Etanol: Mercado

Os desafios de 2020 conforme os presidentes dos sindicatos de cana-de-açúcar do país

Questões climáticas, reforma tributária, dificuldades logísticas e comunicação foram pontos tratados


novaCana.com - 30 out 2020 - 14:18

O ano de 2020 está sendo especialmente desafiador para o setor sucroenergético. Não só pelo fator que afetou a economia como um todo – a pandemia de coronavírus e suas consequências no consumo –, mas também por quedas nos preços da gasolina, câmbio instável, poucas chuvas e questões específicas, como discussões tributárias.

Levando em conta todo este cenário, o presidente da Datagro, Plínio Nastari, reuniu presidentes de associações do setor de diferentes estados em um painel durante a 20ª Conferência Internacional Datagro. Na ocasião, eles comentaram os desafios que estão enfrentando e as ações que estão sendo aplicadas.

Segundo Nastari, nestes tempos de pandemia, há diversas situações que precisam de auxílio governamental e programas de apoio emergencial, que eventualmente acabam comprometendo contas públicas e aumentando casos de desequilíbrio fiscal. Um problema deste cenário, ele afirma, é que, por mais que necessários, estes programas de apoio têm “portas de entrada, mas muito pequenas, e poucas portas de saída”.

Para ele, o setor sucroenergético é referência na execução de auxílios assim, pois o programa de mecanização da colheita, que se intensificou a partir de 2007, ao mesmo tempo em que causou um grande nível de desemprego, trabalhou direta e internamente com a mão de obra então ociosa.

O diretor executivo da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Eduardo Leão, deu um depoimento pessoal sobre o desenvolvimento do Programa Renovação, criado como um esforço do setor para lidar com a liberação massiva da mão de obra após a mecanização. “Uma colhedora substituía, à época, cerca de 18 a 20 cortadores de cana”, relata.

Na sua visão, eliminar a queima da cana era fundamental para gerar um benefício ambiental, porém a questão social também precisava ser endereçada. Assim, foi criado um programa de requalificação de trabalhadores: “Os cortadores foram treinados para operar máquinas e prestar serviços de manutenção no geral, como elétricos ou mecânicos”.

Leão declara que considera o programa altamente bem sucedido, especialmente porque o nível de empregabilidade do setor aumentou com sua expansão ao longo dos anos. “Houve um treinamento de cerca de 300 mil cortadores de cana, que passaram a exercer outras atividades, mais qualificadas e melhor remuneradas”, comenta.

Tanto Leão quando Nastari afirmaram, durante o painel, que este tipo de experiência – dentre muitas outras positivas vivenciadas pelo setor – precisa ser compartilhada com o governo, fazendo parte de um esforço na redução da emissão dos gases de efeito estufa e na poluição das cidades.

Os desafios climáticos

O tema ambiental foi tratado com ênfase pelos presidentes dos sindicatos da região Norte-Nordeste. Pedro Nogueira, do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool no Estado de Alagoas (Sindaçúcar-AL), comentou especialmente sobre as questões do aquecimento global que, afirma, “especificamente no Nordeste, há uma prova inconteste de que ele existe”.

Ele explica que os canaviais da região estão sendo seriamente danificados pela falta de chuvas, e a produção regional foi muito reduzida por essa razão. Em Alagoas, a preocupação principal é que a água disponível vá para o mar e fique inutilizada.

A água e o sol abundante da região, defende Nogueira, “é o casamento perfeito para o desenvolvimento muito bom da cana”. Porém, para isso, é necessário investimentos, “do tipo que tem retorno de longo prazo” e que precisam de um “empurrão externo”.

“Quer seja política pública ou uma que estimule investimentos externos, é o que precisamos”, reitera. Para ele, a maior dificuldade não é implantar essas políticas, mas sim “conseguir uma interlocução governamental duradoura, pois há uma volatilidade muito grande do administrador público de plantão”.

