A situação do etanol celulósico é crítica, mas todos concordam que ela também é temporária. Mas conseguirá o etanol celulósico atingir um ponto sem volta antes que os investidores percam a disposição financeira para suportar o desenvolvimento da tecnologia?

Renata Bossle - novaCana.com 15 mar 2016 - 11:31 - Última atualização em: 21 jul 2020 - 14:48

O ponto sem volta do etanol celulósico envolve muitos fatores, e, com sorte, cada empresa alcançará este ponto em momentos diferentes. Existem hoje seis empresas ao redor do mundo em condições de serem a primeira a viabilizar a produção de etanol celulósico em escala de forma rentável: Raízen, GranBio, Poet/DSM, Beta Renewables, Dupont e Abengoa.

Uma das principais dúvidas que circulam no mercado é como cada uma delas está posicionada frente aos concorrentes. A comparação entre as empresas é crucial para compreender o estado da arte do etanol celulósico em larga escala no mundo e o potencial das diferentes tecnologias escolhidas pelas empresas.

Pensando nisso, a Lux Research, uma empresa de consultoria com base em Boston nos EUA, resolveu mergulhar nos custos de produção de cada uma dessas usinas e no provável preço de venda de cada litro de etanol celulósico considerando as particularidades dessas unidades.

O estudo da Lux Research analisou a situação destas seis empresas, as únicas companhias produtoras de E2G em escala comercial.

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Considerando preço de matéria-prima, custos operacionais, despesas fixas, custos de capital e retorno sobre investimento (ROI), Raízen e GranBio se destacaram como as duas companhias com menor preço mínimo de venda por galão – US$ 2,17 e US$ 2,66, respectivamente. A Raízen se beneficiou do preço do bagaço, estimado em US$ 38/ton, ante o valor de US$ 40/ton da palha de cana-de-açúcar.

Considerando um câmbio de R$ 3,90, esses valores de preço mínimo de venda passam a ser de R$ 2,24 (Raízen) e R$ 2,74 (GranBio) por litro de etanol. Para efeitos de comparação, entre 22 e 26 de fevereiro, o Indicador Cepea/Esalq do etanol anidro registrava R$ 2,0975/litro (sem impostos). Em relação a este valor, que corresponde à média dos preços de negócios efetivados pelas usinas, o número da Raízen é 6,8% maior, enquanto o da GranBio é superior em 30,6%.

Segundo o estudo, na sequência das usinas brasileiras está a Poet-DSM, com o preço de US$ 3,04 por galão. Mesmo com a palha de milho sendo negociada a um valor alto, de US$ 90/ton, a planta possui crédito por cogeração e é sua própria fornecedora de enzima, fatores que diminuem alguns dos principais custos.

Depois, a Beta Renewables utiliza a palha de trigo, que custa US$ 75/ton, e poderia comercializar seu etanol a partir de US$ 3,28 por galão. A Dupont, embora tenha conseguido negociar a palha de milho a US$ 52/ton, é a única usina a não se beneficiar dos créditos por cogeração de eletricidade e possui altos custos operacionais. Assim, seu preço mínimo de venda foi estimado em US$ 3,31 por galão.

Por fim, a Abengoa está na pior posição, com custo de US$ 4,55 por galão. A companhia também utiliza a palha de milho a US$ 90/ton, mas ainda precisa recuperar seu alto investimento inicial, previsto em US$ 500 milhões – a usina da Raízen, por exemplo, custou US$ 100 milhões. Além disso, a enzima da Dyadic é a mais cara e com menor rendimento entre as possibilidades analisadas pela Lux Research.

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Custos de produção

Em sua análise, Yu comparou os três processos disponíveis comercialmente para pré-tratamento lignocelulósico que estão sendo utilizados para produção de E2G – ácido diluído, explosão a vapor e alcalino. A partir desses dados, ele construiu um modelo de custo que estima o preço por galão de E2G produzido em cada unidade atualmente em operação.

Yuan-Sheng Yu considerou cinco etapas principais: matéria-prima, pré-tratamento, hidrólise enzimática, fermentação e geração de energia, que pode ou não gerar crédito. Todas as companhias foram analisadas dentro de um mesmo cenário produtivo e levando em conta uma formulação-padrão de matéria-prima. Além disso, não foram inclusos custos fixos de operação, como despesas trabalhistas e de manutenção.

Para a Lux Research, a Raízen continua com vantagem ao produzir a US$ 0,99 por galão – mesmo tendo uma capacidade de geração de energia menor que de sua concorrente. A GranBio continua na sequência com custos de US$ 1,15 por galão. Considerando um câmbio de R$ 3,90, os custos estimados seriam de R$ 1,02 e R$ 1,19 por litro de etanol, respectivamente.

