Cana: Plantio

Em busca das 100 toneladas por hectare


Revista STAB - 06 set 2013 - 10:52

Há tempos tenho defendido que o setor da bioenergia precisa investir mais em pesquisa e desenvolvimento para a "nova cana" que plantamos e colhemos em nossos canaviais, distribuídos nas novas fronteiras agrícolas, para onde a cana-de-açúcarse expandiu durante o boom do setor em meados da década passada.

Por vezes insisto que tanto a tecnologia aplicada como as pesquisas em desenvolvimento não são aplicadas para esta nova fronteira. O que temos hoje é um cenário altamente diversificado, que prova que a realidade de cada unidade é isolada e pouco se comunica com as usinas/destilarias vizinhas. Que dirá as compreendidas na mesma macrorregião.

A fim de corroborar minha afirmação incansável de que falta pesquisa e a tecnologia disponível é oriunda dos períodos de auge do setor, na década de 1970 e 1980, quando os institutos se debruçavam em pesquisas para as regiões tradicionais de cana, a UDOPrealizou em meados deste ano a Pesquisa: Produtividade agrícola e tecnologias aplicadas, enviada a 399 usinas/destilarias de todo o Brasil.

Respondida por 90 unidades (23% das pesquisadas), sendo 10% instaladas na região Norte-Nordeste e 90% na região Centro-Sul do Brasil, com 61% de respostas de usinas em funcionamento em São Paulo, uma coincidência de produção e amostragem, a pesquisa apontou números díspares nos quesitos: preparo de solo; plantio; tratos culturais cana planta e soca; colheita manual e mecanizada; pragas e doenças e produtividade das últimas cinco safras.

Tornou-se evidente a disparidade entre as tecnologias aplicadas por estas 90 unidades, mostrando claramente que muitas destas tecnologias foram introduzidas quer por observação (experimento próprio), ou mesmo sem um estudo de aplicação para as regiões onde estão instaladas.

Exemplo típico da falta de tecnologia definida verificamos no sistema de pré-plantio incorporado (Ppi) cujo resultado mostrou sua aplicação em 51% das unidades, contra 49% que não aplicam esta tecnologia. Assim, a pergunta que fica é: afinal esta tecnologia traz ou não benefícios para as unidades? Em caso positivo ou negativo, quais? Por quê?

Outro ponto a se destacar de nossa pesquisa é que das 90 unidades que responderam aos questionamentos, 67% dizem possuir viveiros de mudas. E pasmem: 62% destes "viveiros" não possuem tratamento térmico de mudas, prática defendida pela maioria dos pesquisadores, pois erradica o raquitismo, doença que trouxe, e traz, inúmeros prejuízos ao setor. Vale ressaltar ainda que em 25% destes viveiros, o roguing não é praticado, o que nos faz indagar: viveiro sem roguing e tratamento térmico será que tem serventia?

Com estes resultados em mãos, reforçamos nosso pleito em defesa da instituição de um centro nacional de pesquisa em cana-de-açúcar, pois a saída da crise que se ergue em nosso segmento, a meu ver, terá como uma das principais vertentes a redução de custos e melhoria da produtividade de nossos canaviais. Ouso defender que temos que mirar nas 100 toneladas de cana por hectare, com menor custo de produção, se quisermos sobreviver.

Dito isto só poderia destacar com louvor a iniciativa do amigo Paulo Zanetti, presidente da Renuka do Brasil, com usinas em Brejo Alegre/SP (Revati) e Promissão/SP (Madhu), que inaugurou em meados de julho seu Polo Experimental em Cana-de-açúcar, numa área de 30 hectares, voltados para a pesquisa de novas variedades e novas tecnologias aplicadas à cana.

O novo Polo Experimental traz alento para a região Oeste Paulista, pois a parceria com institutos de pesquisa como a Ridesa/UFSCar, Iac, Ctc, Canavialis e a Embrapa, com certeza trará ótimos resultados no desenvolvimento deste setor, e a UDOP tem orgulho de ser parceira deste polo.

Além do Polo Experimental da Renuka, a realização do 28º Congresso Issct em São Paulo, no final de junho, também é uma dessas iniciativas que merecem destaque, uma vez que trouxe para o Brasil inúmeros pesquisadores e o resultado de seus trabalhos, que muito devem contribuir para o progresso de nosso setor. Neste ponto, a incansável luta do presidente da Stab, José Paulo Stupiello e demais membros do Comitê de organização do Congresso, é de se louvar, pois demonstra o comprometimento com este setor e seu desenvolvimento.

Finalizo o presente artigo me "apropriando" da frase do líder humanista Mahatma Gandhi, e que imortalizará o Polo Experimental da Renuka do Brasil, pois está gravada na placa inaugural deste importante empreendimento: "Você nunca sabe que resultados virão da sua ação. Mas se você não fizer nada, não existirão resultados".

Antonio Cesar Salibe
*Texto originalmente publicado na Revista Stab - Edição Julho/Agosto de 2013, vol. 31 nº6

Tags: Outros

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