Cana: Safra / Moagem

Coronavírus altera planos de usinas sucroenergéticas para safra 2020/21


Argus Media - 30 mar 2020 - 13:52

A crise do coronavírus está transformando o cenário do próximo ano-safra, previsto para começar oficialmente em 1º de abril, já que as usinas do Centro-Sul podem ser levadas a aumentar a produção de açúcar em detrimento do etanol em meio à rápida desvalorização do biocombustível.

Usinas da região também se preparam para uma possível redução do ritmo de moagem diante do efeito da epidemia sobre a atividade industrial no país.

Segundo estimativas de fontes de mercado consultadas pela Argus, considerando os contratos futuros de açúcar negociados na bolsa de Nova York e a cotação do dólar, o valor de equiparação do biocombustível deveria estar próximo de R$ 2.220/m³ para se manter atrativo em relação ao adoçante.

Desde o início da crise, quando o governo brasileiro adotou medidas de proteção para combater a pandemia, o mercado de etanol vivenciou uma queda imediata nos níveis de consumo. Além disso, a Petrobras promoveu sucessivas baixas no preço da gasolina, que tiveram impacto altamente negativo nas cotações de etanol.

O índice Argus de etanol hidratado caiu de R$ 2.607/m³ (equivalente Ribeirão Preto PVU com impostos), no dia 27 de fevereiro, para R$ 1.841/m³ na mesma base, no dia 25 de março, uma queda superior a 29% apenas neste período.

A mudança radical de cenário fez com que muitas usinas se engajassem em revisões de planejamento para o início da safra. De acordo com o diretor comercial de um grupo sucroenergético, uma das estratégias deverá ser aumentar ainda mais a participação do açúcar no mix de produtos, especialmente com a valorização do dólar.

“Os preços já vinham melhorando para o mercado de açúcar e acho que todos já esperavam um mercado mais aquecido, algo que não acontecia há anos”, disse à Argus um executivo de outro grupo.

Especialistas de mercado apontam que o mix terá um aumento da participação do açúcar, mas o etanol ainda deve ser prioridade. Na safra 2019/20, o mix no Centro-Sul deverá terminar em cerca de 65% para o etanol e 35% para o açúcar, de acordo com dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

Impacto no ritmo da moagem

Apesar da maioria das usinas não ter planos de adiar o início da safra, é consenso que o ritmo da moagem deverá ser mais lento, especialmente por questões de segurança e impossibilidade de aglomeração de pessoas.

“Temos uma safra em que o etanol será atingido duplamente, tanto pelo aumento do açúcar no mix quanto por preços que podem voltar aos níveis de 2017”, disse à Argus o economista do Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege), Haroldo Torres.

Segundo o especialista, neste cenário, algumas usinas não conseguirão ter margens positivas, especialmente se focarem no etanol hidratado. Além da baixa da gasolina, o início da moagem tende a aumentar a oferta, o que já contribui para a queda de preços. Outro fator que pode deprimir os preços é um provável aumento da oferta de etanol de milho de usinas da região Centro-Oeste.

“A opção de adiar a safra ou reduzir o nível de moagem também pode ser problemática, pois significa deixar de gerar caixa e perder produtividade. Será menos complicado para grupos que têm flexibilidade no mix e os que fixaram uma boa estratégia de hedge”, disse Torres.

Carolina Guerra