Em seguida, está a italiana Beta Renewables com custo de produção de US$ 1,96 por galão. A companhia – que estava na quarta posição considerando o preço mínimo de venda maior – ganha uma vantagem sobre a Poet-DSM (US$ 2,02 por galão), pois a estadunidense precisa arcar com altos custos operacionais.

Logo na sequência, a Abengoa também ganha uma posição com custo de produção de US$ 2,04 por galão. Isso significa que a empresa tem um preço mínimo de venda 123% superior ao seu custo de produção, um aspecto motivado principalmente pelo alto custo de capital.

Por fim, a DuPont possui um custo de produção estimado em US$ 2,37 por galão. A empresa também é a única planta em escala comercial a ter escolhido o pré-tratamento alcalino que, mesmo em um cenário de alta eficiência, teria um custo mínimo de US$ 1,42 por galão – valor superior ao da Raízen (que utiliza ácido diluído) e da GranBio (explosão a vapor).

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Melhorias em pré-tratamento, performance enzimática, preço das enzimas e eficiência da fermentação são capazes de reduzir os custos totais de produção de etanol celulósico em até 16%. Contudo, o destaque maior está na matéria-prima, que corresponde a até 40% do total das despesas. Considerado um aspecto crítico para muitas plantas, esse custo coloca as companhias brasileiras na frente.

Para o analista da Lux Research, Yuan-Sheng Yu, as plantas brasileiras de etanol celulósico desfrutam de uma posição favorável em um contexto global dada a disponibilidade de matéria-prima, o apoio do governo e a frota já existente de veículos que podem suportar uma oferta crescente do biocombustível no mercado. Para países como os Estados Unidos, ele exemplifica, a ‘parede da mistura’ em 10% continua sendo uma das principais barreiras para o mercado do biocombustível.

“O bagaço e a palha de cana de açúcar são duas das matérias-primas mais baratas, o que reduz significativamente os custos de produção do etanol celulósico”, garante. De acordo com ele, a principal razão dessa vantagem é que o controle do recolhimento tanto do bagaço quanto da palha já está centralizado nas tradicionais usinas de etanol, eliminando muitos custos adicionais de colheita e transporte. “No entanto, é preciso notar que o custo do bagaço de cana-de-açúcar, tradicionalmente usado para geração de energia, é suscetível aos voláteis preços da eletricidade no Brasil”, alerta.

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Produção efetiva de E2G

O analista Yuan-Sheng Yu também observa que os produtores de etanol celulósico ainda estão guardando segredo sobre o quanto efetivamente está sendo produzido. No entanto, ele realizou uma estimativa com base em dados divulgados pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA).

A partir dos números de identificação de renováveis (RINs), ele calculou que a produção da planta da Poet-DSM foi de aproximadamente 750 mil galões [2,84 milhões de litros] em 2015. Segundo a empresa, a capacidade da planta seria de 25 milhões de galões [94,64 milhões de litros] por ano, ou seja, a produção efetiva correspondeu a 3% da capacidade.

Já a Abengoa – que teve as atividades suspensas no começo de dezembro – produziu aproximadamente 500 mil galões [1,89 milhão de litros]. A companhia também declarou uma capacidade produtiva de 25 milhões de galões anuais, de modo que o resultado corresponde a 2%.

Como a DuPont iniciou oficialmente a produção em escala comercial em dezembro de 2015, o pesquisador não teve a oportunidade de levantar os números da companhia. A princípio, a capacidade da planta seria superior à de suas concorrentes, chegando a 30 milhões de galões [113,56 milhões de litros] por ano. Caso ela produza 3% desse total, seguindo a tendência da Poet-DSM, isso representaria 900 mil galões [3,41 milhões de litros].

Com relação a GranBio e Raízen, o analista observa que os números são “um pouco mais obscuros”. Com base em informações divulgadas pelo Conselho de Qualidade do Ar da Califórnia (Carb), ele estima que a produção da GranBio tenha alcançado um valor entre 150 e 330 mil galões [de 567,81 mil a 1,25 milhão de litros]. Esse total representa entre 0,7% e 1,5% da capacidade de 22 milhões de galões [83,28 milhões de litros], apontada por Yu.

“Essa limitação foi majoritariamente devido a problemas operacionais, motivados por questões mecânicas, e pela quantidade de matéria-prima necessária pela indústria para sua grande inauguração”, aponta Yu.

