Carros

Novidade importante para motores a etanol, por Jayme Buarque, do INEE


INEE - 23 dez 2016 - 09:01
InfinityQ30

No Salão do Motor em Paris, no início de outubro último, a Nissan apresentou um novo tipo de motor ciclo Otto que pode ter um papel muito importante no Brasil onde a maioria dos carros vendidos são flex.

Trata-se do motor “Variable Compression-Turbo (VC-T)” cuja principal característica é modificar a taxa de compressão (de 8:1 até 14:1), adaptando-se às variações de demanda de torque e permitindo um desempenho mais elevado que os motores convencionais, onde a taxa de compressão não muda.

O novo motor vai equipar um carro INFINITY (linha de carros de luxo do Grupo Nissan), que será comercializado em 2017. Segundo os fabricantes, com quatro cilindros, o VC-T 2.0 substitui um motor V6 3.5, sem prejuízo de potência e torque e consome 27 por cento menos gasolina. Segundo Kinichi Tanuma, engenheiro da Nissan, seu torque é compatível com o de motores diesel, mas deve custar menos que um motor diesel turbinado equivalente, com a vantagem de atender mais facilmente às restrições de emissões.

Ele representa um salto em eficiência e compactação e é a “cereja do bolo” dos motores a gasolina (ciclo Otto), buscada há muito tempo. Dessa vez, ao que tudo indica, uma solução está pronta para ser lançada no mercado. Nela, a mudança da taxa de compressão é feita em tempo real por meio de uma biela cujo comprimento varia e é ajustado por um motor elétrico. Outros fabricantes e pesquisadores trabalham para aperfeiçoar mecanismos que tenham o mesmo efeito de variar a taxa de compressão em motores Otto. O sucesso da NISSAN certamente vai acelerar o amadurecimento de outras tecnologias.

As notícias sobre o motor, ainda muito recentes, chamam a atenção para diversos aspectos disruptivos que vão trazer para o mercado automotivo, como a possibilidade de competir com os híbrido-elétricos e de substituir o motor diesel.

Além desses aspectos, o VC-T é perfeito para aumentar a eficiência energética nos carros flex, que utilizam variadas proporções de etanol misturado com gasolina. Nos motores flex atuais as características físicas dos motores, notadamente a taxa de compressão fixa, são projetadas para usar de forma adequada a gasolina. Virtudes do etanol combustível, como sua elevada octanagem, vão ser mais bem aproveitadas com a adaptação da taxa de compressão às suas características.

Não foi possível encontrar referência ao uso desses motores em carros flex, até porque estes representam menos que 5% das vendas mundiais de motores, concentradas no Brasil e EUA. Como nos EUA o interesse pelos flex decorre de variados incentivos e o etanol é vendido em poucos postos, é no Brasil, onde mais de cinco milhões de carros praticamente só usam etanol, que grandes saltos de eficiência e redução de emissões podem ser observados.

Espera-se que a Nissan, sem prejuízo do trabalho que realiza para usar, em longo prazo, o etanol como fonte de hidrogênio (para células a combustível em carros elétricos), use sua base tecnológica brasileira para explorar o uso do VC-T em veículos flex, que pode apresentar resultados em curto prazo.

Jayme Buarque de Hollanda, Diretor Geral do INEE