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Cogeração de energia

Usinas brasileiras produzem pouca eletricidade em relação à moagem de cana

Eficiência da cogeração por biomassa tem evolução lenta no país e disparidade é grande entre os estados


novaCana.com - 18 abr 2019 - 09:52 - Última atualização em: 05 set 2019 - 14:58

Em 2009, um estudo do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), vinculado ao atual Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), apontava que uma usina média do setor sucroenergético gera um excedente de 40 kWh por tonelada de cana para a comercialização de eletricidade.

“Essa configuração representa uma situação ainda muito comum no setor sucroalcooleiro brasileiro e serve de referência para comparação com os avanços tecnológicos propostos para as demais configurações”, apontava o documento. Na sequência, o CGEE considerava modelos de usinas que poderiam cogerar de 49,3 kWh/t a 54,7 kWh/t, além de opções otimizadas que chegariam a produções entre 87,8 kWh/t e 160,2 kWh/t.

Mas, dez anos depois, a média de cogeração das usinas brasileiras é de 33,81 kWh/t – quantidade ainda menor que o potencial calculado em 2009. Na safra 2018/19, segundo números da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), as produtoras de cana-de-açúcar venderam 20,65 TWh à rede elétrica.

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Apesar do valor permanecer abaixo do potencial calculado há uma década, ele cresceu ao longo das últimas safras. Entre 2014/15 e 2017/18, as usinas brasileiras ganharam uma eficiência produtiva de 3,88 kWh/t. Por outro lado, houve um recuo de 0,56% entre 2017/18 e 2018/19.

Ainda assim, o aumento na geração de energia aconteceu ao mesmo tempo em que as usinas registraram uma queda na moagem. Conforme números do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a produção de cana-de-açúcar caiu nas últimas três temporadas, registrando 610,87 milhões de toneladas em 2018/19 – valor 8,24% menor que o recorde das últimas cinco safras, as 665,74 milhões de toneladas registradas em 2015/16.

Desempenho das maiores cogeradoras

Entre as companhias que mais geram eletricidade a partir da biomassa de cana, o desperdício de potencial em escala nacional fica ainda mais claro.

Na safra 2017/18, os seis grupos com maior volume de cogeração foram Raízen, Atvos (antiga Odebrecht Agroindustrial), Biosev, Tereos Açúcar e Energia, São Martinho e Adecoagro. Destes, apenas a Biosev apresentou uma cogeração em relação à moagem inferior à média nacional, enquanto a Tereos não teve seu índice calculado por não divulgar seus dados de moagem.

Além disso, a Cerradinho – que lidera o ranking por usina – apresentou um resultado de 95,88 kWh/t. O número é 182% superior à média nacional e se enquadra dentro dos cenários de “configuração otimizada” previstos no estudo da CGEE de 2009.

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Este resultado é fruto das estratégias que vêm sendo adotadas pela companhia. Em 2014, a Cerradinho anunciou que pretendia triplicar sua capacidade de cogeração com uma série de investimentos que totalizaram R$ 500 milhões. Três anos depois, durante a inauguração da termelétrica ampliada, o presidente da companhia, Paulo Motta, declarou ao novaCana que a cogeração ainda ganharia importância dentro do plano de diversificação de receitas da Cerradinho.

“Este ano, nós estamos atingindo uma média de 100 KWh por tonelada de cana moída. Isso é muito difícil de ter no setor, já que a média está abaixo de 50 KWh/t – bem abaixo, na verdade. Isso cria uma fortaleza para a gente em termos de eficiência, em usar tudo o que podemos da cana”, afirmou Motta em outubro de 2017.

Centro-Sul versus Norte-Nordeste

Grande parte da melhora nos resultados de cogeração nacional ao longo dos anos se deve aos investimentos feitos pelas sucroenergéticas da região Centro-Sul. Entre 2002 e os primeiros meses de 2019, o BNDES participou do financiamento de R$ 3,1 bilhões para projetos de cogeração na região – sendo R$ 1,05 bilhão só em 2010. No total de 2018, foram R$ 294,69 milhões, o maior valor em sete anos.

Para o Norte-Nordeste, em contrapartida, o total investido no período via BNDES foi de R$ 19,5 milhões, com o último projeto tendo sido aprovado em 2012. O recorde foi justamente naquele ano, com R$ 5,85 milhões.

O panorama dos financiamentos do setor sucroenergético via BNDES está disponível no novaCana DATA (acesso exclusivo para assinantes).

Assim, o Centro-Sul é o grande responsável pela elevação da média nacional, tendo registrado uma cogeração de 35,42 kWh/t em 2018/19. No mesmo período, o Norte-Nordeste cogerou 13,02 kWh/t, um valor 63,24% menor.

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Ao longo das últimas cinco safras, o Centro-Sul tem registrado quedas na moagem, mas aumentos no volume de eletricidade exportada, com o recorde de 20,76 TWh em 2017/18. Assim, o indicador de cogeração em relação à moagem cresceu no período analisado, partindo de 31,63 kWh/t em 2014/15 para 35,42 kWh/t em 2018/19, um aumento de 11,98%.

Já no Norte-Nordeste, a cogeração tem vivenciado reduções no mesmo período, com o volume absoluto caindo de 838,95 GWh em 2014/15 para 571,31 GWh em 2018/19. Na região, houve uma queda de moagem entre 2014/15 e 2016/17, com ligeiras recuperações nas safras seguintes. Como resultado, o indicador de cogeração em relação à moagem flutuou no período, variando de 16,97 kWh/t (2015/16) a 13,02 kWh/t (2018/19).

Disparidade entre os estados

As diferenças vistas na comparação entre o Centro-Sul e o Norte-Nordeste são acentuadas nos resultados estaduais.

Em 2018/19, considerando apenas os oito estados com maior produção de cana-de-açúcar do Brasil, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Goiás registraram os melhores desempenhos, ficando acima da média do Centro-Sul. Em contrapartida, Pernambuco, Alagoas e Mato Grosso tiveram resultados inferiores à média do Norte-Nordeste.

Inclusive, a disparidade entre Mato Grosso do Sul e Mato Grosso chama atenção: são 53,9 kWh/t de diferença.

cogeracao eficiencia 3 estados

Na última safra, encerrada em 31 de março, Mato Grosso do Sul apresentou a maior cogeração por tonelada de cana, com 59,81 kWh/t. O valor representa um crescimento de 25,5% na eficiência da cogeração por biomassa em relação a 2014/15. No período, o estado moeu 48,11 milhões de tonelada de cana e gerou 2,88 TWh de eletricidade com biomassa.

No outro extremo, Mato Grosso moeu 17,19 milhões de toneladas de cana e gerou 101,48 GWh de energia em 2018/19, resultando em 5,9 kWh/t.

Renata Bossle – novaCana.com


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