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Trabalhadores

Órfãos da cana: Fim da queima expulsa trabalhadores dos canaviais

Mecanização da lavoura cria legião de ex-boias-frias desempregados e com problemas de saúde


Folha de S. Paulo - 03 jul 2017 - 09:18
Trabalhadores em canavial em Ribeirão Preto, cuja macrorregião abriga 48 das 159 usinas de SP

Seu sonho era ter uma vida melhor. Para isso, deixava sua família por até nove meses por ano e viajava mil quilômetros até o "eldorado". Hoje, 34 anos depois da primeira viagem, acumula dores no corpo e não consegue mais trabalhar. Ainda que conseguisse, não encontraria as vagas de antigamente.

Aos 47 anos, Natalino Lopes Moreira é um exemplo dos migrantes do Vale do Jequitinhonha (MG) e de Estados do Nordeste que tentavam ganhar a vida em lavouras de cana-de-açúcar do interior de São Paulo, especialmente na região de Ribeirão Preto, uma das mais ricas do país.

Eram milhares. Mas, com o aumento vertiginoso da mecanização das lavouras, foram praticamente expulsos dos canaviais. Além de Natalino, uma legião de Geraldos, Raimundos e Josés viu suas vidas tomarem outros rumos por causa das máquinas.

Não foram derrotados só pela tecnologia, mas perderam espaço também devido a um acordo que restringiu a queima da palha da cana, responsável por fumaça, fuligem e gases tóxicos, e obrigou as usinas a se mecanizarem cada vez mais.

Desempregado, o ex-boia-fria Natalino Lopes Moreira, 47, não consegue mais trabalhar por dores no corpoorfaos-030716-1

A assinatura do protocolo agroambiental, entre Estado, usinas e fornecedores de cana, completou dez anos. Usinas e fornecedores se comprometeram a antecipar o fim da queima nas lavouras de São Paulo para 2014, em áreas mecanizáveis, e para 2017, nas não mecanizáveis. Por lei, o fim da queima estava previsto para 2021 e 2031, respectivamente.

Em 2007, a mecanização alcançava 42% das lavouras em SP; neste ano, já atinge 98%

Por dois meses, a Folha acompanhou as condições de vida e de trabalho de atuais e ex-boias-frias no interior de São Paulo, no Vale do Jequitinhonha (MG) e no Maranhão, e encontrou uma legião de ex-cortadores enfrentando desemprego e problemas de saúde em suas cidades de origem.

As máquinas surgiram na década de 1990, mas não tinham a tecnologia atual e eram muito caras –ainda hoje custam mais de R$ 1 milhão. Foram incorporadas com rapidez a partir de meados da década passada, cinco séculos após a chegada das primeiras mudas de cana ao país. O setor viveu um boom, e os usineiros chegaram a ser chamados pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de "heróis".

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"Em 2004, tive um problema grave na coluna, deitava no chão para ver se ela voltava, mas não deu e vim embora. Com mulher e cinco filhos, precisava tentar de novo. Tomava remédio direto e nem cirurgia espírita ajudou", disse Moreira, que mora em Berilo (MG) e cortava em média 16 toneladas de cana. Por dia.

Conseguiu trabalhar nas safras seguintes, mas, em 2015, começou a perder movimentos do braço direito, usado para cortar a cana. "É esforço demais, uma hora o corpo não aguentaria mesmo. Aqui, cria-se vaca, boi e galinha, chove muito pouco, não dá para plantar nada. Tem de tentar fora, e eu conseguia R$ 2.600 com a cana. Hoje vivo na Previdência."

Uma colhedora faz o trabalho de até cem homens

Estudos acadêmicos apontam que um boia-fria chega a percorrer 8,8 km por dia, despender mais de 3.300 golpes de podão para cortar dez toneladas de cana e perder oito litros de água na tarefa –situação agravada pela roupa, que o protege, mas eleva a temperatura do corpo.

Trabalhador rural faz corte manual de cana na região de Piracicaba (SP)orfaos-030716-3

Jequitinhonha

Berilo, terra de Moreira, é uma cidade da paupérrima região do Vale do Jequitinhonha acessada por uma estrada de terra de 40 km que se notabilizou pela migração em massa e seus reflexos de fim de ano. Havia festa quando os boias-frias retornavam de São Paulo com dinheiro das rescisões (ao menos R$ 5.000 cada um) e bens que iam de TVs modernas a muitas motos.

