Cana: Safra / Moagem

“A cara da safra 2020/21 é de volatilidade”, afirma diretor da Canaplan

Para Luiz Carlos Corrêa Carvalho, preço internacional do açúcar deve flutuar entre 11 e 12 centavos de dólar por libra-peso


novaCana.com - 01 jul 2020 - 10:23

A pandemia, o petróleo, a política, o protecionismo e o populismo. Estes elementos, segundo o diretor da Canaplan, Luiz Carlos Corrêa Carvalho, são “os cavaleiros do apocalipse” que o setor de cana-de-açúcar precisa enfrentar em 2020.

Os dois primeiros, especialmente, tiveram um efeito claro em relação ao consumo e ao preço do etanol. De acordo com Carvalho, a demanda acumulada pelo biocombustível caiu 11,3% até o final de abril. Em maio, a redução foi ainda maior e chegou a 15,6%.

“A queda na demanda traz uma pressão e uma preocupação enormes. Em janeiro de 2020, nós tínhamos um céu de brigadeiro. E fomos do céu ao inferno rapidamente, sem passar pelo purgatório”, afirma o diretor durante evento promovido na última sexta-feira (27) pela Corteva Agriscience.

A palestra de Carvalho fez parte do evento de lançamento do novo inseticida da companhia, chamado Revolux. Segundo a Corteva, ele oferece uma proteção prolongada contra a broca da cana e pode ser usado para o manejo integrado de pragas (MIP), pois permite rotacionar modos de ação dentro da estratégia do manejo de resistência.

Preços em recuperação, mas sob ameaça

Em sua palestra, Carvalho relembrou as consequências do cenário de crise para os preços, comparando os valores do começo do ano com o auge da crise na demanda. No mercado de açúcar, segundo ele, as negociações foram de 16 centavos de dólar por libra-peso para valores em torno de 9 centavos. Já para o etanol, o preço equivalente caiu de 14 centavos de dólar por libra-peso para 8 centavos.

“Agora, estamos vivendo com 12 centavos por libra no açúcar e o etanol equivalente está em 10 centavos por libra”, afirma e completa: “Este nível de preços, para aqueles que realmente são competitivos, realmente dá margem [de lucro]”.

Mesmo com a pandemia de coronavírus afetando fortemente o Brasil, Carvalho observa que a demanda de etanol está retomando os patamares anteriores, acompanhada por uma recuperação nos preços. “O preço, agora, está acima de 1% melhor do que no ano passado. Com todos os problemas, isso é uma coisa excepcional”, aponta.

Apesar desta recuperação parcial, o diretor complementa que o setor ainda vive dificuldades operacionais por conta da dificuldade de acesso ao crédito, principalmente de capital de giro. De acordo com ele, isso traz consequências para o plantio, de modo que a recuperação do setor pode ser lenta.

Ele também observa que existe o receio de uma segunda onda da doença a nível mundial, o que levaria a uma retomada das medidas de isolamento e, consequentemente, a um novo impacto nos preços e na demanda.

“A cara da safra 2020/21 é de volatilidade. Nós vamos ter volatilidade, sim”, afirma. Ainda assim, ele acredita que o setor pode encontrar “parceiros” nas cotações de petróleo e no câmbio. “O câmbio é quem está viabilizando os preços do açúcar”, garante.

De acordo com Carvalho, a atual estrutura do mercado aponta que, até outubro de 2022, os preços da commodity estarão ao redor de 12 centavos de dólar por libra-peso. Com o câmbio em cerca de R$ 5/US$, este valor permitiria um otimismo em relação ao mercado de açúcar. “Claro que o clima vai trazer trombadas nessas curvas, mas elas permitem uma visão positiva”, pondera.

Por conta deste incentivo à produção de açúcar, o diretor aposta em uma safra menos alcooleira que a de temporadas anteriores. Para ele, a quantidade de matéria-prima direcionada para a produção do adoçante deve atingir um patamar similar ao visto na safra 2017/18.

“O setor, provavelmente, vai ficar com um mix em torno de 46% [para o açúcar], o que deve gerar uma produção de 35 milhões de toneladas, o que é positivo para preços”, afirma e justifica: “O mercado está esperando que o Brasil faça mais de 36 milhões de toneladas de açúcar, mas não vai fazer”.

Tempo seco no Brasil e no mundo

Em relação à atual safra de cana-de-açúcar, Carvalho aponta que o Centro-Sul brasileiro vem se beneficiando de dias secos, o que permite uma aceleração da safra. “Os produtores estão esmagando uma cana jovem, com rendimentos bons”, afirma.

Entretanto, ele ressalta que, quando isso acontece, os canaviais mais velhos acabam sendo colhidos no final da temporada. Isso leva a uma pressão sobre a oferta, o que deve impactar positivamente os preços a partir do segundo semestre de 2020/21, chegando até mesmo a afetar o primeiro semestre da próxima safra.

Além disso, o diretor aponta que o clima seco tem diminuído a oferta em outros países produtores de açúcar, como a Rússia, a União Europeia e, principalmente, a Tailândia. “A Tailândia viu muita seca. O país deve ter uma segunda safra com uma queda muito forte na oferta de açúcar”, relata.

Já na Índia, a perspectiva é de uma retomada da produção na próxima safra. Segundo Carvalho, o país teve uma redução na oferta na atual temporada – que se encerra em outubro –, mas deve retomar a produção “com força” em 2020/21.

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