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Etanol: Mercado

Evandro Gussi comenta andamento do RenovaBio, venda direta, Atvos e eletrificação

Em entrevistas à EPBR, o presidente da Unica afirma: “O etanol será determinante nos processos de eletrificação mais eficientes do mundo”


EPBR - 04 jun 2019 - 07:56
Em março, Evandro Gussi participou de reunião com a presença do presidente Jair Bolsonaro

Para o presidente da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), Evandro Gussi, o Brasil tem a melhor proposta de eletrificação da frota de veículos do mundo, ao combinar a eletricidade com o uso de biocombustíveis. Ex-deputado, ele é autor do projeto que originou o RenovaBio e hoje comanda a associação que representa parte do setor sucroenergético no Brasil.

Em entrevista exclusiva à EPBR, Gussi defende que o uso de motores híbridos a etanol gera menos emissões do que veículos plug-in em outros países e afirma que o grande benefício do RenovaBio para a sociedade é a maior participação dos biocombustíveis na matriz energética brasileira.

Além disso, atento aos debates acerca da liberação da venda direta de etanol, ele afirma que a eventual alteração na cadeia do combustível não é uma ameaça ao programa, que excluirá usinas que optarem pela alteração. E faz um alerta: a mudança na tributação pode trazer para dentro do setor um número maior de devedores contumazes.

Qual o próximo passo para a implantação do programa RenovaBio?
O RenovaBio está na última fase de implementação, que é o processo de estruturação financeira do programa, uma fase que é tratada no Banco Central com diálogos com a ANP e o MME e está dentro dos prazos adequados. Essa fase visa a adequação de processos de emissão de CBio (Crédito de Descarbonização por Biocombustíveis), esclarecendo como funcionará o mercado secundário, quem pode comprar o título.

Como as empresas estão se preparando para vender e comprar CBios?
Nas usinas, o que se tem agora é a busca pelo processo de credenciamento. Para que você possa emitir CBios é preciso um certificado de produção eficiente junto à ANP. Já há usinas buscando as empresas para apresentarem o seu processo de certificação.

Com o programa completamente implementado, qual será o impacto do RenovaBio?
O grande benefício do RenovaBio para a sociedade é a maior participação dos biocombustíveis na matriz energética brasileira. São Paulo é um exemplo de uma revolução promovida pelo etanol. 30 anos atrás tínhamos uma série de problemas causados pela poluição. O aumento da participação do etanol gerou uma profunda revolução na qualidade do ar das cidades brasileiras.

A venda direta de etanol voltou a ser debatida no Congresso este ano. Há risco para o RenovaBio?
Entendemos que não tem impacto sobre o programa. Quem optar por venda direta está, a princípio, fora do RenovaBio. Isso porque o programa é desenhado com toda a cadeia, com as revendedoras para o processo de substituição da gasolina pelo etanol.

Mas os preços devem cair com a venda direta?
Não achamos que a venda direta vá trazer redução de preços ao consumidor. A capacidade de transporte que a distribuidora tem o produtor, em geral, não tem. Não vemos grandes benefícios da venda direta. Entendemos até que é preciso observar para não atrair para o setor de combustíveis uma preocupação tributária. Queremos que o setor mantenha a lisura em relação a tributos. Quando você altera a tributação sobre a cadeia produtiva, pode atrair falsos empreendedores que se aproveitam de “gaps” institucionais para praticar concorrência desleal.

Como você vê a concorrência por espaço no setor automotivo entre biocombustíveis e eletrificação?
A mobilidade do século 21 vai ser uma mobilidade plural. Você tem gente de patinete na Faria Lima, transporte compartilhado. Vai ser diferente do passado e isso é bom. O processo de eletrificação terá um papel importante nesse novo desenho de mobilidade. Nós, no Brasil, temos a melhor proposta para eletrificação. A primeira delas é veículo híbrido que a Toyota está lançando agora em outubro. Um carro movido a gasolina gera 147 gramas de CO2 por km rodado. O Corolla com etanol vai emitir 28 gramas de CO2 por km rodado. Você não consegue ver um resultado assim em nenhuma outra opção de eletrificação.

Então há espaço para os dois modelos no Brasil?
Há várias rotas para a eletrificação. Motores a baterias, a etanol. O que nós propomos é uma visão global desse processo de eletrificação. Você tem que perguntar de onde vem a eletricidade que o carro está usando. Se ele usa energia de uma termelétrica movida a carvão eu apenas desloquei a localização da emissão de carbono. Um estudo da Universidade de Colônia mostrou que um carro elétrico rodando na Alemanha produz emissões da ordem de 120 gramas de CO2 por km. São emissões superiores à gasolina porque você avalia todo o ciclo de vida do combustível.

A recuperação judicial da Atvos é o anúncio de uma crise para o setor?
Não há essa preocupação. Eu não falo pela Atvos mas entendemos que a recuperação judicial foi noticiada como a estratégia jurídica para manutenção das operações. Eles possuem um compromisso inequívoco com o setor nacional e temos profunda convicção de que estão se portando da melhor maneira possível. O mercado viveu momentos muito difíceis, especialmente quando o governo da ex-presidente Dilma Rousseff promoveu o controle de preços da gasolina. Mas o mercado vem contribuindo com a melhora da saúde da economia.

A produção de etanol de milho cresce no Brasil. Esse crescimento ameaça o espaço da cana?
Não vemos disputa nenhuma. Quanto mais produção de etanol tivermos no Brasil e no mundo, isso significará uma contribuição determinante para a segurança energética. Por outro lado, dificilmente o milho é capaz de substituir uma área cultivada com cana. Entendemos que para o cumprimento dos objetivos do RenovaBio precisaremos também do etanol de milho. Prevemos uma participação da produção de etanol de milho no programa.

Guilherme Serodio


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