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O preço do açúcar: no reino de Hades


Archer Consulting - 12 nov 2012 - 09:50 - Última atualização em: 29 nov -1 - 20:53
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O mercado de açúcar fechou a semana com baixa de 39 pontos no vencimento março/2013, que encerrou cotado a 19,06 centavos de dólar por libra-peso após ter visitado o reino de Hades, nos subterrâneos da Terra, por breve e sofrido momento. Hades era o deus do inferno, na mitologia grega, e o seu reino era um lugar onde predominava a tristeza, conquistado depois de ter lutado e vencido os Titãs. Na partilha, Zeus ficou com o céu, Poseidon com os mares e Hades com o reino das profundezas, onde o açúcar se encontra no momento.

É geral o sentimento de desânimo entre produtores e traders. O mercado está deprimido, com preços negociando nas mínimas de 26 meses, ou precisamente 566 pregões que não se via preço a 18,66 ou abaixo. O mercado físico largado, com o VHP sendo negociado com até 75 pontos de desconto contra o vencimento março/2013, para embarque em novembro, dá uma ideia do apetite de faquir com o qual o mercado spot trabalha. Some-se um prêmio de 20 pontos para cada mês subsequente de embarque e teremos março/13 menos 55 pontos para embarque dezembro, março/13 menos 35 pontos para embarque em janeiro e assim sucessivamente.

Como alento, parece haver uma conta que poucos traders estão fazendo. Já volto ao assunto. Como foi noticiado amplamente na imprensa, o governo teme que ocorra falta de combustíveis ainda este ano ou começo do ano que vem, o que seria o merecido coroamento de sua incontestável incompetência na política e gestão dos combustíveis, marca registrada do governo Dilma. Vejamos isso: o potencial de exportação de etanol para o próximo ano é de 3,3 bilhões de litros, dos quais 2,8 bilhões de anidro e 0,5 bilhão de hidratado. Se a produção de cana em 2013/2014 for mesmo as 560 milhões de toneladas como acreditam vários analistas de mercado e, assumindo que o mix de produção seja muito próximo do que estamos vendo nesta safra (os últimos números divulgados pela UNICA mostram 49,74% para açúcar em 50,26% para etanol), com um rendimento agrícola melhor, o Centro-Sul produziria 36,6 milhões de toneladas de açúcar e 22,7 bilhões de litros de etanol.

O modelo da Archer Consulting estima para 2013/2014 uma frota de 35,8 milhões de veículos que deverão consumir 21,8 bilhões de litros de etanol. Ou seja, se o potencial de exportação acima mencionado for alcançado, teremos em tese uma falta de 2,4 bilhões de litros de etanol no papel, que sobe para 4,2 bilhões de litros se considerarmos um estoque mínimo de 15 dias.

Nesse ambiente hipotético, o preço de suporte do açúcar no mercado internacional passaria a ser a relação do preço do anidro negociado lá fora que vai forçar a usina a desviar mais cana para a produção do produto que for mais rentável. Uma operação de arbitragem. Aos preços sinalizados hoje, baseando-se no fechamento de sexta-feira, pegando o etanol em Chicago e calculando sua equivalência em açúcar FOB Santos, chegamos a 18 centavos de dólar por libra peso, ou seja, as usinas começariam a privilegiar o etanol (lembre-se que o mercado físico de açúcar negocia com desconto). Se isso ocorrer, a oferta de açúcar no CS sofre uma redução equivalente a 3,8 milhões de toneladas tornando mais voláteis quaisquer oscilações de volume com seus imediatos reflexos no mercado internacional. 2013 deverá ser um ano que vai demandar muita atenção no planejamento estratégico. E muita coragem para ficar vendido açúcar a descoberto a 18 centavos de dólar por libra-peso.

O total de cana moída até final de outubro foi de 455.556.839 toneladas. Nas quatro safras anteriores, o total moído acumulado nesse período acabou representando uma média 85% do total da safra correspondente. Num simples exercício matemático, poderíamos dizer que a safra atual chegaria a 535 milhões de toneladas?

Os fundos não indexados aumentaram suas posições vendidas para 39.000 lotes. Na semana passada esse volume era de 26.000 lotes. Ou seja, em uma semana eles adicionaram o equivalente a 660.000 toneladas de açúcar vendidas a descoberto. Agora os fundos estão short (vendidos a descoberto) num total de quase 2 milhões de toneladas. Se o cenário discutido acima tiver a mínima coerência e chance de ocorrer, eu não quero estar perto quanto essa posição dos fundos atingir as pás do ventilador, se é que me entendem.

Com os preços de fechamento dos mercados na sexta-feira, uma usina que tenha o mesmo mix de produção do Centro Sul tem margem negativa 0,25 dólares por tonelada de cana moída. Isso sem contar com o custo financeiro que faria com que a margem negativa pulasse para 10,6%.

Na média do ano safra, o açúcar para o mercado de exportação liquidou a R$ 42,3184 por saca, posto usina. O preço mais baixo em reais ocorreu em 6 de setembro (R$ 38,1645). A média do açúcar para o mercado interno (pegando ESALQ) foi R$ 3,10 por saca melhor no mesmo período.

O custo de produção do açúcar apurado pelo modelo da Archer Consulting, considerando o CONSECANA médio da safra e o dólar médio dos últimos 30 dias, está em 36,4137 reais por saca na usina, sem custo financeiro.

A aquisição do controle pela Copersucar da empresa americana Eco-Energy foi o assunto mais comentado da semana pegando muita gente de surpresa. Independentemente das diversas análises que pipocam aqui e acolá sobre o ganho efetivo que a gigante da Paulista possa obter com isso, é inegável que o projeto de oferta pública inicial (IPO) - adiado em função da crise financeira mundial - ganha mais musculatura quando a empresa dá um passo importante para tornar seu nome e sua marca mais fortes e transparentes no mercado financeiro. As duas empresas somam capacidade de oferta de 10 bilhões de litros de combustível etanol anuais, ou 12% de mercado mundial.

Arnaldo Luiz Corrêa
Diretor da Archer Consulting

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