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Participação feminina no setor sucroenergético é baixa e estável, mas profissionalização cresce

Segundo pesquisa do Cepea, o tempo de estudo e a remuneração dos cargos ocupados por mulheres aumentaram nos últimos anos


novaCana.com - 19 fev 2019 - 10:44

Elas estão no campo, mas não tanto quanto poderiam.

A participação das mulheres no agronegócio cresceu de 24,11% para 27,97% entre 2004 e 2015. Especificamente no setor sucroenergético, a parcela é menor, variando de 7,65% para 8,8% entre 2000 e 2016. Em relação a outros setores, a fraca participação feminina fica ainda mais evidente – em 2015, 40% dos trabalhadores brasileiros, no geral, eram mulheres.

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Entretanto, há uma boa notícia vinda das usinas de cana-de-açúcar. Nos últimos anos, a grande mudança no setor não foi na quantidade de mulheres empregadas, mas no perfil do emprego: elas passaram a ocupar, de forma mais concentrada, cargos administrativos e da indústria, em detrimento da área agrícola.

Os dados são de um estudo sobre a mulher no mercado de trabalho da agroindústria sucroenergética coordenado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo o pesquisador Leandro Gilio, o Cepea lançou os primeiros estudos do mercado de trabalho no agronegócio há um ano e meio. Com uma equipe específica, composta por profissionais da USP, foram analisadas cada uma das cadeias de trabalho: insumo, produção agrícola, industrial e distribuição. “A partir disto, fizemos algumas pesquisas especiais temáticas, com especialistas do setor. No caso da cana-de-açúcar, convidamos Luciano Rodrigues, da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica)”, esclarece.

Além de Gilio e Rodrigues, o trabalho também contou com a participação dos pesquisadores Nicole Rennó Castro e José Guilherme de Oliveira Belon.

As mulheres no setor

Segundo o estudo, o aumento mais expressivo na presença das mulheres no setor ocorreu entre 2000 e 2008 – justamente o período em que houve expansão das usinas de açúcar e etanol –, com uma redução a partir de 2009, quando a mecanização passou a ser mais utilizada. Em 2016, eram 70 mil mulheres empregadas em um cenário de 795 mil pessoas, o que equivale a 8,1% do total.

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Mas, analisando as áreas de atuação – agrícola, indústria e administrativo –, as modificações ficam mais claras.

Mesmo entre 2008 e 2016, período de franca retração do setor e, consequentemente, de diminuição no número de empregos, a quantidade de mulheres em cargos administrativos e industriais aumentou 26,8%. Já o número de homens caiu 12,2% no mesmo comparativo.

Em contrapartida, a presença feminina no campo teve uma redução maior, de 60,3%, enquanto a masculina diminuiu 44,4% no mesmo intervalo. Se, em 2000, 74,69% das mulheres do setor estavam na área agrícola, em 2016 o percentual reduziu para 47,82%.

Em 2016, 36,6% do total de mulheres empregadas no setor ocupavam postos administrativos, o equivalente a 25,45 mil. Em 2000, eram 10,61 mil mulheres, ou 21,8%. Já na indústria, o número de mulheres empregadas subiu de 1,7 mil para 10,82 mil no mesmo comparativo. Com isso, do total de mulheres empregadas no setor sucroenergético, a presença na indústria subiu de 3,6% para 15,6%.

“Isso muda o perfil da profissional. Antes, elas eram mais jovens e com menos qualificação. Hoje, são profissionais mais qualificadas, na faixa dos 30 anos, e trabalhando preponderantemente em outros elos da cadeia”, expressa Gilio.

A mudança pode ser vista também nos dados de escolaridade. Em 2000, 67,7% das mulheres empregadas no setor haviam estudado por apenas cinco anos; em 2016, esse número caiu para 24,4%. Ou seja, houve uma redução de 43,2 pontos percentuais. Entre os homens, essa redução foi de 38,1 pp.

Na outra ponta, a representatividade das mulheres com mais de 13 anos de estudo subiu em 11,8 pp, enquanto para os homens o aumento foi de 2,8 pp no mesmo período. Em números absolutos, a presença feminina na faixa de maior instrução aumentou de 2,6 mil para 12,03 mil entre 2000 e 2016.

“É uma tendência geral do agronegócio: tem crescido a participação feminina e a mão de obra qualificada. Isso ocorre no Brasil como um todo e se reflete no setor”, explica o pesquisador.

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Com este cenário, as mulheres tiveram um aumento representativo na média salarial. Conforme os pesquisadores, entre 2000 e 2008 a remuneração média cresceu 26%; já entre 2008 e 2016 ela foi ampliada em 48%.

O estudo explica que as transformações institucionais e mercadológicas reduziram a quantidade de pessoas empregadas e criaram uma tendência de ocupações que requerem mais competências e remuneração mais elevada. Além disso, o setor sucroenergético está cada vez mais moderno, segundo Gilio. “Isso incentiva a inserção de pessoas mais qualificadas e que recebem um salário melhor”, conclui.

Mudança no perfil de trabalho

As mudanças no perfil do trabalhador do setor sucroenergético vêm ocorrendo desde 2000. A desregulamentação do setor, a crise financeira das usinas, a popularização dos carros flex e a mecanização são alguns aspectos que moldaram o panorama atual: menos pessoas empregadas, porém, com níveis de instrução e de remuneração mais elevados.

De acordo com Gilio, a mecanização foi a grande responsável pela redução no número de pessoas no campo, especialmente depois que regras ambientais proibiram a queima da palha da cana-de-açúcar, acelerando os processos de colheita mecanizada.

Segundo o Cepea, entre 2008 e 2016, a quantidade de empregos no campo reduziu 45,7% e, nas usinas, 5,1%. Em contrapartida, a remuneração aumentou 39,7% nos canaviais e 17,4% na indústria, acompanhando não apenas a inflação, mas também o maior nível de especialização dos trabalhadores.

Além disso, o número de pessoas empregadas no setor sucroenergético diminuiu 52% no período analisado, enquanto a quantidade de colaboradores com escolaridade superior a dez anos aumentou 22%.

Apesar do aumento da qualidade técnica dos profissionais, os pesquisadores demonstram preocupação com aqueles que saíram do campo e não conseguiram novos empregos ou foram para ocupações informais. Segundo Gilio, este fator foi identificado também em outras pesquisas do grupo e demanda políticas públicas para a profissionalização de pessoas nesta situação. “A redução de trabalhadores no campo gera um problema social, apesar do ganho claro de qualidade de trabalhos gerados”, completa.

Gabrielle Rumor Koster – novaCana.com