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Entrevistas

10 perguntas para Maurílio Biagi Filho, presidente do Grupo Maubisa


Isto É Dinheiro - 10 jun 2013 - 09:03 - Última atualização em: 29 nov -1 - 20:53
Maurilio Biagi Filho, do Grupo Maubisa
A expansão da economia na última década tem feito o Brasil enfrentar gargalos que drenam a riqueza do País. Infraestrutura deficiente, falta de planejamento de longo prazo e questões ambientais que se chocam com os interesses do setor privado. O empresário Maurílio Biagi Filho, presidente do Maubisa, um dos maiores grupos nacionais do agronegócio, vê uma nação de extremos. "Por um lado, os investidores estrangeiros, mesmo sem entender direito o País, estão aqui", diz Biagi Filho. "Por outro, se torna imprescindível fazer ajustes rápidos e objetivos, pois o Brasil não está competitivo." Para ele, o Plano Safra, que colocou R$ 136 bilhões à disposição da agricultura, traz um pequeno alento ao setor, ao garantir recursos para a construção de silos e armazéns.

O governo anunciou a disponibilidade de R$ 136 bilhões para a agricultura, no Plano Safra, na semana passada. O que significa isso para o setor?
Não há nada de novo aí. No entanto, a meta de investir R$ 25 bilhões em armazenamento de grãos, anunciada dentro do plano, num momento em que não há uma logística apropriada, é positiva, pois é mais rápido construir silos do que resolver todos os gargalos de infraestrutura a tempo. Antes, não havia um plano específico para esse fim.

Armazenagem é o ponto mais relevante para os produtores?
É o ponto crucial neste momento, em função da safra. O importante nesse ponto é que essas metas aconteçam! É fato, porém, que só surtirá efeito dentro de dois ou três anos. Toda solução para resolver a infraestrutura passa por um período de grandes investimentos. Armazenamento é a solução mais ágil.

Apesar das perdas, a agricultura salvou uma vez mais o PIB. Essa tendência continua?
Mais uma vez, a agricultura se mantém como base da economia brasileira. Apesar de o crescimento ser baixo, sem a agricultura seria horrível. Mesmo assim, alguns setores não estão tão bem, como é o caso de café, laranja e cana, cujos preços finais estão sendo afetados por fatores específicos. O problema mais sério é o da cana, por causa da falta de perspectiva de longo prazo para o etanol.

O pacote para incentivar a produção de etanol, anunciado em março, não foi positivo?
Bem, os anúncios foram feitos sobre medidas que já existiam. Baixou juro para estocagem de álcool, tudo bem. Mas essa linha já existia. Aumentaram a proporção de etanol para a gasolina, mas na verdade foi uma retomada da medida anterior, de 25% de álcool na mistura. As linhas de financiamento abertas pelo BNDES, seja com juros altos, seja com juros mais baixos, não estão sendo acessadas porque os produtores estão endividados. A única medida efetiva foi a desoneração do PIS e da Cofins sobre o etanol. Mas é só R$ 0,12 por litro, ninguém vai ver a cor do dinheiro. Não temos perspectiva de longo prazo.

Questões como essa não demonstram que o Brasil está crescendo e, ao mesmo tempo, criando desafios bem mais complexos?
Veja os índios que estão reclamando porque não são recebidos no Planalto para tratar de suas áreas demarcadas. É preciso trabalhar com bom-senso. É uma questão de organização. A violência é inerente aos conflitos. Se o governo age, é criticado. Se não age, é criticado também. Agora, uma minoria não pode fazer todo esse barulho.

O peso das causas indígenas foi subestimado quando os projetos de infraestrutura foram planejados?
Com todas as estimativas feitas à época, ninguém previu o que aconteceria. Essas zonas de conflito significam um encarecimento enorme das obras, sem contrapartida. O Brasil não tem sabido aproveitar as vantagens de ter essa reserva verde. No futuro, isso vai ficar claro. Temos uma matriz energética fantástica. E, ao mesmo tempo, temos regras rígidas. Lá no Acre só se pode abrir 20% da sua área para exploração comercial, e o resto é reserva.

Não faltou aumentar a equipe de funcionários do governo para atender à necessidade de fiscalizar as questões ambientais?
Antes, havia uma fiscalização que orientava mais. Não havia a criminalização que existe hoje. Dentro do próprio governo, com a parafernália de ministérios, com o emaranhado de normas, está começando a dar curto-circuito. Essa questão dos índios deixou isso muito claro. Juiz manda reintegrar, governo diz que ainda não. São questões que afetam a todos. Os brasileiros mais velhos estão ficando cansados.

Esse cansaço se reflete em falta de investimentos?
Há dois extremos no Brasil. Os investidores estrangeiros, mesmo sem entender direito o País, estão aqui. É uma nação extraordinária, mas precisa de ajustes rápidos e objetivos, pois o Brasil não está competitivo.

Isso explica a promessa do grupo argentino Los Grobo, que vendeu sua parte na Ceagro para a japonesa Mitsubishi, de que vai voltar a investir no País?
O empresário Gustavo Grobocopatel é encantado com o Brasil. Apareceu uma oportunidade fantástica de vender a Ceagro (por US$ 500 milhões, segundo estimativas) e ele aproveitou. Mas tudo que ele recebeu pela venda voltará para o Brasil. Tem tanto para fazer por aqui que não faltará oportunidade.

E também não faltará retorno?
Nós temos essa questão de infraestrutura e de logística, isso representa um imposto invisível muito grande para o agricultor. Mas eu sou um entusiasta. A gente critica de forma mais dura, mas mostra pontos que precisam ser melhorados.

Por Carla JIMENEZ