Entrevistas

Entrevista: desafios para o setor sucroalcooleiro


Revista Agroenergético - 10 dez 2012 - 18:17 - Última atualização em: 19 ago 2021 - 12:08

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O Chefe de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Embrapa Agroenergia, Guy de Capdeville, concedeu entrevista a equipe do Jornal Agroenergético sobre o setor sucroenergético.

Como você vê o cenário do setor sucroalcooleiro em relação ao etanol para transporte e geração de energia?
O setor sucroalcooleiro energético, apesar de ser o setor de produção de energia melhor estruturado no país, está passando por um período crítico, pois quando o preço do açúcar está em alta no mercado externo a produção de etanol é reduzida e a produção de açúcar é aumentada no Brasil. Este fato coloca o setor de combustíveis em situação crítica, pois com esta situação o país necessita importar etanol para atender à demanda interna. A solução para o problema reside em desenvolver novos processos de produção de etanol com o etanol lignocelulósico (segunda geração) e ampliar a produção nacional, principalmente considerando a área de expansão do cerrado e possibilidade de ganho de produtividade com irrigação.

Além disso, há necessidade de se realizar mudanças nos encargos tributários como Pis-Cofins, ICMS, etc. de forma a aumentar a margem de lucro dos produtores e, desta forma, estimulá-los a aumentar a produção de cana no país. Países vizinhos como a Argentina estão investindo na construção de plantas de etanol de milho (informação recebida do representante do ministério da agricultura da Argentina), mas considerando as barreiras que a União Europeia está planejando impor aos países produtores de biocombustíveis (somente 5% do combustível pode ser obtido de fontes alimentares com soja, milho, etc), ações como esta da Argentina podem ter consequências importantes para o setor energético daquele país. Este não é o caso do Brasil, felizmente.

Quais os projetos da Embrapa para o setor sucroalcooleiro? Qual é esse portfólio de projetos, quais são os investimentos?
A Embrapa possui um portfólio de Pesquisa específico para o Setor Agroindustrial Sucroalcooleiro Energético o qual é composto de inúmeras ações e projetos de pesquisa. Considerando este portfólio, foi realizado um levantamento detalhado da situação das pesquisas com cana-de-açúcar na Embrapa, permitindo-se conhecer as lacunas da pesquisa no setor bem como definir ações e temas estratégicos para o setor no Brasil. Tal análise levou em consideração tanto as demandas do setor privado como do setor público. Recentemente, a Embrapa, a Ridesa e o IAC iniciaram a construção de um projeto de pesquisa, liderado pela Embrapa Agroenergia e financiado pela Finep, com o objetivo de realizar ações de pesquisa voltadas a construção de um Programa Plurianual de P,D&I para a cana-de-açúcar entre as três instituições. A Embrapa Agroenergia está construindo, também, ações de pesquisa com o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) como foco em processos industriais e em biotecnologia parta o setor. Os investimentos para estas ações de pesquisa virão não somente da Embrapa, mas também, de órgãos de fomento como a Finep, o BNDES, Fundos Setoriais, entre outros.

