Cana: Plantio

Usinas podem produzir mais de 100 toneladas de cana por hectare


Jornal Paraná - 02 fev 2015 - 10:04

É preciso romper paradigmas na cultura da cana nacional para atingir novos patamares produtivos. A escolha das variedades certas, manejando-as conforme os diferentes cenários de produção, tem papel fundamental nesta quebra de paradigmas.

Este foi um dos pontos defendidos pelo pesquisador do Centro Avançado de Pesquisa Tecnológica do Agronegócio da Cana do IAC (Instituto Agronômico de Campinas), Marcos Landell, em dezembro, em Maringá, durante o 4º Syntegração de 2014, reunião técnica promovida pela Alcopar e Syngenta.

Segundo o pesquisador, há vários casos de produtores que ousaram romper paradigmas e estão produzindo mais de 100 toneladas por hectare no quinto corte e nem sempre em condições ideais de produção, como no norte de Goiás.

“Temos que resgatar antigas e buscar novas práticas que levem o setor a obter produtividades superiores à casa aos três dígitos, com longevidade e sustentabilidade econômica”, afirmou Landell. Ele disse que houve uma evolução importante na produção de cana no Paraná, mas que esta deve crescer muito mais. “O potencial é muito maior”.

O pesquisador comentou que com a mecanização da cana, os índices de produtividade tiveram uma redução média de 15% no primeiro corte, ou 22 toneladas. “Se o produtor quer fechar com uma boa média, tem que começar bem, com boa produtividade no primeiro ciclo”, citou ressaltando que com as estiagens sucessivas, a crescente mecanização e outros problemas, se o produtor continuar com a visão antiga, não conseguirá recuperar os níveis de produtividade.

“A mecanização não tem volta. Então tem que fazer a coisa funcionar utilizando técnicas e equipamentos adequados. Com a mecanização criou-se um novo ambiente para a cana”, afirmou ressaltando a importância de construir e preservar o patrimônio biológico, que é o canavial. Também lembrou que todo o trabalho tem início no preparo do solo, que deve ser feito como para o plantio de grãos.

Cuidar dos detalhes

No plantio é preciso atentar para detalhes como profundidade de sulcação do solo, cobertura, uso de fungicida, irrigação e composto orgânico no sulco, além de considerar a idade da muda e os cuidados na colheita da mesma.

Também é preciso garantir uma boa distribuição e o estabelecimento de populações não competitivas. Outros cuidados importantes citados por Marcos Landell são a adoção de práticas de baixo impacto no cultivo mecanizado e na colheita, evitar o pisoteio ou arranquio de touceiras que possam impactar na longevidade do canavial.

No Paraná, a chuva mais constante, mesmo no inverno, aumenta o risco de compactação com a mecanização, fator que compromete a longevidade do canavial.

“Uma das principais coisas a investir é na disciplina do tráfego de caminhões e máquinas, especialmente onde solo é mais argiloso”, alertou.

A escolha de variedades deve seguir critérios específicos, além de evitar as falhas no plantio ou o excesso de plantas que competem entre si

Gerir a população para colher mais

Investir na gestão da população de cana é um dos principais pontos necessários para obter produtividades maiores, segundo o pesquisador do IAC, Marcos Landell. Para ele, tem que se buscar outros “modelos de cana”, mudando até mesmo a preferência pelas canas grossas, optando por variedades que permitam uma maior população. “O grande segredo é trabalhar canavial com alta população e evitar o pisoteio da cana soca, o que aumenta a longevidade e reduz a infestação de plantas daninhas”.

O pesquisador afirmou que é necessário construir um novo perfil varietal com características adaptadas às condições atuais, como capacidade de brotação, perfilhamento, repovoamento de espaços no canavial, fechamento das entrelinhas para reduzir a mato-competição, além de ser ereto e rico em açúcar.

“Há novas variedades com ganhos de produtividade acima de 11% em relação as mais antigas, além de serem adaptadas à nova condição criada com a mecanização do canavial e os extremos climáticos que tem se tornando comuns. Mas muitas usinas ainda continuam plantando as mesmas variedades desenvolvidas para outra condição de manejo. Este é um dos motivos das baixas produtividades”, disse.

