1 Tecnologia que permite direção sem motorista e a revolução dos aplicativos de celular podem impulsionar uso de elétricos. 2 Setor petrolífero deve sentir o baque com adoção maciça de novas formas de deslocamento

Bloomberg – novaCana.com 25 set 2017 - 09:51

 Passaram-se dez anos desde que a Apple desencadeou uma onda de inovações que desestruturou o setor de telefonia móvel. Os carros elétricos, com uma ajudinha das caronas compartilhadas e da tecnologia autônoma, podem estar prestes a fazer o mesmo com as gigantes da indústria petrolífera.

Os serviços da Uber Technologies e o Waymo, carro autônomo (sem motorista) da Alphabet, empresa do Google, podem turbinar a ascensão da Tesla e demais fabricantes de carros elétricos, da mesma forma que o iPhone impulsionou a indústria de aplicativos e a internet móvel de alta velocidade, dizimando gigantes da telefonia celular como a Nokia.

A culminação dessas tecnologias — os carros elétricos autônomos usados como táxis — pode mudar o modo como as pessoas se deslocam e contrariar as previsões mais conservadoras quanto ao impacto dos carros a bateria sobre a demanda de petróleo nas próximas décadas.

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“Os carros elétricos, por si só, podem não ter um efeito tão grande”, afirma David Eyton, chefe de tecnologia da British Petroleum (BP), uma das gigantes do petróleo. “Mas se acrescentarmos o uso de frotas compartilhadas e os aplicativos de solicitação de veículo, os números podem ficar bem mais significativos.”

A maioria vê a migração para os elétricos – e o concomitante declínio dos combustíveis fósseis no setor de transportes — como um processo gradativo, caminhando à base de pequenos ganhos de custo e capacidade para as baterias, e de um progressivo arrocho nas normas de emissão de poluentes. Porém, as grandes revoluções econômicas raramente se dão de forma tão retilínea, diz o economista Tim Harford, autor de um livro e uma série (transmitida pela Rádio BBC) sobre inovações históricas que transformaram a economia.

Mudança sistêmica

“Essas coisas são bem mais complicadas”, afirma Harford. Ao invés de os motores elétricos gradualmente assumirem o lugar dos motores de combustão interna dentro do modelo atual, é provável que haja “uma mudança sistêmica em algum grau”.

Foi isso que aconteceu dez anos atrás. O que o iPhone proporcionou não foi apenas uma nova maneira de se se fazer ligações telefônicas; foi a criação de um setor econômico inteiramente novo para empresas multibilionárias como a Rovio Entertainment, criadora do Angry Birds, ou o WhatsApp. A própria natureza do negócio de telefonia celular mudou, e empresas como Nokia e BlackBerry perderam seus postos de liderança para a Apple e fabricantes de aparelhos Android, com destaque para a Samsung.

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Atualmente, enquanto a Tesla, de Elon Musk, e outras montadoras consagradas, na linha da General Motors, se esforçam para fazer dos carros elétricos um produto atraente para o consumidor, empresas como a Uber e a Lyft estão transformando o transporte num serviço sob demanda, ao passo que a Waymo vem testando veículos 100% autônomos nas ruas da Califórnia e do Arizona.

Junte essas três coisas, por meio de um investimento da Alphabet na Lyft, por exemplo, e você terá um novo modelo de transporte como categoria de serviço, uma alternativa barata e atraente à idéia tradicional de ser dono de um automóvel. É nisto que aposta o think tank RethinkX, que analisa rupturas econômicas provocadas pela tecnologia.

Para Francesco Starace, CEO da Enel, maior empresa do setor energético italiano, uma vantagem crucial dos carros elétricos está na sua relativa simplicidade mecânica, que os torna mais aptos para o uso constante — algo que a tecnologia de piloto automático favorece. “Não vejo os carros sem motorista sendo adotados com o motor de combustão interna”, afirmou Starace em entrevista.

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O UBS Group desmontou um Chevrolet Bolt, da GM, e concluiu que ele quase não precisa de manutenção: enquanto o motor elétrico possui apenas três peças móveis, um motor de combustão interna com quatro cilindros possui 133.