Por sua vez, a única informação oficial com relação à Raízen é originária de um relatório da própria empresa, datado de julho de 2015, em que a companhia divulgou que esperava produzir 2,6 milhões de galões [9,84 milhões de litros] em 2015. “Mas esse não foi o caso e nós projetamos uma produção de aproximadamente 265 mil galões [1 milhão de litros]”, complementa o analista. Assim, a projeção de produção de 26% da capacidade – calculada em 10,6 milhões de galões [40,13 milhões de litros] anuais – caiu para um resultado de 2,5%.

“Até o momento, todas as unidades estão lutando para lidar com problemas mecânicos e nenhuma companhia conseguiu se destacar das demais”, conclui Yu.

Ainda assim, há espaço para otimismo

O analista também comentou a recente diminuição das metas da Novozymes com relação ao etanol celulósico. A empresa é responsável pelo fornecimento de enzimas para as duas unidades brasileiras – GranBio e Raízen – e para a italiana Beta Renewables.

“Embora a Novozymes tenha uma clara liderança no mercado de enzimas dentro do segmento celulósico, essa mudança de perspectiva com relação ao etanol não representa a palavra final no desenvolvimento tecnológico”, opina. E complementa: “DSM, DuPont e Dyadic também estão desenvolvendo suas próprias enzimas e essa forma integralizar verticalmente a produção pode gerar benefícios em longo-prazo, como preços menores e uma maior otimização específica para o processo próprio de fabricação de etanol celulósico”.

Sobre o sentimento de que os resultados não estão tão bons quanto o esperado, o analista pede paciência, mesmo considerando que as expectativas foram criadas pelas próprias empresa de E2G. “Muitos esquecem que, embora o etanol celulósico tenha enfrentado atrasos do passado e esteja com dificuldades, 2015 foi apenas o primeiro ano de operação para muitas dessas companhias”, alega.

De acordo com Yu, processos biológicos e de engenharia nessa escala, especialmente quando se trata de novas tecnologias, podem demorar para serem melhorados e otimizados. “Por mais que estejamos reticentes com o etanol celulósico dado os resultados de 2015, ainda é muito cedo para afirmar que a tecnologia tenha falhado e acreditamos que 2016 pode contar uma história diferente”, aponta e exemplifica: “Em janeiro de 2016, por exemplo, os Estados Unidos produziram mais que o dobro do etanol celulósico registrado em janeiro de 2015”.

Problemas da Abengoa vão além do etanol celulósico

Com relação à planta da Abengoa, que possui os maiores custos de produção, Yu acredita que a situação é relativa a dois erros: um estaria na própria companhia, que enfrenta problemas mais amplos, e o outro seria na estratégia de fazer projetos que exigem investimentos intensivos de capital. “As questões da Abengoa têm raízes mais profundas que a planta em Hugoton (Kansas), ainda mais considerando o débito operacional”, afirma.

Atualmente, a Abengoa enfrenta uma crise. Sua sede está passando pelo que pode ser o maior caso de recuperação judicial da Espanha, suas unidades de bioenergia dos Estados Unidos pediram proteção contra falência e, no país, Abengoa Construção Brasil, Abengoa Concessões Brasil Holding e Abengoa Greenfield Brasil Holding também entraram com pedido de recuperação judicial. Embora não esteja nessa lista, a Abengoa Bioenergia está encaminhando um plano de reestruturação interna e o plano de viabilidade da matriz inclui a sua venda.

Ainda que fosse desconsiderado esse contexto, o analista da Lux Research comenta que a planta de etanol 2G da companhia, com custos estimados em US$ 500 milhões, tornou-se um exemplo negativo para seus clientes. “Em 2012, quando o projeto foi anunciado, ninguém na Abengoa poderia prever que o preço do petróleo cairia para US$ 30/barril, mas um investimento dessa magnitude é um projeto arriscado e caro”, pondera. Um caso similar é o da Solena Biofuels, que teve seu projeto de US$ 550 milhões engavetado no ano passado e precisou entrar com pedido de falência.

Novos caminhos incluem escalas menores de produção e investimento

Assim, a recomendação de Yu é seguir a tendência de investimentos mais leves de capital. Os exemplos citados por ele são a Quad County Corn Processors (QCCP) e a Edeniq, que optaram por escalas menores do biocombustível.

“Ambas produzem etanol celulósico integrando seus equipamentos às já existentes plantas de etanol de primeira geração, aproveitando a infraestrutura existente e reduzindo o investimento de capital necessário”, explica.

A QCCP investiu US$ 8,5 milhões para instalar uma capacidade de 2 milhões de galões [7,57 milhões de litros] de etanol celulósico por ano, montante que irá se somar aos 30 milhões de galões [113,56 milhões de litros] de etanol de milho já produzidos na unidade.

Reportagem: Renata Bossle

Design: Paola Soto

Programação: Juliano Rossetto

Coordenação: Julio Cesar Vedana

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