Dos 3.258 veículos locais, 1.993 são motocicletas, 61% do total. Como comparação, em Palestina (SP), com a mesma população, são 704, ou 11,3%, para uma frota de 6.191, quase o dobro. Em São Paulo, dos 7,9 milhões de veículos, 904 mil são motos –11,4%, segundo o Denatran.

Máquinas surgiram na década de 1990, mas não tinham a tecnologia atual e eram muito caras

Gilson Francisco Ferreira Santos, 37, cortador de cana desde os 13 anos, tem a moto usada como único bem. Desde 2010 não consegue atuar nas lavouras, após dores no corpo e um acidente de moto.

"Não tenho mais 'garra' nas mãos e já sentia câimbras no corpo todo. Olhava para as máquinas e pensava que não iria conseguir competir com elas."

A disputa é irreal, pois uma colhedora faz o trabalho de até cem homens. Segundo estudo do IEA (Instituto de Economia Agrícola), vinculado à Secretaria de Estado da Agricultura, a cada 1% de aumento na colheita mecanizada, 702 postos de trabalho eram extintos. Em 2007, a mecanização alcançava 42%, índice que subiu a 85% em 2014 –neste ano, 98% da cana em São Paulo já é colhida sem queimadas.

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Há 3.747 colhedoras nas lavouras, ante 753 há dez anos. Essas 3.000 máquinas a mais dizimaram a migração, na avaliação dos boias-frias.

Ainda hoje, as colhedoras custam mais de R$ 1 milhão

"Se cana enriquecesse, eu seria milionário. Trabalhei 26 anos direto, cortando 18 toneladas por dia. Tenho dores na coluna e um braço torto. Foi só o que consegui ganhar", disse Geraldo Melchiades, 52, que viajava todo ano ao interior paulista de 1979, quando tinha 14 anos, a 2005. Hoje, tenta a sorte com um bar no Jequitinhonha.

Geraldo Melchiades, 52, em sua casa na zona rural de Berilo, no Vale do Jequitinhonha (MG)orfaos-030716-6

Parados

Esse contingente de adoentados da cana tem sobrecarregado os serviços públicos em todo o vale, segundo o prefeito Lázaro Pereira Neves (PP), de Berilo.

"Fui cortador e tive colegas que hoje não têm emprego e ficam barrados na Previdência para obter benefício devido às dores. Concedem a eles 90 dias e cobram exames que não temos como oferecer pelo SUS", diz. "Há ainda o desgaste psicológico. Sem emprego, entra em depressão. Não temos a quem recorrer para gerar empregos."

Há 3.747 máquinas nas lavouras de SP, ante 753 há dez anos 

Dos 12 mil habitantes, ao menos 4.000 migravam para o interior, de acordo com a prefeitura. Sem esse mercado, parte tenta a colheita de café, laranja ou cebola, sem o mesmo rendimento. "O único emprego que tem aqui é de servidor público. Tirando isso, a sobrevivência mesmo é Bolsa Família."

Presidente da Associação dos Agricultores Familiares e Feirantes no Jequitinhonha, José Nilson Araujo Cota disse que os reflexos da mecanização são sentidos há oito anos e que a renda de três meses no café quase equivale à de um mês na cana.

O piso do cortador é de R$ 1.069,48 na região de Ribeirão. O pagamento, no entanto, é por produtividade, ou seja, quanto mais o boia-fria cortar, mais ganhará. Por tonelada, os valores pagos são de R$ 5,92 (cana queimada) e R$ 11,85 (crua).

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Esse é um dos motivos, segundo a Pastoral do Migrante de Guariba, para as duas dezenas de mortes contabilizadas entre 2004 e 2007 supostamente provocadas pela exaustão nas lavouras. Além do excesso físico, porém, cachaça (um dos produtos oriundos da cana) e drogas ficaram comuns no cenário rural.

