
Na última safra, o excesso de chuvas no Centro Sul – que provocou atraso da moagem e gerou cana bisada – foi resultado de um fenômeno climático bem conhecido do produtor de cana-de-açúcar, o El Niño. Com efeitos maiores que os esperados, ele chegou a ser chamado de ‘monstro’ por especialistas e prejudicou muitas expectativas de canavieiros.
Assim, é natural que os produtores e usineiros já estejam atentos ao fenômeno que costuma acontecer logo na sequência, chamado de La Niña. Há quem espere por um clima mais seco no segundo trimestre do ano, quando efetivamente começa a moagem na região Centro Sul. No entanto, essa visão não coincide com as expectativas dos especialistas.
Para completar, o fenômeno deve ter um grande impacto no mercado de commodities. Segundo os especialistas, a influência nos preços será superior à causada pelo El Niño. Para o setor sucroenergético, o La Niña alimenta algumas incertezas para as projeções de safra de cana.
Na última safra, o excesso de chuvas no Centro Sul – que provocou atraso da moagem e gerou cana bisada – foi resultado de um fenômeno climático bem conhecido do produtor de cana-de-açúcar, o El Niño. Com efeitos maiores que os esperados, ele chegou a ser chamado de ‘monstro’ por especialistas e prejudicou muitas expectativas de canavieiros.
Assim, é natural que os produtores e usineiros já estejam atentos ao fenômeno que costuma acontecer logo na sequência, chamado de La Niña. Com relação aos preços no mercado de commodities, por exemplo, os impactos devem ser grandes. Isso acontece, entre outros motivos, porque o La Niña provoca secas em alguns dos maiores mercados consumidores do mundo, como Estados Unidos e Canadá, o que pode limitar o suprimento de alimentos e elevar os preços.
Além disso, existem os possíveis impactos na safra. Um exemplo é a atenção dada ao assunto pela Copersucar que já espera um clima mais seco no segundo trimestre do ano em função do La Niña, quando efetivamente começa a moagem na região Centro Sul.
No entanto, essa visão não coincide com as expectativas dos especialistas. Para o meteorologista Celso Oliveira, da Somar Meteorologia, o La Niña simplesmente ainda não pode ser confirmado. “Algumas previsões mais estendidas mostram uma queda acentuada das temperaturas apenas para o final do segundo semestre”, afirma.
De acordo com Oliveira, a perspectiva é que o El Niño perca força no decorrer de 2016 e, no final do ano, atinja uma neutralidade climática. “Por enquanto, as previsões estão empurrando o começo do La Niña apenas para o verão 2016/17”, completa.
O meteorologista do Climatempo, Alexandre Nascimento, concorda. Segundo ele, a expectativa é que o fenômeno se desenvolva ao longo do último trimestre, mas só comece efetivamente em 2017.
Assim, para Celso Oliveira, o primeiro semestre de 2016 ainda deve ser marcado por chuvas episódicas mais intensas. Já Nascimento atenta para um período com chuvas mais volumosas em fevereiro.
Para o outono – estação determinante da safra de cana-de-açúcar –, Oliveira acredita que as chuvas devem atingir índices na média ou acima da média. Depois disso, no inverno, o meteorologista da Somar aponta que podem ocorrer chuvas pontuais extremas, apesar desta ser uma estação costumeiramente mais seca no Centro Sul.
Impactos para a safra e para os preços
No entanto, os efeitos da aproximação do La Niña não podem ser completamente ignorados. Celso Oliveira acredita que a temperatura já deve baixar e que algumas ondas de frio podem ser mais fortes que as registradas em 2015. “Em 2017, elas seriam ainda mais fortes”, alerta.
O meteorologista da Somar ainda aponta que o La Niña pode afetar o período de colheita na região Norte-Nordeste, tendo influência no ATR. “O La Niña vai provocar chuva acima da média no Norte-Nordeste e abaixo da média no Centro Sul”, explica. O profissional do Climatempo, por sua vez, é enfático: “O Nordeste vai ser beneficiado”.
Outros efeitos, segundo Oliveira, seria um outono-inverno de 2017 com chuva entre a média e abaixo da média, além de temperaturas mais baixas. Ambas características, de acordo com ele, podem ajudar os canavieiros: “O impacto do frio, desde que não muito forte, é benéfico para o ATR”.
Além disso, Alexandre Nascimento é particularmente cauteloso com relação à duração do fenômeno. “Não temos como dizer quanto exatamente vai durar. Seria um chute”, avisa.
Por sua vez, embora pondere que é difícil prever, as especulações do meteorologista Celso Oliveira levam a crer que o La Niña será curto, tendo menos de 12 meses de duração. Isso, contudo, contradiz experiências anteriores. “Se formos olhar para o passado, sempre que tivemos um El Niño forte – como esse – tivemos um La Niña duradouro”, relata e exemplifica: “Um exemplo é o El Niño de 1997, que resultou em um La Ninã que afetou também todo o ano de 1999 e uma parte de 2000, durando dois anos. A diferença é que, naquela ocasião, a transição foi bem rápida. Esse ano, a transição está mais lenta”.
Em entrevista ao Wall Street Journal, o economista-sênior da operadora de bolsas CME Group, Erik Norland, lembra que, embora o El Niño e seus impactos sejam mais conhecidos do grande público, os preços de commodities como soja, milho e trigo podem oscilar 50% mais durante o La Niña.
“A probabilidade de que o atual El Niño se transforme num potencialmente forte La Niña no fim de 2016 ou início de 2017 é algo que os participantes dos mercados agrícolas devem monitorar de perto”, diz Norland.
Quem também acredita que o La Niña deve afetar os preços das commodities é a britânica BMI Research – que acrescenta na lista açúcar, algodão e café. “Um fenômeno La Niña forte pode, potencialmente, ter um impacto maior nos mercados agrícolas do que o El Niño porque ele afeta a meteorologia em vários países que são produtores e exportadores importantes de um grande número de commodities, principalmente EUA e Brasil”, diz Aurelia Britsch, analista sênior de commodities da BMI Research.
Entenda o La Niña
Alexandre Nascimento, do Climatempo, explica que o La Niña é o resfriamento do Oceano Pacífico na região equatorial, modificando a circulação dos ventos no globo terrestre. Para que o produtor possa fazer uma comparação, ele relembra duas safras recentes que foram afetadas pelo fenômeno: 2007/08 e 2010/11.
“No Brasil, o verão tem temperaturas mais baixas, com seca no Sul e mais chuva no Nordeste”, explica e já completa: “Para a safra de cana-de-açúcar, as chuvas devem ficar na média, mas as temperaturas caem um pouco”.
Já com relação a outras partes do planeta, uma vez que se trata de um fenômeno global, Oliveira, da Somar, relata que o La Niña deve fazer com que as chuvas de monções tenham um volume maior que o normal, afetando a Índia, segunda maior produtora mundial de açúcar. “Em 2015 houve atraso nas chuvas e, esse ano, esse atraso não deve ser tão grande”, afirma.
Nascimento, contudo, aponta que o fenômeno não afeta tanto a região quanto o El Niño: “Pode até chegar a ajudar a safra”, argumenta. Ele também cita que, na Flórida, o clima se torna mais seco, enquanto na China fica mais frio que o normal.
Renata Bossle – NovaCana
