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Energia do bagaço: especialistas comentam preço teto do leilão A-5


NovaCana - 08 abr 2015 - 10:15

Desde 2008, quando chegou a comercializar 500 Megawatts (MW) médios em um único certame, o de reserva, o setor sucroalcooleiro busca emplacar mais projetos nos leilões de energia promovidos pelo governo.

Com um volume médio de venda de eletricidade de 100 MW por ano, de 2009 a 2014, a participação das térmicas de cana tem sido limitada pelos baixos preços dos leilões.

Dos 32 projetos cadastrados pelo setor sucroenergético no A-5 de novembro de 2014, apenas seis foram viabilizados, com um fornecimento anual ao sistema de 90 MW médios a partir de 2019.

"Tivemos uma participação muito baixa nos últimos leilões em função de o teto do megawatt estar limitado. Em cima das contas das usinas recaem as linhas de transmissão, um custo que o pessoal da eólica não precisa arcar. As linhas de transmissão são caríssimas e há problemas de desapropriação de terras", disse, recentemente, o presidente do CeiseBR (Centro Nacional das Indústrias do Setor Sucroenergético e Biocombustíveis), Paulo Gallo, em evento voltado a líderes da indústria em São Paulo.

Melhoria nos preços teto

Mesmo com um reajuste de 34% no preço teto do A-5, que passou de R$ 209/MWh para R$ 281/MWh na disputa marcada para o dia 30 de abril, a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) continua ressaltando que é preciso haver uma continuidade na melhoria das condições dos leilões.

“O número de projetos inscritos ainda é baixo. É necessário que esta melhoria do preço teto continue, que não haja um retrocesso. Acreditamos que o preço teto de R$ 281/MWh [no A-5] para as termelétricas é uma sinalização do governo de que o preço teto vai ser mais realista e num futuro vai estimular uma participação mais efetiva da biomassa”, disse em entrevista ao portal novaCana o gerente de bioeletricidade da entidade, Zilmar Souza.

Embora considere o novo teto “um avanço”, o limite estipulado para o A-5 não é o suficiente para viabilizar o retrofit, a reforma das usinas existentes, que hoje representa “o grande potencial da indústria”.

Sem proposta de preço ideal

Questionado sobre o que consideraria um preço ideal, capaz de viabilizar uma maior participação da biomassa e a entrada efetiva do retrofit, Souza disse apenas que “é difícil falar em um preço padrão, uma vez que as usinas são muito heterogêneas”.

“O setor é bastante heterogêneo. A conexão pode representar para uma usina um investimento de 30% e para outra, 10 ou 15%. O ideal é que os preços fossem divulgados antes do cadastramento dos projetos, o que estimularia uma maior oferta por parte das usinas. A nossa memória é de preços ruins, por isso, o volume de projetos cadastrados tem sido baixo. É importante que haja a sinalização de uma continuidade deste preço teto. Esperamos que o próximo A-5 no meio do ano, assim como o A-3, tenham melhores preços, de forma a remunerar melhor as usinas e a atrair o retrofit”, destacou.

Na visão do CeiseBR, a depender da localização das unidades, além dos custos com as linhas de transmissão, equipamentos, torres e cabos, chega-se em valores entre R$ 250 a R$ 300/MWh. Uma estimativa muito próxima do valor teto estabelecido pelo governo.


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Política contínua ou incentivo temporário?

Mais otimista que o representante da Unica, a diretora da Thymos Energia, Thaís Prandini, acredita que o incentivo dado pelo governo deverá ser mantido para os próximos leilões.

“Começou como um incentivo temporário, gerado pela crise, mas acreditamos que o governo percebeu a necessidade da volta da contratação das térmicas. O Brasil tem uma matriz hidrotérmica e mesmo as eólicas precisam de complementação térmica. Acredito que o governo finalmente percebeu que contratar energia das térmicas confere mais segurança ao sistema”, argumentou.

Em entrevista ao G1, o relator do edital da Aneel, o diretor André Pepitone, ressaltou que o Ministério de Minas e Energia tem mostrado sensibilidade com os pleitos das termelétricas.

"Mudaram as condições de financiamento do BNDES: diminuiu a participação do banco, aumentou a TJLP (taxa de juros de longo prazo) em relação ao que era praticado e isso deteriorou as condições econômicas para viabilizar os empreendimentos de PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas). Acho que esse preço estabelecido pelo Ministério de Minas e Energia mostra sensibilidade com os pleitos do segmento", disse.

Para a diretora da Thymos, o aumento do preço teto representa uma grande oportunidade para as usinas de cana.

“O governo precisa de energia, precisa de mais segurança na matriz, e precisa de contratação das térmicas. As térmicas de biomassa têm um preço mais competitivo, então, pode haver ganhos tanto para a biomassa de cana, quanto para outros tipos de biomassa, como cavaco de madeira”, destacou a executiva.

No entanto, Thaís pondera que o “único problema” da biomassa de cana é o setor sucroalcooleiro, “que não está nos seus melhores dias”. “Em se tratando do setor elétrico, dos leilões e dos preços, o cenário é extremamente favorável. Uma quantidade maior de projetos de biomassa de cana será, sim, contratada, mas não sabemos se isso será o suficiente para haver uma quebra de paradigma, para uma contratação em larga escala como houve em 2008, por exemplo”, ressalvou.

Para o leilão A-5, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) cadastrou 91 projetos, totalizando 19.826 MW, com a fonte gás natural dominando a oferta com 78% do total (15.439 MW). Carvão representa 11% (2.100 MW) e a fonte hídrica e a biomassa representam 6% cada (1.126 MW e 1.161 MW respectivamente).

Outros leilões

Além do A-5, haverá, ainda, o Leilão de Fontes Alternativas, em 27 de abril (com preço teto de R$ 215/MWh para a biomassa), e o A-3, agendado para 24 de julho, que contratará energia para 2018, mas cujo preço teto ainda não foi divulgado.

Para estes certames, o pleito da Unica é o mesmo: a melhoria das condições e dos preços teto. “O próximo leilão, de fontes alternativas, terá um preço teto de R$ 215/MWh para novos projetos. Precisamos rever este preço e abalizá-lo pelo A-5”, cobrou Souza.

“Também ocorrerá este ano o leilão de reserva de energia, cujo período de cadastro não começou. Neste certame, concorrerão apenas as fontes eólica e fotovoltaica. É preciso revisar esta diretriz, já que a biomassa não participa deste certame desde 2011. Não vejo porque excluir a biomassa”, criticou.

Alterações nos leilões de fontes alternativas e A-3

Além de o gerador não receber a receita da venda caso a obra na rede de transporte não esteja pronta na data de início de entrega da energia contratada, mesmo nos casos em que as usinas não sejam responsáveis ou não tenham causado o atraso, agora, só poderão concorrer as usinas que tiverem espaço garantido na conexão, a chamada capacidade de escoamento.

“Alguns projetos não foram habilitados porque não tinham um espaço disponível na conexão, o que revela a necessidade de um planejamento forte e robusto por parte do governo. Além disso, a responsabilidade pela transmissão é uma incerteza para as usinas. Elas dependem de terceiros. E isso acaba afugentando projetos. Enquanto não resolver esta questão da conexão, o retrofit continuará sendo inibido”, defendeu Souza.

O edital da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), bem como os detalhes sobre o A-5, podem ser vistos aqui e aqui.

Leonardo Siqueira – novaCana.com


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