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Cana: Plantio

Uso da palha da cana para produzir etanol gera risco ao meio ambiente, diz pesquisa

Segundo pesquisador e professor da Esalq-USP, palha protege o solo e oferece nutrientes essenciais. Retirada causa necessidade de aumentar uso de fertilizantes.


G1 - 19 ago 2019 - 07:28

Um pesquisador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) alerta que o uso da palha da cana-de-açúcar para produzir de etanol a energia elétrica sustentável, prática usada por algumas usinas, pode deixar o solo infértil e gerar danos ao meio ambiente. Segundo a pesquisa, a palha serve como uma camada protetora do solo e, sem os nutrientes oferecidos por ela, será preciso dobrar o uso de fertilizantes até as próximas décadas para repor o que foi retirado do meio ambiente.

O estudo desenvolvido pelo professor da Universidade de São Paulo (USP) em Piracicaba (SP) Maurício Cherubin busca identificar os principais impactos a longo prazo da colheita irregular do material usado na produção da bioenergia – a energia obtida em matéria orgânica animal ou vegetal. Além disso, a pesquisa quer alertar as usinas sobre a quantidade mínima de folha a ser deixada no solo. “A retirada como vem acontecendo em alguns locais já é algo preocupante”, afirma o pesquisador ao G1.

O especialista explica que muitas usinas já se preocupam com o manejo da palha, mas que, se o ritmo de retirada do material do meio ambiente continuar excessivo, será necessário dobrar o uso de fertilizantes até 2050 para suprir a demanda de nutrientes que a lavoura precisa. Caso contrário, a fertilidade do solo tende a diminuir.

Produção

Com a palha, é possível produzir energia elétrica mais limpa, utilizada em usinas e em redes de distribuição, além do etanol celulósico – conhecido como “etanol de segunda geração”. De acordo com Cherubin, o uso do resíduo nas usinas é sustentável porque há redução na emissão de combustíveis fósseis, por exemplo.

“As usinas usam a palha porque não há aumento de área de cultivo, e sim um aproveitamento de um resíduo que ficaria ali no solo. Com isso é possível desenvolver uma energia limpa, sustentável, e baratear custos de produção”, afirma o engenheiro agrônomo. “Essa utilização é uma boa oportunidade para o país, mas é preciso tomar cuidado para trazer benefícios tanto à indústria como ao campo”.

O estudo publicado no começo de agosto na revista científica Bioenergy Research teve participação também de outros pesquisadores da Esalq, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) e do Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR) do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP).

Importância da palha

Apesar de a palha ser, basicamente, a folha da cana que fica no solo após a colheita da cultura – e muitas vezes foco dos incêndios criminosos – o professor da USP explica que esta matéria orgânica fornece nutrientes que a terra precisa para ser fértil, como potássio, nitrogênio e fósforo, além de servir como uma camada protetora contra erosões.

Além disso, de acordo com Cherubin, a folha da cana ajuda no “sequestro” de carbono, nome dado ao processo em que o gás carbônico absorvido pelas plantas durante a fotossíntese fica “retido” no solo, reduzindo o avanço do efeito estufa.

“Durante os estudos, percebemos que há áreas onde a retirada da palha em excesso já é algo preocupante. Os impactos vão começar a ser sentidos de forma gradativa”, afirma o pesquisador.

As conclusões do estudo foram obtidas a partir do cruzamento de dados levantados em experimentos de campo feitos em duas cidades e outras informações já disponíveis no campo acadêmico. Com isso, a pesquisa sugere que a média de palha que deveria ser deixada na natureza varia entre sete e dez toneladas por hectare, dependendo da qualidade do solo.

“Vai ter áreas que produzem muito mais que isso, então não há problemas. Mas há solos que já produzem essa quantidade mínima, onde não deveria ser mexido”, pondera o engenheiro.

Mais fertilizantes, mais impactos

A avaliação de que será necessário dobrar o uso de fertilizantes até 2050 para suprir a demanda de nutrientes que o solo exige desconsidera o aumento natural no uso do adubo por causa do crescimento de áreas de cultivo da cana-de-açúcar. Segundo Cherubin, o fertilizante proporciona uma série de benefícios à cultura, mas é preciso evitar excessos.

“Quando aplicado em excesso, [o fertilizante] causa uma série de problemas. É como se fosse a diferença entre o remédio e o veneno”, compara Cherubin.

O engenheiro explica que os fertilizantes fornecem os mesmos nutrientes que a palha, mas a diferença é que são solúveis, ou seja, acabam escorrendo com mais facilidade durante chuvas – principalmente se o solo já está com alguma erosão – indo para rios e causando até mortandade de peixes. Além disso, parte do nitrogênio do fertilizante vai para a atmosfera durante a aplicação na cana, situação que polui o ar.

“Podemos ter a contaminação das águas e, em casos mais extremos, a eutrofização, que aumenta a carga de nutrientes e faz crescer plantas aquáticas, tirando o oxigênio das águas”, explica.

De acordo com a pesquisa, os impactos também serão sentidos no bolso dos produtores e da própria indústria, que terá de desembolsar mais dinheiro para a compra de fertilizantes. “Sempre tentamos uma relação balanceada entre os benefícios para a indústria e produção da energia renovável”, finaliza Cherubin.

Fernando Jacomini
Sob supervisão de Murillo Gomes