“É paciência, persistência, confiança e não deixar a oportunidade passar. É a nova onda que o Nordeste precisa para ocupar um espaço bem definido na produção de açúcar, etanol e energia, que deve oferecer ao Brasil e ao mundo”, Pedro Nogueira (Sindaçúcar-AL)

A presidente do Sindicato dos Produtores de Cana, Açúcar e Álcool do Maranhão e do Pará (Sindicanálcool-MA), Cíntia Ticianelli, também comentou que a questão do déficit hídrico é uma dificuldade da região. Por isso, as usinas estão investindo em irrigação, com casos de superação de produtividade média de 86 toneladas por hectare com base em melhorias no fornecimento de água.

Problemas logísticos

Para além desta questão, Ticianelli acredita que é necessário buscar melhorias na eficiência do setor como um todo, produzindo “cana competitiva e, em seguida, um etanol competitivo”. A questão logística é outro ponto de atenção, ela afirma, e está caminhando no Maranhão, com a realização da rodovia Norte-Sul que interligará Santos ao porto de Itaqui, em São Luís. Feitos estes investimentos e tendo um produto de qualidade, conclui, “é preciso diversificar”.

O tema da logística também foi abordado pelos presidentes do Sindicato das Indústrias Sucroalcooleiras do Estado do Mato Grosso (Sindálcool-MT), Silvio Rangel, e da Associação de Produtores de Bioenergia de Mato Grosso do Sul (Biosul), Roberto Hollanda Filho.

No Mato Grosso, Rangel explica que o estado vem crescendo em produção, porém isto cria dificuldades logísticas. Por isso, o setor está trabalhando no aumento das ferrovias e na realização de um etanolduto, reiterando que é necessário que o governo tenha estes investimentos em mente.

Já Hollanda Filho comenta que o estado sul-mato-grossense está caminhando para resolver grandes desafios logísticos com a conclusão de um projeto antigo, o corredor bioceânico. Além disso, um destaque do setor na região é o aproveitamento de terras de pastagens não mais utilizadas para a expansão dos canaviais.

Ticianelli reconhece que, para atingir patamares de desenvolvimento como os vistos em vários estados, o setor foi agraciado por políticas e benefícios fiscais que, hoje, estão em risco. “Temos um grande desafio com a reforma tributária, mas somos muito sensíveis a estas políticas de incentivo locais para manutenção dos investimentos necessários à nossa competitividade”, completa.

O dilema tributário

O tema da reforma tributária foi amplamente citado por participantes da 20ª Conferência Internacional Datagro, neste e em outros painéis. O presidente do Fórum Nacional Sucroenergético (FNS), André Rocha, por exemplo, defende que a reforma precisa ter um tripé: a simplicidade, a diminuição da carga – ou um impedimento de que ela aumente desordenadamente – e um pacto federativo para aplicação dos recursos.

Para ele, seria necessário fazer primeiro uma reforma administrativa, enxugando gastos e reduzindo os custos do Estado que, ele afirma, precisa ter seu tamanho definido e conhecido. Além disso, ele apoia a manutenção dos incentivos fiscais que alguns estados têm, pois são “importantes para diminuir desigualdades regionais, permitindo o desenvolvimento das regiões e dá competitividade” e as diferenças de cobranças para fósseis e renováveis.

“Nossa preocupação é que continue havendo essa desigualdade de alíquotas, que haja valorização para o renovável, que tenhamos competitividade em qualquer reforma que for feita. O mundo todo valoriza o renovável e esperamos que o Brasil, com essa diferenciação, continue fazendo isso também”, André Rocha (FNS)

Rocha explica que o setor está acompanhando este processo e o vê com preocupação em alguns pontos. “Há a necessidade de ocorrer uma reforma tributária, mas precisa ser uma que não erre; não podemos perder mais do que temos perdido”, reitera.

Ainda no tema de tributos, o presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool no Estado de Pernambuco (Sindaçúcar-PE), Renato Cunha, comentou a questão das cotas de exportação de etanol para os Estados Unidos, que estiveram em discussão ao longo dos últimos meses.

