veículo, o consumo de álcool hidratado cresceu em média 32% ao ano, até atingir 16,4 bilhões de litros em 2009. No mesmo período, a gasolina apresentou elevação anual média de 2,16%.

Nos últimos três anos, enquanto o mercado adquiriu 8,8 milhões de carros flex, o consumo de álcool registrou quedas de 8,5%, 27,7% e 9,6%, respectivamente. O da gasolina, por sua vez, cresceu 17,3%, 18,7% e 11,9%, atingindo volume recorde de 39,6 bilhões de litros no ano passado.

A decisão do governo de segurar os preços da gasolina para conter a inflação, além de tirar a vantagem do álcool - cujo preço precisa ser até 70% do valor da gasolina para compensar a diferença de poder energético -, está reduzindo investimentos no setor sucroalcooleiro.

"Hoje, nenhum programa de inovação tem prioridade para o etanol, nem mesmo levando-se em conta a saúde da população e o meio ambiente", diz Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

Ele lembra que os automóveis flex pagam entre 2% e 7% menos Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) que um modelo a gasolina, ainda que o derivado de petróleo seja o combustível mais frequentemente usado pelo consumidor. O Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) também é menor.

Na opinião de Rodrigues, o governo precisa definir uma política de longo prazo que permita a convivência dos dois combustíveis. "O setor precisa retomar investimentos na expansão da produção e, normalmente, são necessários 20 anos para amortizar novos investimentos", diz Rodrigues, ao falar da urgência da sempre reivindicada definição da matriz energética brasileira.

Para Henry Joseph Jr., da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), a indústria aprendeu que a questão do etanol é cíclica. "Há momentos em que há algum interesse político, estratégico ou econômico por parte do governo em motivar a produção do etanol", diz. "Mas, em outros, esse mesmo interesse vai a zero."

Joseph acredita que, no futuro, o governo vai voltar a se ater na importância do setor agrícola na matriz energética, até porque ainda não se sabem exatamente os resultados efetivos que as descobertas do pré-sal terão. "Por isso, o carro flex entra como uma luva, pois deixa o consumidor isento do favorecimento ou não que o governo dá ao uso do etanol", afirma.

A discussão de transformar o etanol em commodity está adormecida. "Os dois maiores produtores, Brasil e Estados Unidos, são altamente dependentes do consumo interno, por isso o tema está parado", afirma Rodrigues. Para Joseph, essa condição só será alçada com a chegada do etanol de segunda geração (produzido de diversas matérias-primas), que deverá elevar o consumo do produto em várias partes do mundo.

A presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Elizabeth Farina, afirmou que o anúncio formal publicado na semana passada no Diário Oficial da União determinando o aumento da mistura de etanol na gasolina de 20% para 25%, a partir de 1 de maio, "traz tranquilidade para o setor sucroenergético nacional".

Em nota, Elizabeth explicou que as empresas ganham condições para planejar sua produção e comercialização ao longo da safra 2013/14. "Sem a decisão formal do governo, os produtores estavam em situação confusa frente a uma decisão que não se concretizava, já que existem diversos tipos de demanda para o etanol a ser produzido na próxima safra, que começa em abril. Agora fica mais fácil planejar e garantir o fornecimento e a tranquilidade para o mercado doméstico", disse Farina no texto.

De acordo com a entidade, o anúncio permite que a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) defina os níveis de contratação de etanol anidro pelas distribuidoras junto às empresas produtoras. Assim, ficam garantidos os volumes de estoque de etanol anidro para manter estável a oferta durante a entressafra 2013/2014, que ocorre entre dezembro deste ano e março de 2014.

A Unica explica que é nesta época que os contratos de compra de etanol anidro pelas distribuidoras precisam ser apresentados à ANP, o que vai permitir que o volume de etanol a ser contratado seja conhecido. Isso também definirá estoques que produtores e distribuidoras deverão manter para garantir o abastecimento na próxima entressafra.

Elizabeth também ressaltou que não há qualquer dificuldade para atender o aumento na mistura, pois a expectativa do setor é de uma safra maior em 2013/2014. "Os números estão sendo recolhidos junto às empresas e entidades de outros estados produtores e serão compilados para um anúncio completo em abril, logo no início
da nova safra."
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