Marcos Fava Neves

Dez questões para o futuro do setor de etanol


novaCana.com - 06 set 2013 - 09:04

Por Marcos Fava Neves

O bioetanol é produzido em diversos países, sendo os Estados Unidos (com cerca de 50 bilhões de litros, a maior parte derivada do milho) e o Brasil (com cerca de 28 bilhões de litros, a maior parte derivada da cana) responsáveis por quase 80% dos 100 bilhões de litros estimados da produção mundial (2014). Este artigo explora o que vem acontecendo nesses dois países e levanta dez questões sobre o futuro desta indústria global.

Maior produtor e maior mercado de etanol do mundo, os EUA fixaram em 13,2 bilhões de galões a meta de mistura obrigatória para 2012. Mas com o declínio no consumo de gasolina – de 142 bilhões de galões em 2007 para 134 bilhões de galões em 2011 – e com o nível máximo de adição de etanol na gasolina limitado a 10%, o teto de mistura ficou abaixo daquele volume. A Agência de Proteção Ambiental (EPA) aprovou em 2011 uma mistura de 15% (E15), mas oferecida em bombas separadas e expressamente identificadas, e apenas para carros fabricados após 2001. Tais desafios dificultaram a implantação do E15, que só é encontrado em menos de 50 postos de abastecimento.

Embora o etanol faça uso de menos de 5% da produção mundial de grãos, nos EUA ele chega a consumir quase 40% da produção de milho, gerando muitas queixas por parte dos produtores de carne. A divulgação do etanol nos EUA e os lobbies que o produto tem que enfrentar por lá são muito mais complicados do que no Brasil.

Segundo maior produtor e mercado do mundo, o Brasil tem seu consumo de etanol puxado pela frota flex fuel, que representa quase 20 milhões de veículos e cresce na base de 3 milhões de novas unidades por ano. O preço do etanol está vinculado ao do petróleo, mas no Brasil, nos últimos dois anos, o preço da gasolina foi mantido abaixo do patamar internacional, num esforço do governo para conter a inflação. Essa política prejudicou a Petrobras e também o setor de etanol, comprimindo os preços do etanol a um máximo de 70% do preço da gasolina (devido à menor eficiência do etanol). O governo brasileiro também pode variar o nível de mistura do etanol anidro na gasolina, de 18% a 25%, conforme os números de produção da cana, a matéria-prima utilizada no Brasil.

Após esta síntese sobre os dois maiores produtores e mercados de etanol, apresento agora 10 grandes questões que podem moldar e até mesmo alterar o futuro deste mercado:

1. Um relatório divulgado no Reino Unido mostra que a China irá ultrapassar os EUA como maior importador de petróleo no mundo. Com a venda expressiva de carros novos e o consumo crescente de petróleo pela frota de caminhões em expansão, espera-se que, em 2020, 70% da demanda chinesa de petróleo seja atendida com importações, o que representa cerca de US$ 500 bilhões. O número de carros em circulação deve saltar dos 20 milhões existentes em 2005 para 160 milhões em 2020 (Wood Mackenzie). Qual será a influência da China sobre os preços do petróleo e o papel do etanol nesse cenário, considerando-se que a maior parte das grandes cidades chinesas já enfrenta um grave problema de poluição?

2. A preocupação com problemas ambientais, aquecimento global e a instabilidade dos preços do petróleo levou um número cada vez maior de países a incluir o etanol na matriz de combustíveis. O que esperar? Será que esse movimento continuará a criar mercados para a mistura de etanol por todo o mundo?

3. A Índia está aprovando uma mistura de 5% de etanol na gasolina. Qual será o futuro do etanol na Índia? Dada a grande área plantada de cana e os atuais preços do açúcar, poderá a Índia adotar uma política de etanol mais agressiva para substituir importações de petróleo, copiando o exemplo brasileiro?

4. O que acontecerá com a mistura compulsória de etanol nos EUA? Se mudanças vierem a ocorrer, como elas poderão influir no consumo interno de etanol no futuro? O E85 vai ser economicamente viável, conquistando os 11 milhões de carros flex que atualmente rodam nos EUA (de um total de 240 milhões de veículos) nos lugares onde houver bombas de combustível à disposição? Se o volume produzido nos EUA exceder a meta de mistura, será que as exportações de etanol dos EUA serão economicamente atraentes?

5. Qual será o papel nos EUA do etanol de cana, que recebe tratamento fiscal especial e é classificado como combustível avançado pela EPA?

6. Poderão as promissoras inovações que surgem no horizonte triplicar ou até quadruplicar a produtividade da cana, tornando esse etanol mais competitivo?

7. Se todos os carros flex existentes no Brasil hoje tiverem seus tanques completados com etanol, quase 10 milhões de toneladas de cana serão consumidos. Espera-se que a frota brasileira atinja a marca de 50 milhões de carros em 2021, sendo 40 milhões com motor flex, provavelmente a maior do mundo. Se 50% desses veículos usarem etanol hidratado, poderemos ter um mercado de 33,6 bilhões de litros em 2021. O volume de etanol anidro misturado na gasolina à proporção de 25% poderá chegar a 13,6 bilhões de litros, contra 8,4 bilhões de litros em 2013. O que acontecerá no mercado interno de etanol? Será que ele conquistará os motoristas donos de carros flex?

8. Poderá o etanol celulósico se tornar viável no curto prazo, desbancando as matérias-primas utilizadas atualmente para a produção de etanol (principalmente a cana, o milho e a beterraba)?

9. Qual será o impacto do gás de folhelho no mercado de etanol americano e mundial no longo prazo?

10. Que inovações podem criar produtos substitutos passíveis de colocar em perigo o futuro do etanol como fonte de energia?

Apesar dessas questões, o futuro do mercado mundial de bioetanol pode ser promissor. Existem estimativas de que o mercado poderá crescer dos 92 bilhões de litros consumidos em 2012 para 165 bilhões de litros em 2020, a serem consumidos majoritariamente na América Latina e do Norte. Mas as questões aqui colocadas não são fáceis de responder, de forma que fica realmente difícil prever se esse futuro favorável virá mesmo a se concretizar.

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Marcos Fava Neves é professor de planejamento estratégico e cadeias alimentares da Escola de Economia e Negócios da Universidade de São Paulo (USP).
Tradução: novaCana.com
Via ChinaDaily