Cunha afirma que o governo brasileiro demonstrou maturidade e envolveu o setor na decisão de prorrogar, por 90 dias, a cota pela qual os EUA podem exportar etanol sem tarifa para o Brasil, o que ocorreu em setembro.

Ao mesmo tempo, ele acredita que as contrapartidas de cotas como esta nem sempre são favoráveis ao Brasil, portanto defende que exista “uma agenda mais consistente, mais planejada” para que o setor tenha mais poder de persuasão nas negociações com outros países, em especial, os EUA.

“Precisamos de algo efetivo, não ficar agindo de forma improvisada quando alguma cota vai vencer ou, quando ocorre algum fato inesperado, tentar fazer um arremedo de última hora”, ressalta o presidente do Sindaçúcar-PE.

Do setor para a sociedade

O presidente da Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais (Siamig), Mário Campos Filho, afirmou que as questões tributárias, de exportação para o mercado internacional e de rotulagem dos alimentos – que podem ser negativas para o açúcar – , por exemplo, são presentes no setor e devem ser divididas com a sociedade.

Campos Filho defende que é preciso ter um diálogo com a população e não manter a conversa apenas internamente. “É importante que a gente faça este movimento para fora, que a gente remonte nossas trincheiras”, salienta e completa: “Mas as trincheiras precisam ser montadas de forma estruturada e estratégica, e a comunicação com a sociedade é essencial, precisamos trazer toda a nossa cadeia para esse ambiente”.

Para ele, o setor precisa fazer este esforço de se comunicar com a sociedade. É preciso manter o diálogo, ele afirma, posicionando-se em diversos assuntos e divulgando isso, o que envolve falar com a imprensa, dar entrevistas – coisa que os sindicatos estão tentando – e manter esta comunicação.

O presidente executivo do Sindicato da Indústria da Fabricação do Álcool no Estado da Paraíba (Sindálcool-PB), Edmundo Barbosa, chamou atenção para os pontos trazidos por Campos Filho, dizendo que a comunicação do setor deve ser abrangente e alcançar a sociedade, especialmente considerando momentos desafiadores como o da reforma tributária.

Barbosa inclusive afirma que alguns temas já estão difundidos na percepção da população, como a questão da mudança climática, mas não atingiu o topo da agenda política. “Há ainda uma tentativa de deixar o problema para depois ou uma guerra falsa em relação às questões climáticas”, lamenta.

“Nós estamos diante de uma excelente oportunidade de iniciar um projeto de comunicação nacional para falar direto do produtor para a sociedade. Nós, dos sindicatos, podemos colaborar, mas é preciso que haja um esforço nacional, e as grandes empresas devem aderir”, Edmundo Barbosa (Sindálcool-PB)

O presidente da União Nacional da Bioenergia (Udop), Amaury Pekelman, reitera a relevância do tema e acrescenta que, para comunicar de forma efetiva, é preciso de abrangência e frequência. “Cada entidade faz bem seu papel, mas se não temos uma frequência, uma constância, mostrando as qualificações do setor para o Brasil e para o mundo, o setor não tem abrangência”, esclarece.

Por sua vez, o presidente da Associação de Produtores de Bioenergia do Estado do Paraná (Alcopar), Miguel Tranin, comentou que algumas instituições, como a Unica, estão fazendo um importante papel de divulgação dos temas relevantes para as sucroenergéticas, como o RenovaBio.

Para ele, isto é significativo em um momento de tentativa de recuperação do setor, especialmente porque acredita que as usinas têm grande potencial de se tornarem biorrefinarias, indo além da produção de açúcar e etanol, mas se fortalecendo na geração de energia.

“Temos a cana, o milho e projetos de cogeração. Este é o todo que deve manter o setor, essa é a visão que temos que ter: aproveitar ao máximo tudo que estiver ao alcance das nossas biorrefinarias”, defende Tranin.

Rafaella Coury – novaCana.com