Carro elétrico

[Opinião] Etanol como alternativa a veículos elétricos representa um futuro promissor


NovaCana - 20 ago 2021 - 11:56

Por José R. Moreira* e José Goldemberg**

A eletrificação total da frota mundial de transporte tem sido apresentada como uma solução do problema das emissões de carbono que se origina dos automóveis e caminhões.

No modelo mais simples, os motores de combustão interna são eliminados e substituídos por bancos de baterias que garantiriam a autonomia necessária a estes veículos. A recarga das baterias necessitaria, é claro, de fontes de eletricidades renovável. Caso esta energia se origine da queima de fontes fósseis em usinas termelétricas, as emissões dos meios de transporte seriam substituídas pelas emissões das usinas termelétricas.

É difícil fazer uma recarga a partir de fontes renováveis em países como os Estados Unidos, Alemanha, Japão, Rússia e outros, onde a maioria da eletricidade é produzida queimando combustíveis fósseis. A substituição por fontes renováveis permanece como um problema de difícil solução.

Sucede que existem alternativas para a eliminação do uso de gasolina em automóveis que são vantajosas em relação ao uso de baterias. A mais atraente delas é o uso do etanol da cana-de-açúcar, do qual o Brasil é o maior produtor mundial.

As emissões que ocorrem quando se produz etanol são de três tipos: emissões diretas decorrentes da plantação, cultivo, colheita e transporte da cana; emissões diretas decorrentes da perturbação no uso do solo onde a cana de açúcar é plantada (LUC); e emissões indiretas que ocorrem em outros locais, causadas pelo cultivo que eventualmente foi deslocado pela cultura da cana (ILUC).

Usando etanol de cana-de-açúcar, como atualmente ocorre no Brasil, é possível obter reduções de cerca de 50% nas emissões de carbono de veículos automotores considerando todo o ciclo de vida do processo quando comparado com o uso de gasolina. Neste ciclo de vida se consideram as emissões diretas, o LUC e o ILUC.

Mais ainda pode ser feito para aumentar a sustentabilidade ambiental do etanol usando veículos híbridos do tipo plug in com motores flex, pois a quantidade de etanol requerida é menor do que nos veículos tradicionais visto que a energia usada é compartilhada entre o combustível e a eletricidade. Além disso, a eletricidade usada pode vir parcialmente ou totalmente das usinas de cana, pois elas geram eletricidade usando bagaço da cana.

Outra oportunidade que pode ser explorada está ligada ao aumento da eficiência dos motores a etanol. Como é largamente discutido na literatura científica e sempre mensurado, por exemplo, pelo aplicativo de valoração comparativa de gasolina e etanol desenvolvido pela Volkswagen no Brasil, esta oportunidade vai permitir que o etanol possa atingir eficiência igual à da gasolina quando medida em litros por quilômetros rodados.

Os produtores de cana e as usinas de etanol podem colaborar de forma significativa na redução das emissões de etanol por meio da otimização do tempo de reforma dos canaviais, da utilização de colhedoras mais apropriadas para a cana e com a migração para irrigação. Quanto às usinas, elas poderiam aumentar a eficiência na produção de eletricidade produzida usando caldeiras de alta pressão e resíduos de cana após o tratamento físico e químico da palha, além de operar seus geradores de eletricidade durante a entressafra usando biomassa complementar.

A captura e armazenamento do CO2 é também uma possibilidade concreta. As usinas geram CO2 durante o processo de fermentação do caldo para transformá-lo em etanol. Este CO2 pode ser armazenado e removido da atmosfera dando origem a veículos a etanol com “emissões negativas”.

Uma cooperação entre produtores de automóveis e usineiros, atuando em aprimoramentos tecnológicos, poderia viabilizar uma solução para o problema das emissões de carbono do setor automotivo, no Brasil e no mundo, melhor do que a eletrificação com todos os seus problemas.

* José Roberto Moreira é doutor em Física pela USP e foi membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU. Atualmente, faz parte da equipe do Instituto de Energia e Ambiente da USP.

** José Goldemberg é doutor em Ciências Físicas pela USP, onde foi reitor de 1986 a 1990. Também foi presidente da Sociedade Brasileira de Física e ministro da Educação. Com passagens pelas universidades de Paris, Princeton, Stanford e Toronto, atualmente faz parte da equipe do Instituto de Energia e Ambiente da USP.


Textos opinativos não necessariamente traduzem a opinião do NovaCana. A publicação visa estimular o debate e proporcionar uma variedade de pontos de vista para os leitores.


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