Etanol: Mercado: Futuro

Ásia turbina operação de açúcar da trading Czarnikow no Brasil


Valor Econômico - 08 jan 2013 - 09:22
Tiago Medeiros Ana Carolina Czarnikow
A recente migração da demanda pelo açúcar brasileiro da Rússia para a Ásia beneficiou os negócios da trading inglesa Czarnikow no Brasil. Com uma base sólida de clientes em destinos asiáticos, a companhia movimentava há cinco anos 500 mil toneladas de açúcar brasileiro. Neste ano, pretende originar pelo menos 1,5 milhão de toneladas no país.

O diretor da Czarnikow Brasil, Tiago Medeiros, conta que os clientes da Ásia eram atendidos, basicamente, com produto vindo da Austrália e da Tailândia. Mas, diante do ritmo acelerado de crescimento demográfico no continente, esse mercado já não consegue ser atendido sem a oferta do Brasil, que responde por 50% de todo o açúcar exportado globalmente. Essa posição de domínio do Brasil, segundo ele, tende a progredir. No mundo, a demanda avança 3 milhões de toneladas anuais, diz ele.

Com a operação de trading, a Czarnikow - que em 2011 faturou US$ 3 bilhões - vai movimentar em 2012/13 em torno de 4 milhões de toneladas de açúcar em todo o mundo, cerca de 10% do total transacionado globalmente. Desse total, 1,2 milhão de toneladas virão do Brasil. Em 2013/14, o volume brasileiro subirá para 1,5 milhão de toneladas, diz Medeiros.

Em dezembro, a Czarnikow elevou em 700 mil toneladas, para 7,8 milhões, sua previsão para o superávit global de açúcar em 2012/13, reforçando as perspectivas baixistas para o preço do açúcar. É consenso que a próxima safra brasileira da commodity será grande, condição que pode ser minimizada, dependendo do mercado interno de etanol.

Em sua primeira estimativa para a safra 2013/14 do Centro-Sul, a Czarnikow projeta oferta de cana-de-açúcar da ordem de 580 milhões de toneladas, 10% de crescimento em relação ao ciclo atual. Para o açúcar e o etanol, a companhia traça dois cenários. No primeiro, a produção de açúcar no Centro-Sul pode atingir 37 milhões toneladas, o que tende a ocorrer se o preço for mais remunerador do que o do álcool hidratado até agosto ou setembro de 2013. Ainda nesse cenário, a produção de etanol atingiria 10 bilhões de litros de anidro e 14 bilhões de litros de hidratado.

Se essa convergência entre preços do açúcar e do hidratado ocorrer antes de agosto, a fabricação da commodity pode se restringir a 35,6 milhões de toneladas e, com isso, a produção de etanol anidro vai a 10,4 bilhões de litros e a de hidratado, a 14,5 bilhões de litros.

Para fazer as projeções, a Czarnikow considerou que houve plantio de 1,9 milhão de hectares de cana entre dezembro de 2011 e novembro de 2012 no Centro-Sul, número 10% maior do que em 2011. Cerca de 70% desse total foi de renovação e, a diferença, de expansão de área. Segundo a gerente de pesquisa da trading, Ana Carolina Ferraz, 64% do plantio foi da chamada "cana de 18 meses", que apresenta maior produtividade quando é colhida (18 meses após o plantio) do que a cana de 12 meses. Em 2011, esse tipo de cultivo foi de 56% da área plantada.

Outra premissa usada pela Czarnikow para projetar a safra 2013/14 no Centro-Sul é a de crescimento de 6% na produtividade da cana, para 78 toneladas por hectare. Se a chuva for regular, pode atingir até a média histórica de 80 toneladas, afirma Ana Carolina.

O início da safra deve ocorrer mais cedo, por volta de 20 de março, afirma a especialista. A estimativa é que até 1º de maio de 2013 cerca de 55 milhões de toneladas de cana tenham sido processadas, ante 14 milhões de toneladas no primeiro dia de maio de 2012.

Em 2012, a trading observou ainda algumas mudanças na indústria de cana do Centro-Sul. Na esteira da melhor remuneração trazida pelo açúcar e pelo anidro do que pelo hidratado, cinco novas fábricas de açúcar foram instaladas em destilarias já existentes e outras 14 colunas de desidratação para produzir anidro também foram implantadas. Com isso, a capacidade de fabricação de anidro na região, antes na casa de 8,8 bilhões de litros, cresceu em 1 bilhão de litros, calcula a Czarnikow.

A trading tem no comércio de açúcar seu principal negócio, mas também presta serviços de "facilitação comercial" a usinas que buscam acessar diretamente o cliente final. Presta ainda consultoria, tanto de mercado, quanto de "corporate finance". Somente nessa última modalidade, a Czarnikow realizou globalmente nos últimos cinco anos US$ 2,5 bilhões em transações de fusões, aquisições e estruturação de dívida, a maior parte no Brasil, diz Medeiros.

Em sua base de clientes, a Czarnikow também atende instituições financeiras e fundos de índices que especulam no mercado de commodities. Ana Carolina alerta que os fundos devem prover o setor de boas oportunidades de precificação na primeira quinzena de janeiro. É o período em que, tradicionalmente, fazem ajustes de posições.

Levantamento da Czarnikow mostra que, até dezembro, os fundos de índices estavam comprados em 240 mil lotes de açúcar, o equivalente a 12 milhões de toneladas, um terço da safra brasileira. Segundo a gerente de pesquisa, o ajuste de posição desses fundos é feito tradicionalmente na primeira quinzena de janeiro, período em que, potencialmente, pode haver uma valorização dos preços da commodity. A expectativa da Czarnikow é que esses fundos aumentem suas posições em 30 mil ou 40 mil contratos.

Fabiana Batista