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Acordo Mercosul-UE beneficia carros brasileiros, mas exige transformação da indústria

Para a indústria automobilística, acordo Mercosul-UE coloca prazo para ganho de competitividade


O Estado de S. Paulo - 19 ago 2019 - 07:55

A assinatura do protocolo de intenções do acordo Mercosul-UE (União Europeia) de livre comércio, em julho, foi festejada pela indústria nacional de veículos. Executivos de montadoras e associações de fabricantes consideram o tratado positivo para o carro brasileiro.

Mas há ressalvas. “Para o País, há diversas oportunidades, mas também ameaças”, diz o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Carlos Moraes.

O Jornal do Carro ouviu executivos de várias montadoras, das fabricantes de modelos generalistas às de carros de luxo. Há um consenso: se o acordo Mercosul-UE, que será implementado de maneira gradual, passasse a valer hoje, a indústria nacional sofreria um baque. O motivo é que falta competitividade ao setor de veículos do País.

O futuro da indústria e do carro brasileiro

O Brasil precisa rever as estratégias de produção e vendas e, no novo cenário mundial, se especializar em produtos específicos. Essa é a visão do presidente da Anfavea sobre o papel que o País pode desempenhar após a conclusão da implementação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia.

Para Moraes, esse novo cenário pode não favorecer a produção local de modelos com baixo volume de vendas. Para esse tipo de veículo, a importação fará muito mais sentido. Por outro lado, a especialização em segmentos de alto volume possibilitará exportar o carro brasileiro para vários outros países.

Moraes diz que, além disso, a alíquota zero para autopeças pode tornar mais barato o carro nacional que utiliza componentes importados.

Já o presidente da Audi do Brasil, Johannes Roscheck, enxerga a possibilidade de o Brasil ser uma plataforma de exportação para a América Latina. Isso poderia ser feito por meio de novos acordos bilaterais, como o México já faz.

“Hoje, não consigo exportar modelos da Audi feitos no Brasil. Para os demais países da América Latina, fica mais barato trazer da Europa”, conta o presidente da filial brasileira da empresa. Isso pode mudar com a redução da burocracia esperada pela indústria.

Eletrificação da Europa

A Europa caminha rapidamente para a eletrificação veicular. A partir de 2030, importantes cidades europeias proibirão a circulação do carro com motor a combustão. Essa tendência vai se intensificar nas décadas seguintes.

A partir de 2030, carros com motores a gasolina e diesel não poderão mais rodar em Amsterdã, por exemplo. No mesmo ano, a Alemanha deixará de produzir motores de combustão interna para veículos.

Isso pode ser um entrave às exportações do carro brasileiro após a consolidação do acordo Mercosul-UE. Por ora, não há anúncios consistentes de planos de produção de veículos elétricos no País.

Para Paulo Roberto Garbossa, da consultoria ADK Automotive, nem só de carros viverão as exportações brasileiras no contexto do acordo Mercosul-UE. “Nossa indústria pode, por exemplo, exportar autopeças para esses carros.”

Por meio do acordo Mercosul-UE, a Anfavea prevê boas oportunidades de negócios com países do Leste Europeu. Esse bloco ainda não está engajado na eletrificação da frota. Um porta-voz da associação lembrou que recentemente a Alemanha sinalizou que a eletrificação total dos automóveis pode não ser a melhor solução para o país. Isso porque a principal fonte de energia elétrica para os alemães é o carvão, cuja queima gera grande volume de poluentes.

“Para quem tem carvão como matriz energética, como ocorre com vários países da Europa, a eletrificação total não faz sentido”, diz Paulo Cardamone, consultor da Bright Consulting. “A eletrificação total pode acontecer, mas isso ainda vai demorar muito. Não é um entrave à exportação dos carros brasileiros.”

Híbrido a etanol

A associação das montadoras também avalia o Brasil como importante centro de desenvolvimento de biocombustíveis para o mercado europeu, e também de produção de veículos híbridos com motores movidos a etanol. “Considerando toda a cadeia, esse tipo de carro é muito menos poluente que o elétrico”, diz Cardamone.

Primeiro carro híbrido do mundo com motor a etanol, o Corolla será feito na fábrica da Toyota em Indaiatuba (SP) e chegará às concessionárias do País no último trimestre deste ano. Em breve, o Nissan Kicks também terá versão elétrica cuja bateria será recarregada por um motor a biocombustível.

“O acordo Mercosul-UE também vai incentivar as exportações de outros setores e fazer a economia crescer. Isso é bom para o Brasil como um todo. Inclusive para a indústria automotiva”, afirma o presidente da Anfavea.

Regras do acordo Mercosul-EU

No fim de julho, foi assinado na Bélgica o protocolo de intenções para um acordo de livre comércio entre o Mercosul e União Europeia. Esse tema estava sendo negociado entre os dois blocos econômicos havia 20 anos.

Para a indústria automobilística, as regras do acordo Mercosul-UE de livre comércio já estão definidas. O processo de abertura dos dois mercados ocorrerá de maneira gradual. O primeiro passo é transformar o protocolo de intenções em acordo, o que deve levar entre dois e três anos, de acordo com informações da Anfavea.

“A pauta agora vai à votação nos congressos dos países do Mercosul e dos da União Europeia”, diz Moraes.

A partir do que Moraes chama de “momento zero”, que é a consumação do acordo Mercosul-UE, terá início um processo previsto para durar 15 anos. Esse é o prazo para a consolidação do comércio livre de taxas de importação entre os dois blocos. “Nos primeiros sete anos, poderão vir da Europa para o Mercosul 50 mil carros, sendo 32 mil para o Brasil”, explica o executivo. Nesse caso, o imposto de importação cairá pela metade – dos atuais 35% para 17,5%.

A divisão da cota entre as empresas será definida pela União Europeia. Após os primeiros sete anos, não haverá mais restrição ao número de veículos importados. A partir de então, a taxa de importação será reduzida gradualmente, até chegar a zero ao final dos 15 anos.

No oitavo e nono anos, a taxa será maior que nos sete primeiros. Só a partir do décimo ano o imposto voltará a cair.

O Mercosul é formado por quatro países: Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. A UE, por sua vez, tem 28 membros. São eles: Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Chipre, Croácia, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Irlanda, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Polônia, Portugal, República Tcheca, Romênia e Suécia.

Rafaela Borges e Tião Oliveira
Com edição novaCana.com