Qual a importância do setor trabalhar dentro do conceito de biorrefinaria?
Acredito que o setor industrial precisa dar ênfase ao fato de que uma planta de biocombustíveis do futuro, seja de etanol, biodiesel, bioquerosene ou outro biocombustível qualquer, não pode ser economicamente viável se pretender basear sua produção em uma única biomassa (cana, soja, etc) ou em um ou poucos produtos como, por exemplo, etanol e açúcar. As plantas do futuro somente terão viabilidade econômica se forem capazes de produzir múltiplos produtos de uma mesma biomassa, ou um ou poucos produtos de várias biomassas distintas, na lógica de uma refinaria flex (biorrefinaria), de forma que um dado produto do refino possa, eventualmente, cobrir os custos de produção de um segundo ou terceiro produto. A Embrapa Agroenergia vem atuando fortemente com o objetivo de ampliar suas ações em biorrefinarias e, para tanto, já temos uma série de projetos aprovados voltados a esta área. Que medidas o governo está estudando para estimular a retomada do setor de bioenergia em geral e do sucroalcooleiro energético em particular; O governo tem procurado dar incentivos e tem buscado definir estratégias, políticas e normas para o setor de biocombustíveis brasileiro. As ações incentivadoras tem se dado principalmente junto ao setor industrial por meio do financiamento de parcerias entre o setor privado e o setor público para o desenvolvimento de tecnologias industriais. Entretanto, poucas ações tem sido de fato direcionadas a resolver o que nós da Embrapa Agroenergia pensamos ser o maior problema para o setor de biocombustíveis que é a disponibilidade de matérias primas alternativas à soja e à cana, como é o caso de inúmeras palmáceas (Babaçu, Macaúba, Inajá, Carnaúba) e outras plantas como o Pinhão-Manso e a Fevilha. Considerando demandas prementes de setores como o de combustíveis de aviação, de biodiesel, de etanol, entre outros, não há como o Brasil ser auto-suficiente e ser um exportador de biocombustíveis se não houver fontes de biomassas alternativas. A título de exemplo podemos citar duas situações que mostram claramente este ponto. A primeira diz respeito à constante competição entre etanol e açúcar. Se a produção do etanol não for desvinculada da produção de açúcar sempre estaremos dependentes dos preços do açúcar no mercado externo e, sem aumento de produção e de produtividade não conseguiremos suprir nem mesmo o mercado interno. O segundo exemplo está relacionado ao Biodiesel. Se o Governo Federal mantivesse a estratégia de ter uma mistura de 20% de biodiesel no diesel brasileiro até 2020 (este percentual foi reduzido para 10% até 2020), o Brasil teria que esmagar toda a soja produzida no país, fato que impediria que continuássemos exportando soja em grão para países como China e países da Europa. O aumento tanto na produtividade como na produção de cana e soja não será suficiente para atender à crescente demanda dos diferentes setores. Portanto, torna-se fundamental que o país invista no desenvolvimento e produção de novas biomassas e a Embrapa tem papel fundamental nesta ação.

Quais são os entraves à recuperação do setor?
A solução do problema reside em ações que envolvem todos os players do setor de energia. Alguns exemplos são:
- Desvincular a produção de açúcar da produção de etanol.
- Aumento de produtividade da cana (Forte atuação da Embrapa).
- Políticas governamentais claras, bem definidas e direcionadas a cada um dos setores de biocombustíveis.
- Políticas de tributação que favoreçam os principais players do setor, principalmente o produtor de biomassa e o produtor de biocombustíveis).
- Apoio ao desenvolvimento de novos métodos de produção de etanol como o de etanol de segunda geração.
- Desenvolvimento, produção e utilização de biomassas alternativas para a produção de etanol (sorgo sacarino), principalmente durante a entressafra da cana quando as usinas ficam ociosas.

Qual é o cenário da pesquisa de etanol de segunda geração?
A Embrapa Agroenergia vem desenvolvendo pesquisas com diferentes biomassas lignocelulósicas para a produção de etanol de segunda geração. Entre elas estão os capins (elefante, etc), resíduos de culturas como o dendê, florestas, palha de cana, sorgo biomassa, entre outras. Estamos buscando microrganismos e enzimas capazes de digerir tanto celulose como a lignina, para fermentar e produzir etanol de segunda geração. Estas ações de pesquisa não são simples e precisam de incentivo financeiro para que sejam realizadas as ações necessárias ao desenvolvimento de um ou mais processos eficientes de produção de etanol. Estamos desenvolvendo também, pesquisas voltadas a produção de cultivares de cana que possuam mecanismos fisiológicos para, sob condições especiais de temperatura, possam iniciar a degradação das paredes celulares da planta tornando os resíduos de açúcares das paredes celulares disponíveis para o processo fermentativo. Estes últimos estudos são baseados em ferramentas de descoberta de genes, transformação genética e melhoramento genético clássico.

Tags: Outros

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