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Carro elétrico

Carro híbrido flex e a hidrogênio são as tendências para o país, afirma diretor da EPE


Siamig - 06 ago 2019 - 07:45

O diretor de Estudos de Petróleo, Gás e Biocombustíveis da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), José Mauro Ferreira Coelho, participou como palestrante do Congresso Nacional de Bioenergia da Udop, em Araçatuba (SP). Na ocasião, ele também deu uma entrevista exclusiva ao Portal Siamig, da Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais.

Ao longo da conversa, ele abordou as tendências de mobilidade veicular no Brasil, o crescimento das fontes de energia eólica e solar e os desafios da bioeletricidade para uma maior inserção na matriz de energia elétrica nacional.

Como o senhor vê a inserção dos biocombustíveis, em especial o etanol, dentro das novas tendências de mobilidade veicular?
A EPE aborda o problema da mobilidade veicular, fazendo uma análise da transição energética para uma economia de baixo carbono, em função da mudança climática, proveniente das emissões de gases do efeito estufa. Um dos setores onde vemos maior alteração no uso da energia nos próximos anos é o de transporte, e vem a dúvida de como ficará o segmento de veículos leves no Brasil, diante da forte tendência no mundo da eletrificação. Outro ponto analisado é a tendência de crescimento da demanda por energia no mundo e no Brasil. Então, o desafio é de como atender essa demanda crescente em um cenário de mudança climática e restrição das emissões. Uma das respostas é da maior utilização dos biocombustíveis na matriz de transportes do país e do aumento da eficiência dos veículos, já que há uma previsão de crescimento deste mercado.

Mesmo num cenário de crise econômica pelo qual passa o país?
Falamos de um cenário até 2030, com a retomada do crescimento econômico, redução da taxa de desemprego a volta do crédito. No auge das vendas de veículos no Brasil em 2012, foram comercializados cerca de 3,6 milhões de unidades; depois, as vendas caíram para dois milhões em 2017 e 2,2 milhões em 2018. Para este ano, a previsão é de 2,5 milhões de unidades. Mas a EPE faz projeções de uma comercialização de até 5 milhões de veículos em 2030 e isso não será difícil, pois a indústria automotiva nacional já tem capacidade instalada para produzir esse volume de carros e a taxa de motorização no Brasil é ainda muito pequena, cerca de cinco habitantes por veículo, enquanto na Argentina são três habitantes por veículo.

Como o senhor vê a questão do avanço dos veículos híbridos e elétricos?
Quando a gente analisa o mercado de veículos leves no país, é muito pouco o licenciamento de híbridos, em torno de 0,15%, e ainda vemos muitos entraves para a entrada de veículos elétricos, como da bateria, o custo, a autonomia e a necessidade de infraestrutura de abastecimento. O preço do híbrido e do elétrico é muito alto, bem acima de R$ 100 mil e com participação de apenas 4% das vendas do total comercializado no país. Então, no curto prazo, o que prevemos é um aumento da eficiência dos motores dos carros leves, no médio prazo, a opção do carro híbrido flex fuel e, a longo prazo, os veículos a hidrogênio onde o combustível alternativo seria o etanol. Nós acreditamos no avanço da eletrificação dos veículos no Brasil, mas com biocombustíveis, em especial o etanol, tendo em vista os diferenciais competitivos que o país tem em relação aos outros países na mitigação das emissões e diminuição das importações de combustíveis fósseis.

E o Renovabio?
Sem dúvida, o Renovabio é importante para essa expansão da produção e oferta de etanol. Acreditamos que o produto se tornará mais competitivo e ganhará da gasolina na participação de mercado. Como consequência, isso vai levar a uma expansão do canavial e a um funcionamento de novas usinas, com previsão do país chegar a uma oferta de 48 bilhões de litros de etanol em 2030, de forma sustentável e com previsibilidade.

Gostaria que o senhor falasse um pouco sobre as tendências também na área de energia elétrica. Como fica a bioeletricidade?
Hoje, temos no Brasil 369 usinas sucroenergéticas. Destas, 200 ou 54% comercializam energia elétrica; e, dentro desse grupo, 60% fazem a venda, exclusivamente, no ambiente de contratação livre, 20% vendem no sistema regulado (através de leilões) e 20% nos dois ambientes. Se analisamos a matriz elétrica brasileira, 5% é geração de energia a partir de biomassa ou 3,1 GW médios e 4% de biomassa da cana (2,5 GW médios). O país está processando em torno de 608 milhões de toneladas de cana e as projeções mostram um processamento de mais de 800 milhões de toneladas de cana em 2030. Isso dá algo em torno de 230 milhões de toneladas de bagaço, fazendo com que a geração da biomassa da cana salte de 2,5 GW médios para 7 GW médios, o equivalente a uma usina de Belo Monte e meia. Se considerarmos a possibilidade de palha e ponta teríamos mais 11 GW médios adicionais, ou seja, um total de 18 GW médios, permitindo uma utilização muito maior dessa energia na matriz elétrica.

Mas o que a gente nota é um crescimento grande da energia eólica e solar.
Atualmente, o país conta com uma inserção grande da eólica e do solar, mas são fontes intermitentes. Para suprir essa intermitência, teremos que ter alguma fonte de base, que poderiam ser as hidrelétricas. Porém, muitas delas são a fio de água e, por isso, sujeitas a regimes hídricos não favoráveis. Caberia, então, este papel às térmicas a gás natural ou a biomassa e aí, mais uma vez, entra a importância da bioeletricidade. Além das externalidades positivas dessa energia: a ocorrência próxima ao consumidor, ter complementariedade com a escassez hídrica e a menor emissão de gases do efeito estufa. Mas é importante avançar na eficiência. Algum tempo atrás, utilizava-se em torno de três toneladas de bagaço para produzir um metro cúbico de etanol e uma tonelada de açúcar. Com o aumento da cogeração e das caldeiras, hoje, utiliza-se menos bagaço – em torno de duas toneladas – para produzir a mesma quantidade de açúcar e etanol citada. É preciso evoluir, também, no uso da palha e da ponta, que poderia resolver o problema da sazonalidade da geração elétrica da cana. Uma geração ao longo de todo o ano tornaria este negócio mais viável.