Etanol: Mercado

Baixa oferta pode sustentar preço do etanol de milho, mas demanda e cereal caro são desafios


Agência Estado - 01 abr 2021 - 09:17

O cenário é incerto para os produtores brasileiros de etanol de milho nos próximos meses. Se por um lado o atraso na safra de cana-de-açúcar e o alto volume de açúcar vendido antecipadamente indicam que a oferta do biocombustível será limitada, sustentando os preços em plena safra, o aumento nas medidas restritivas para conter a transmissão do novo coronavírus nas últimas semanas indicaria uma retração na demanda por combustíveis. É o que dizem analistas do mercado ouvidos pela reportagem.

“No ano passado, exatamente quando a safra (de cana-de-açúcar) começou (em abril), a demanda desapareceu. E acho que podemos estar observando uma repetição disso”, diz o especialista de açúcar e etanol do Rabobank Brasil, Andy Duff. “Mas não sabemos qual será a reação da população e até que ponto a mobilidade vai ser reduzida. Ou por quanto tempo isso vai durar”, ressalva.

O CEO da ALD Bioenergia Deciolândia, Marco Orozimbo, avalia que a demanda merece atenção. “Do ponto de vista de oferta, a cana só deve chegar de meados de abril em diante, dependendo das condições climáticas”, afirmou. “Mas também é necessário ponderar a demanda, com lockdowns e antecipação de feriados. Por conta dessa questão, já vimos que o mercado de distribuição está bem cauteloso nas compras. Isso pode influenciar os preços”.

O presidente da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), Guilherme Nolasco, acredita que o ano pode ser positivo, apesar das dificuldades, e que deve ser possível aumentar a produção mesmo num cenário de medidas restritivas que podem manter as pessoas em casa. “Em 2020, mesmo com a covid-19, nós crescemos 60% em função de novas usinas que entraram em operação”, diz. “Este ano estamos com duas empresas ampliando a capacidade, então devemos crescer em 650 milhões a 750 milhões de litros ante 2020”.

Após alcançar preços recordes nas últimas semanas, o etanol vem recuando, mas com cotações ainda firmes – o biocombustível não é considerado competitivo ante a gasolina em todos os estados e no Distrito Federal, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

De acordo com a ANP, na semana passada o biocombustível se desvalorizou 2,8% na comparação com a semana anterior, mas ainda acumula avanço de 20,4% ante o mesmo mês de fevereiro de 2020. Os preços chegaram a patamares recordes por causa da entressafra de cana-de-açúcar e do aumento no preço do petróleo, que impulsionou também a gasolina, mas recuaram tanto pelo recuo recente do petróleo quanto pelo agravamento da pandemia.

A oferta parece continuar restrita. A Archer Consulting estima que 85,75% do açúcar destinado à exportação para a safra 2021/22 já estava fixado em 28 de fevereiro, volume muito acima da média. Usinas fizeram vendas antecipadas para aproveitar os preços recordes que o adoçante alcançou em reais nos últimos meses. Esse alto volume de fixações de preço indica que a parcela de cana disponível para produção de etanol, pelo menos no início da safra, deve ser reduzida, já que a maior parte vai para a produção de açúcar.

Além disso, o tempo seco durante a entressafra deve atrasar o início da moagem de cana no Centro-Sul brasileiro. A União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) estima que no fim da primeira quinzena de abril, a primeira da safra 2021/22, 169 usinas estarão operando na região, ante 180 unidades no mesmo período de 2020. Isso reduz ainda mais a disponibilidade de cana nas próximas semanas e, consequentemente, a oferta de etanol.

A escassez da cana, embora benéfica para usinas de etanol de milho, pode ser parcialmente neutralizada pelo alto preço do cereal. Em um ano, o indicador Esalq da saca de milho avançou quase 60%, elevando os custos para produção do biocombustível produzido a partir do grão. “Não acho que seja sustentável, mesmo com etanol a R$ 3,50 o litro na usina, a saca de milho a R$ 85 ou R$ 86”, afirma Orozimbo. “Mas esperamos que o preço do milho tenha um momento de inflexão. Houve, de uma safra para outra, uma majoração nunca antes vista no mercado”.

Duff, do Rabobank, relativiza o peso da cotação do cereal. “A aquisição por parte dessas empresas costuma ter muitos meses de antecedência”, diz ele. “Eles têm esse aspecto no etanol de milho, que não existe na cana, de comprar matéria-prima e estocar por meses. Então o custo seria um preço ponderado que representa a cotação ao longo de vários meses”.

Ele lembra, ainda, que as usinas têm, além do etanol, uma receita com grãos secos de destilaria (DDG, na sigla em inglês), ingrediente vendido para uso em ração animal. “O preço disso, no meu entendimento, tem acompanhado a alta de preço de milho e soja. Então, à medida que o preço de matéria-prima deles está subindo, o preço de um componente da receita sobe no mesmo ritmo”, argumenta.

Augusto Decker


Acompanhe as notícias do setor

Assine nosso boletim

account_box
mail



x