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Carro elétrico

KPMG: Indústria automobilística é lenta na transição e “parece estar apegada às velhas práticas”

Estagnado em velhas práticas, setor precisa mudar de cultura, ou não conseguirá competir com os carros elétricos e suas novas tecnologias


Bloomberg - 18 abr 2019 - 16:25

As montadoras estão se dando conta que é mais fácil adotar medidas cosméticas em relação à economia digital do que realizar as transformações profundas necessárias para uma integração plena.

Se alguns executivos trocaram o terno e gravata pelos trajes casuais, e hoje os carros saem de fábrica equipados com softwares modernos e vistosos, a concomitante transição cultural dentro das empresas caminha a passos lentos e penosos. É o que concluiu um estudo conjunto realizado pela KPGM e pela consultoria Egon Zehnder, divulgado na feira de automóveis de Xangai deste ano.

O setor “parece estar apegado às velhas práticas”, dizem os pesquisadores, que entrevistaram mais de 500 executivos da indústria automobilística em todo o mundo. “Os líderes reconhecem o desafio sem precedentes que têm pela frente, mas precisam ainda implantar uma nova cultura, adaptada ao mundo digital, para terem êxito.”

A mensagem não podia ser mais atual. O CEO da Daimler, Dieter Zetsche, que deve deixar o cargo em breve, tem comparecido de jeans e tênis aos lançamentos de novos modelos da marca, enquanto a Volkswagen escolheu Berlim, a uma hora de trem da matriz em Wolfsburg, para sediar a Moia, nova subsidiária voltada para tecnologias do futuro. Fábricas por todo o mundo, de Detroit a Turim, estão sendo reformatadas para produzir os vários modelos elétricos planejados para os próximos anos.

Na fundamental área da cultura corporativa, porém, pouco se fez para adaptar as empresas aos tempos digitais, na opinião de mais da metade dos entrevistados. Se a maioria absoluta concorda que o ambiente de trabalho deve ser repensado levando em conta as transformações do mercado, apenas um terço dos executivos se mostraram favoráveis a conceitos como o de uma estrutura de gestão menos vertical. E um percentual ainda menor vê com bons olhos uma maior tolerância para com erros dos funcionários.

“Os executivos ainda estão pensando na transformação digital em termos de uma mudança de processo, e não como uma mudança de mentalidade”, afirma o estudo.

Pergunta

Percentual de concordância

É preciso redefinir a cultura?

92%

Isso já se concretizou? 

55%

Novos e velhos modelos de negócio podem caminhar lado a lado

66%

Receptivo a hierarquias menos rígidas?

34%

Receptivo a um ambiente de maior tolerância ao fracasso?

28%

 

Os resultados parecem confirmar o ceticismo dos investidores, que não acreditam na capacidade das montadoras tradicionais se adaptarem com rapidez e conquistarem novas oportunidades de negócio na transição radical por que passa a indústria – os elétricos cheios de gadgets de última geração estão tomando o lugar dos veículos a combustão, e cada vez mais pessoas abrem mão de ter um carro na garagem, preferindo utilizar aplicativos de carona e compartilhamento de veículos, tecnologias nas quais seus rivais tecnológicos ostentam pioneirismo. Mesmo empresas em situação financeira relativamente saudável, como a Volkswagen e a Daimler, têm visto seus indicadores relativos de vendas caírem para patamares dignos de épocas de recessão.

Não sem sacrifício, as montadoras vêm investindo pesado para abrir laboratórios urbanos nos grandes centros, com escritórios que se parecem com lounges, mais apropriados para reuniões com startups, e espaço para abrigar programadores, que jamais aceitariam se deslocar até o interior do país para trabalhar em gigantescos anexos fabris.

Maior fabricante de automóveis do mundo, a Volkswagen criou um programa chamado Faculty 73 na Alemanha, para treinar 100 operários dispostos a se tornar programadores de software, ao passo que a Daimler fundou há mais de uma década o Lab1886, uma “incubadora corporativa” com filiais em Stuttgart, Berlim, Beijing e Atlanta. A Bosch, maior fabricante de autopeças do mundo, pretende contratar 25 mil programadores de ponta nos próximos cinco anos, e quadruplicar (para um total de 4 mil) o número de especialistas em inteligência artificial até 2021.

Novos concorrentes

Embora seja muita coisa, não está claro se será o bastante para impedir que empresas como Waymo (da Alphabet), Baidu e congêneres assumam as rédeas no segmento de tecnologias para carros autônomos, que fatalmente irão revolucionar a indústria.

“O que é preciso para mudar positivamente a indústria automobilística são parcerias audazes e em condição de paridade com players externos e digitais”, afirma Dieter Becker, consultor-chefe de automóveis da KPMG. “Está faltando uma visão clara e revolucionária”.

Christoph Rauwald - Bloomberg

Tradução e adaptação: novaCana.com