Segundo Landell, tem que ter critérios para escolher a variedade. “Esta pode ser altamente produtiva, mas se não for facilitadora, pode comprometer os resultados”. O pesquisador citou que há variedades que do primeiro ao terceiro corte não produzem tanto quanto as canas mais produtivas, mas a partir do quarto se mantém competitiva e ganha pela longevidade. “Tem que estruturar a produção em cima de números, fazer as contas, construir uma nova visão do perfil varietal se quiser um canavial diferenciado”.

Também comentou que ao contrário do que se pensa, a principal causa de redução da produtividade no primeiro corte não é a falha no plantio mecânico ou na brotação, apesar desta ser significativa. “Muitos materiais compensam parcialmente a falha. O maior problema que impacta na redução da produtividade no primeiro corte é a intracompetição”.

De 12 toneladas de cana muda por hectare passou-se a utilizar 20 a 22 toneladas, visando evitar falhas na brotação, mas isso acabou provocando um problema ainda maior com a competição entre as plantas, citou. Considerando que há 20 mil gemas em uma tonelada de cana, o pesquisador calculou que são usadas 400 mil gemas por hectare.

“Isso dá 50 gemas por metro linear. Se nascer 50%, serão 25 touceiras por metro enquanto que para se ter alta produtividade o ideal são duas. São plantas competindo por água, luz e nutrientes.Isso esgota o solo e na hora que a planta precisa dos nutrientes para crescer, não vai ter”.

Canavial não pode mais ser estabelecido de forma aleatória e é preciso atentar para as condições e localização das mudas

Qualidade no plantio é prioridade

Outro ponto defendido como fundamental pelo pesquisador do IAC, Marcos Landell é a qualidade do plantio, além da boa nutrição, proteção e uso de variedades facilitadoras. “Não podemos correr riscos ou termos 20% de falhas em uma operação que é cara. Mais importante do que cumprir metas de plantio é ter excelência no plantio. Caso contrário, corre-se o risco de produzir 80 toneladas no primeiro corte, como muitos têm obtido”, afirmou.

O pesquisador lembrou que em plena era da Agricultura de Precisão, quando tantos cultivos anuais como perenes - café, soja, milho, laranja - são todos estabelecidos com espaçamentos determinados, o canavial ainda continua sendo estabelecido de forma aleatória, apesar de tudo ser mapeado. “Ninguém sabe quantas gemas ou touceiras são plantadas por metro quadrado”.

Ele ressaltou ainda a importância da Agricultura de Precisão na implantação e condução do canavial, fazendo a sulcação com piloto automático, obtendo aumento da capacidade operacional e paralelismo, fazendo correção do solo e aplicação de herbicida com taxa variada, trabalhando com tráfego controlado, redução do pisoteio, operações mais homogêneas, mapas de recomendação, relatórios de aplicação e estimativa de produção.

“Temos que quebrar paradigmas e repensarmos a cultura da cana”, afirmou Landell, destacando novas tecnologias como o plantio de mudas pré-brotadas, que pensa também a gestão espacial. “Canaviais com a mesma variedade plantados lado a lado e no mesmo dia, tendo como diferencial apenas a tecnologia, obtiveram produtividade 30% maiores. A uniformidade de colmos, perfilhamento final, tudo melhorou, dando uma média de 19 colmos finais a mais”, ressaltou.

Outro ponto que precisa ser resgatado é o cuidado com a qualidade das mudas, comentou. “Paramos de planejar os viveiros. A mistura de variedades é um problema sério, assim como o raquitismo da soqueira. Não se faz mais roguing”, lamentou. O pesquisador citou ainda que os viveiros precisam ser estabelecidos ao lado das áreas de plantio para reduzir custos.“A economia em transporte de mudas com a adoção de viveiros satélites pode chegar a R$ 465 mil”, disse.