“O item competitividade têm muito a ver com o quanto se utiliza o carro”, diz Laszlo Varro, economista-chefe da Agência Internacional de Energia, em entrevista. O veículo Uber médio percorre uma distância um terço maior que o carro de uma típica família europeia de classe média, ampliando a tal ponto o benefício do menor custo de manutenção, que “o preço do barril de petróleo no qual faz sentido migrar para o elétrico baixa em US$ 30”, acrescenta Varro.

Uber com esteroides

O custo total de posse de um carro elétrico e de um carro movido a combustível fóssil deve alcançar paridade em 2020 para frotas compartilhadas, cinco anos antes do que para veículos particulares, segundo a Bloomberg New Energy Finance (BNEF).

A Uber planeja operar o serviço UberX, já presente em Londres, com carros híbridos ou integralmente elétricos até o fim de 2019. Já a rival Lyft pretende ofertar pelo menos 1 bilhão de deslocamentos por ano em veículos elétricos autônomos até 2025, afirmando que eles são muito mais eficientes que os modelos a gasolina.

Para Steven Martin, CDO e vice-presidente da Energy Connections, subsidiária da General Eletric, essa combinação representaria “o modelo Uber com esteroides”. “Tão logo os carros inteiramente autônomos estiverem disponíveis, meu interesse em ser dono de um carro irá cair e eu estarei mais propenso a me cadastrar num serviço por assinatura”.

Barreiras para os carros autônomos

A transição para as frotas 100% autônomas talvez não se equipare à velocidade da revolução do smartphone devido à série de barreiras regulatórias, legais, éticas e comportamentais que precisam ser transpostas. Segundo previsões da BNEF, a tecnologia de piloto automático deve chegar ao mercado na década de 2020, mas sua adoção ampla não virá antes de 2030.

Ainda assim, a migração para os elétricos deve evitar o consumo de 8 milhões de barris diários de petróleo até 2040, mais do que os 7 milhões de barris diários exportados hoje pela Arábia Saudita, segundo a instituição londrina. O efeito disso sobre o preço do petróleo deve ser considerável: durante a crise financeira de 2008-2009, por exemplo, uma queda de 1,7 milhões de barris diários no consumo global fez a cotação da commodity despencar de US$ 146 para US$ 36.

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Isso não significa que gigantes como a British Petroleum e a Exxon Mobil estejam caminhando para uma derrocada inevitável ao estilo Nokia. Embora os combustíveis de transporte respondam pela maior parte das vendas, as petrolíferas também possuem enormes operações de conversão de petróleo em produtos químicos usados na fabricação de uma infinidade de produtos, de plásticos a fertilizantes. Elas também extraem grandes volumes de gás natural e geram energia renovável, duas áreas que podem se beneficiar de um aumento na demanda de eletricidade.

Mesmo que os veículos elétricos cresçam na velocidade prevista pela BNEF, o mundo consome atualmente 95 milhões de barris por dia, e outras fontes de demanda continuarão a crescer, segundo Spencer Dale, economista-chefe da BP. A gigante inglesa não acredita numa queda de demanda maior que 1 milhão de barris diários, com a adoção dos elétricos, até 2035, mas reconhece que o impacto pode ser bem maior caso a indústria enfrente um cenário tipo iPhone.

O espectro de possibilidades em aberto é tão grande que torna difícil uma previsão mais exata do que vai acontecer. Quando Steve Jobs apresentou o iPhone, poucos imaginaram o estrago que ele iria causar para fabricantes de tantos produtos — de câmeras a chicletes (com a difusão dos smartphones, as pessoas passaram a prestar menos atenção aos produtos expostos ao lado dos caixas de supermercado).

“O smartphone, com seus aplicativos, tornou possível novos modelos de negócio”, diz Tony Seba, economista de Stanford e um dos fundadores do RethinkX. “A mescla de frotas compartilhadas, motores elétricos e veículos sem motorista pode desestruturar vários setores, de estacionamentos a corretoras de seguro, passando pela demanda de petróleo e toda a cadeia de distribuição de combustíveis”.

Por Jess Shankleman e Hayley Warren, Bloomberg

Tradução e adaptação novaCana.com