Há, segundo o Ministério da Agricultura, 380 usinas no país, sendo 239 mistas (fazem açúcar e etanol) –159 estão em São Paulo, 48 na macrorregião de Ribeirão, considerada o eldorado do setor pelos cortadores.

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Nada para fazer

No Maranhão, último grande foco de migração para o interior, a situação é idêntica à do norte de Minas: ex-boias-frias enfrentam rotina de desemprego e falta de perspectivas. Parado há um ano, Diló Geraldo, 53, disse que já não pensa em deixar Timbiras (MA), apesar das dificuldades, por não ver possibilidade de conseguir emprego na cana.

"Tentei em 2016, mas não consegui nada. De vez em quando aparece alguma coisinha para fazer aqui, mas nada que se compare aos R$ 1.500 que eu ganhava lá." A viagem de ônibus de Timbiras à região de Ribeirão dura três dias.

Morador de uma casa com ar-condicionado, parabólica e com paredes sem reboque –mas com telhas, o que não é comum no bairro–, Raimundo Sousa da Silva, 45, usa diariamente remédios para as dores na coluna que adquiriu na época de trabalho nos canaviais. Há quatro anos procura outras atividades.

Raimundo Sousa da Silva, 45, toma remédios para a dor na coluna todos os diasorfaos-030716-9

"Foram 12 anos de cana, estou arrebentado da coluna. Com dor e sem emprego, o melhor foi vir embora. Sofrer por sofrer, melhor sofrer por aqui", disse ele, que usa parte do terreno de casa para promover festas aos finais de semana.

Sem emprego nas lavouras desde 2008, José Vicente, 59, critica o vertiginoso surgimento das máquinas e diz viver à espera da aposentadoria. "As máquinas atrapalharam muito. A vida aqui é mais difícil, porque só tem emprego ruim, tem mês que [a gente] tira R$ 200 e fica feliz."

Morador de Timbiras, no interior do Maranhão, José Vicente, 59, aguarda sua aposentadoriaorfaos-030716-10

Segundo Maria Aparecida Moraes Silva, professora visitante da pós-graduação em sociologia da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e pesquisadora há mais de 30 anos da dinâmica do campo, a mecanização, além de resultar na eliminação dos boias-frias do cenário rural paulista, gerou um reordenamento migratório.

"[Eles foram] Para onde a mecanização ainda não estava tão avançada ou para outros setores, como a construção. E tem também os que já não tinham condições para trabalhar e estão nas cidades de origem, porque a coluna já não responde, o corpo foi totalmente desgastado e não conseguem aposentadoria. É uma legião de pessoas assim, jogadas."

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Guariba, cidade paulista ícone do setor e que abrigou um levante em 1984 em busca de melhorias das condições no campo, viu até mesmo o trabalho da Pastoral do Migrante sofrer modificações com o avanço das máquinas.

Até a década passada, 40 pessoas atuavam no grupo religioso, total que hoje não passa de 12. Os padres foram deslocados para funções em outras dioceses, segundo Ignacio Bernardes, 82, que auxilia migrantes desde 1955. "Aquele comboio de quatro, cinco ônibus chegando não existe mais. Quem vem não é para a cana."

De acordo com a pastoral, a migração chegou a ser de 50 mil pessoas. Hoje, reduziu-se a cerca de 15 mil, mas para outros Estados.

Sem alternativa

O desemprego era uma preocupação que o setor sucroenergético tinha com a mecanização, mas tinha de ter sido assim. A avaliação é de Celso Torquato Junqueira Franco, presidente da Udop (União dos Produtores de Bioenergia).

"Geralmente, com avanço tecnológico, há redução de custos, mas, com a cana, foi ao contrário. Tivemos aumento de custos e quedas de produtividade e longevidade do canavial, tanto na colheita quanto no plantio", diz. "E por que ocorreu então? Havia uma pressão que nos incomodava, como setor, de que a mão de obra era empregada na lavoura com serviço muito pesado, que poderia causar danos à saúde."

Segundo ele, a pressão, inclusive de ONGs internacionais, sobre exaustão no campo moveu o setor, assim como as críticas ligadas às queimadas.