Soluções integradas para reverter o cenário

Há diversos fatores que tem influenciado negativamente nas produtividades do canavial, segundo o engenheiro agrônomo Victor Hugo Silveira, do Desenvolvimento Técnico de Mercado de Cana de Açúcar da Syngenta. “Conhecer estes é fundamental para reverter o cenário atual”, ressaltou, citando a contribuição da empresa para o aumento de produtividade com o projeto de soluções integradas da Syngenta.

O agrônomo citou que, considerando um potencial médio de produtividade de 140 toneladas de cana por hectare, as perdas com qualidade de muda podem chegar a 7%, com pragas de solo, 9%, com pragas aéreas e doenças do solo, 7% cada, com doenças foliares, 4%, e com plantas daninhas, 11%. “O uso integrado de tecnologias modernas pode eliminar esses problemas, reduzindo as perdas de forma sustentável”.

Para Victor, um ponto fundamental é a qualidade da muda, que impacta na produtividade em 15% a 20%. “Cuidar dos viveiros é garantia de qualidade, vigor, melhor genética, rastreabilidade e sanidade do canavial”. Por isso sempre recomenda a tecnologia Syngenta - Plene Evolve e Plene PB – de mudas pré-brotadas.

Nos 114 campos demonstrativos montados em áreas comerciais de usinas que representam 65% da moagem brasileira, onde foram empregadas as Soluções Integradas Syngenta (produtos e pacote tecnológico), Victor citou que foram obtidos 24% de redução nas falhas, 9% de aumento em toneladas de cana e 10% de redução de custos por tonelada.

Isso, além de melhor estabelecimento em plantio e controle de pragas e doenças, obtenção de mudas com maior vigor e qualidade, maior longevidade de soqueira, seletividade e qualidade na colheita. “A cada R$ 1 investido, retornam R$ 6, com custos 75% menores que outros”, citou.

Victor também comentou sobre o Novo Plene, que deve ser lançado em 2017. “Com a tecnologia será possível reduzir o uso médio de 20 toneladas de cana por hectare como muda para apenas 250 kg, facilitando a logística operacional, reduzindo custos e o impacto ambiental”, completou.

Há materiais específicos para cada ambiente. Ter mais de 15% da área com uma única variedade é um risco enorme

Ganhos podem chegar a 40% com manejo varietal

“Por melhor que seja a variedade, nenhuma usina pode chegar a ter 60% de sua área de plantio com apenas uma delas.Ter mais de 15% já é um risco enorme.Tem que avaliar a condição de cada variedade nos vários ambientes de produção, vendo qual a melhor para cada situação e explorar os ganhos dessa interação”, afirmou o pesquisador do IAC, Marcos Landell, ressaltando que planejamento e manejo varietal também são estratégicos.

“É preciso determinar a matriz de ambientes, quais os solos e ambientes na usina, estabelecer metas e escalar variedades específicas. Para isso é importante ter uma pessoa específica para planejamento, que conheça a responsividade de cada material nos vários ambientes da usina”, disse o pesquisador.

Segundo Landell, há materiais responsivos que posicionados no melhor ambiente elevam consideravelmente a média agrícola da empresa e o uso de uma cultivar rústica pode viabilizar ambientes desfavoráveis como os com elevado déficit hídrico. “A alocação conforme o perfil de resposta das variedades pode resultar em ganhos estimados em 15% a 40%. É preciso estar sempre avaliando e planejando quais materiais precisam ser substituídos e por qual”.

Além da mudança das variedades multiuso para as específicas, outro conceito antigo que mudou foi o de que materiais precoces deveriam ser plantados em ambientes favoráveis e os tardios em ambientes mais restritivos. “A antecipação da safra nos ambientes piores atenua os problemas com déficit hídrico. A produtividade pode ser menor, mas há ganhos na maturação”, destacou.

Também, citou, deve-se priorizar a colheita da cana planta no primeiro terço da safra, com aumento significativo de produtividade agroindustrial nos primeiro e segundo cortes.“Estas têm o sistema radicular menor que a soqueira, estando mais sujeito ao déficit hídrico”, finalizou Landell.

Por Marly Aires  - Jornal Paraná