Cana: Plantio

Mudas e meiosi permitem que produtores antecipem adoção de novas variedades de cana

Utilização de mudas pré-brotadas e técnica específicas para o plantio de nova variedade acelera processo em quatro anos e aumenta a produtividade em 20%


IAC - 24 jul 2020 - 09:40
Sistema MPB alterou modo de plantar cana-de-açúcar no Brasil

Conforme dados do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), o canavicultor pode antecipar em quatro anos a adoção de uma nova variedade de cana-de-açúcar, o que proporciona um aumento de produtividade de 20% em relação à variedade antiga. O salto no rendimento decorre apenas da renovação da variedade plantada, mas a aceleração se torna possível quando a instalação do canavial é feita por meio do uso do sistema de Mudas Pré-Brotadas (MPB) associado com o sistema de meiosi.

De acordo com os pesquisadores, a condição benéfica está mudando a vida do produtor de cana não só pelo incremento na produtividade. Segundo eles, há também o ganho proporcionado pelo combo tecnológico – MPB e meiosi –, que torna o produtor independente em relação à escolha da variedade e à produção de mudas dessas novas variedades, mais adequadas ao seu nicho de produção.

Desenvolvida pelo IAC, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, a MPB foi lançada em 2011/12 e mudou o modo de plantar cana no Brasil, estando presente em várias regiões do país. Esses ganhos foram revelados pelo pesquisador do IAC, Marcos Guimarães de Andrade Landell, durante uma live sobre inovações em cana-de-açúcar, promovida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), no dia 16 de julho de 2020.

Ele explicou que, além de ampliar a produtividade, as variedades novas costumam ter maiores taxas de multiplicação, o que dilui o custo da muda. Esses novos materiais promovem outros ganhos, decorrentes da combinação entre MPB e meiosi. Por exemplo, o canavicultor pode se limitar a comprar mudas pré-brotadas para plantar apenas cerca de 8% da área de seu canavial. Esses 8% de área irão produzir, em seis meses, as mudas suficientes para instalar o canavial total.

Segundo Landell, quando o canavicultor não dispunha destas tecnologias, ele se via obrigado a comprar as mudas das usinas, que têm realidades diferentes e, muitas vezes, fazem escolhas distintas daquelas que melhor atendem ao produtor de cana.

A associação entre MPB e meiosi possibilita aumentar em cerca de 700 vezes a taxa de multiplicação de uma nova variedade de cana-de-açúcar, em um período de mais ou menos nove meses. “Isso é uma taxa de multiplicação fabulosa”, diz Landell, ao lembrar que, no passado, quando predominava o plantio manual, a taxa era de um para dez, isto é, com um hectare de material biológico eram feitos dez hectares de plantio.

“Com o advento da mecanização, esse desempenho se tornou mais crítico, passando a ser de um para quatro, ou seja, para realizar o plantio de quatro hectares passou a ser necessário um hectare de viveiro de mudas”, comenta.


Conforme Landell, o sistema MPB, por si só, aumenta a taxa de multiplicação da cana. Com dez mil MPBs, é possível plantar um hectare de cana. “Existem variedades na atualidade que possuem até 20 mil gemas em uma tonelada de colmos, possibilitando a produção de mais de 15 mil MPBs. Teoricamente, o que se gasta em plantio mecânico é perto de 13 a 14 toneladas por hectare. Hoje, com uma tonelada, isto é, 13 vezes menos, consegue-se produzir MPB para plantar o mesmo hectare”, explica. A associação do MPB ao conhecimento de meiosi ampliou os ganhos.

A meiosi é o método intercalar de plantio, em que se planta uma linha de cana e deixa um espaço para até 15 linhas, que serão plantadas dentro dos próximos seis meses. Esses novos plantios serão feitos no espaço intercalado, a partir de mudas geradas pelas primeiras linhas instaladas. O método de meiosi foi desenvolvido pelo pesquisador José Emílio Barcelos, durante doutorado realizado na UNESP Jaboticabal, no meio da década de 1980.

Depois de lançar o sistema MPB, a equipe do Programa Cana IAC também começou a ministrar treinamentos sobre esse tema. Cerca de 800 pessoas já foram capacitadas. Algumas dessas começaram a fazer mudas pré-brotadas em sua propriedade e, assim, quebraram um ciclo de muito tempo, que era caracterizado pela dependência do produtor em relação à usina produtora de muda. “Porém, a muda que a usina produz é dentro das convicções e das condições dela; o produtor, por ter área menor, pode fazer um manejo mais cuidadoso”, diz Landell.

A partir do momento que o canavicultor passou a fazer sua própria muda, ele começou a procurar novas variedades do IAC, do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) e da Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético (Ridesa). Esses novos materiais passaram a ser instalados através do sistema MPB e meiosi e seus canaviais deram um salto de produtividade.

“Nos cursos de MPB realizados pelo IAC são ensinados também o conceito de Terceiro Eixo, enfatiza-se aspectos de nutrição e proteção de plantas, identificação de pragas”, diz Landell, ao explicar que esse contexto ofereceu ao produtor informações que asseguraram uma oportunidade de produtividade muito maior do que no método convencional.

O líder do Programa Cana IAC menciona o exemplo do produtor Renato Trevizoli, que obtinha cerca de 90 toneladas, em média de cinco cortes e, em 2019, ele alcançou 122 toneladas, em média. “Isso é muito significativo – e este ano ele deve aumentar um pouco mais”, acredita Landell.

Na live, Landell destacou a importância de a ciência se aprofundar no conhecimento básico da cana-de-açúcar para, no futuro, utilizar ferramentas poderosas como a edição gênica e associá-la ao esforço que vem sendo realizado no projeto de melhoramento genético. “Ela vai casar perfeitamente com o melhoramento genético da cana e devemos usá-la visando à produtividade da canavicultura”.

“Nós temos um verdadeiro pré-sal biológico, com possibilidades reais de produzir algo como 10 mil litros de etanol por hectare”, Marcos Landell (IAC)

Para o pesquisador do IAC, o setor sucroenergético está diante de uma oportunidade com o avanço da biotecnologia como um todo e o importante é contextualizá-la com aspectos palpáveis da cultura. Ele acredita que, ao atingir o patamar de 10 mil litros de etanol por hectare, o produtor terá recursos inclusive para financiar a pesquisa. O líder do Programa Cana IAC defende a visão agregada do setor, de modo a mostrar como os elos se complementam para fortalecer a canavicultura de alta produtividade.

Além do pesquisador do IAC, participaram da live sobre inovações em cana-de-açúcar o presidente executivo da União Nacional da Bioenergia (Udop), Antonio Salibe; o diretor de negócios da Syngenta, Leandro Amaral; o gerente de P&D do CTC, Diego Ferres; o presidente da Federação dos Plantadores de Cana do Brasil (Feplana), Luis Henrique Scabello de Oliveira; o coordenador de biotecnologia da Ridesa, João Bespalhok; o pesquisador Hugo Molinari, da Embrapa Bioenergia; e o chefe de P&D da Embrapa Agroenergia, João Ricardo.


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