"Quando você deixa de queimar, a produtividade cai. Aliada ao fato de já ter o movimento de eliminação do corte manual, o fim da queima veio praticamente encerrar qualquer discussão. [Sem máquina] Ficaria inviável, precisaria do dobro de mão de obra para cortar a cana sem queimar. Felizmente para nós foi um peso social menor à época, porque a mão de obra estava sendo demandada pela construção. Não houve percepção de aumento do desemprego por conta da mecanização."

Caminhão carrega cana próximo à Central Energética Moreno, em Luiz Antônio (SP) orfaos-030716-13

A vida útil de uma máquina, segundo ele, é de cinco a seis anos, e há usinas que cortam até mil toneladas por dia com uma colhedora.

"Ainda tem [queimada] em área não mecanizável, principalmente de fornecedor. São locais com área abaixo de 150 hectares e inclinação superior a 12%", disse Antonio de Padua Rodrigues, diretor-técnico da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), que representa as principais usinas do centro-sul.

Segundo ele, apesar de a adesão ao protocolo ser voluntária, houve compromisso do setor com o avanço da mecanização e o fim da queima para a colheita.

Consultora da Unica, Iza Barbosa diz que os boias-frias não foram abandonados à própria sorte com a mecanização. Segundo ela, foram oferecidos mais de 413 mil cursos aos funcionários das usinas paulistas desde 2007. Um mesmo empregado pode ter feito dois ou três.

"Ainda tem gente para ser qualificada. As empresas não param. E não é cursinho de 8 ou 12 horas. É integral. Ele pode atuar em outros segmentos da economia." Segundo ela, houve preocupação em requalificar cortadores e também futuros operadores de colhedoras, tratores e outras máquinas.

Queimada de cana ilegal na cidade de Cravinhos, interior de SP, próximo à rodovia José Fregoneziorfaos-030716-14

Tecnologia

Se os antigos boias-frias dependerem de uma revolução às avessas para que retomem empregos no campo, o cenário é ainda mais crítico, pois os avanços tecnológicos são cada vez mais presentes.

A Raízen, gigante do setor sucroenergético, criou um centro, chamado Pentágono, em Piracicaba (SP), em que é possível controlar on-line as operações das 24 usinas integrantes do grupo.

Por meio dele, é possível redirecionar caminhões em trânsito para unidades que precisem de mais ou menos cana para moagem, além de permitir rapidez no reparo de máquinas com problemas, como um caminhão parado numa rodovia.

O Pentágono controla, além do tráfego, a análise de cana e os laboratórios. Com o sistema, foi possível elevar o total colhido por máquina diariamente de 450 a 550 toneladas de cana para até 820, no ano passado.

Com 99% de mecanização, o sistema de controle total da Raízen não gerou redução no nível de empregos, segundo Juliano Prado, diretor-executivo de operações agroindustriais da empresa, e sim o surgimento de novas funções, como operador de drones para mapear o plantio.

Funcionários trabalham no centro de operações do grupo Raízen, de onde controlam 24 usinasorfaos-030716-15

Insistência e sonho

Apesar de a migração ter encolhido e de a tecnologia cada vez mais exigir qualificação, trabalhadores do Norte de Minas e nordestinos que se fixaram no interior nas últimas décadas veem no corte de cana a chance de uma vida melhor.

"Consegui trabalho temporário no ano passado e ganhei R$ 2.750 por mês na cana. Hoje estou na construção [pedreiro], mas não há garantia alguma, tem meses em que não recebo R$ 400", diz Agnaldo Vieira Miranda, 39, natural de Berilo e que se fixou em Guariba na década de 1990.

O alagoano Damião Horácio Lopes, 55, que mora em Serrana (SP), corta cana há 15 anos no interior e não pensa em retornar para seu Estado. "Recebi R$ 1.750 de participação nos lucros. Nada disso existe lá, principalmente o salário, pois consigo de R$ 1.200 a R$ 1.500, além do vale-refeição."

Vindo de uma família de cortadores, João Meneses, 19, de Araçuaí, no norte de Minas, vai tentar cortar cana na Bahia ou no Rio de Janeiro, onde esteve na última safra. "Nunca consegui em São Paulo, peguei o fim dessa época. Não tenho outra opção aqui, tenho de ir. É tentar a sorte e sobreviver."

Marcelo Toledo e Joel Silva