Cana: Plantio

Em crise, região de Ribeirão Preto perde espaço entre canaviais paulista


G1 - 18 ago 2014 - 09:49 - Última atualização em: 29 nov -1 - 20:53

A região de Ribeirão Preto (SP), que já foi responsável por quase um terço das lavouras de cana-de-açúcar no Estado de São Paulo, vem perdendo espaço nos últimos dez anos devido à crise econômica enfrentada pelo setor sucroalcooleiro. Um levantamento feito pela Faculdade de Economia e Administração de Empresas de Ribeirão (FEA/USP), com base em dados da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica), aponta que a falta de espaço e de investimentos fez com que a taxa de crescimento dos canaviais na região ficasse cada vez menor.

Na última safra (2013/2014), por exemplo, a área cultivada na microrregião de Ribeirão Preto - composta por 16 cidades, entre elas Dumont (SP), Sertãozinho (SP), Serrana (SP), Guatapará (SP) e Pontal (SP) - representou apenas 5% do total de canaviais paulistas. Ao mesmo tempo, enquanto a taxa de crescimento das lavouras já chegou a 3,5% na safra 2005/2006 - a área cultivada passou de 285 mil para 295 mil - o mesmo índice alcançou apenas 0,5% na última colheita, quando foram plantados 321 mil hectares (veja quadro abaixo).

O economista Luciano Nakabashi, coordenador do estudo, diz que a tendência de queda é um reflexo do que vem ocorrendo em todo o Estado, em consequência da crise enfrentada pelo setor, principalmente nos últimos cinco anos. "Isso tem muito a ver com a piora da economia, a queda do preço do açúcar no mercado internacional e o valor da gasolina que está sendo mantido artificialmente, afetando o retorno financeiro para a produção de etanol."

Nakabashi explica que a crise iniciada nos Estados Unidos em 2007 afetou várias economias e, consequentemente, o preço de produtos comercializados em todo o mundo, como o açúcar. Essa perda financeira poderia ter sido compensada por uma elevação do preço do etanol, o que não ocorreu, porque o Governo Federal decidiu conter o preço da gasolina como medida para controlar a inflação, afetando ainda mais a capacidade de geração de renda de toda a cadeia produtiva de açúcar e etanol.

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Região prejudicada

O economista afirma também que a queda da participação das lavouras regionais no Estado é resultado da falta de espaço para novos canaviais, já que as áreas cultiváveis estão quase 100% tomadas pela cana. Além disso, por serem altamente dependentes do setor sucroalcooleiro, as cidades no entorno de Ribeirão Preto estão sendo atingidas de forma geral pela crise.

Um dos indicativos é o fechamento do escritório regional da Unica em Ribeirão Preto, com o desligamento de 12 funcionários, entre eles a diretoria de comunicação da instituição, que atuava como porta-voz do setor no interior do Estado.

"A redução foi justificada pela necessidade de adequação das contribuições à realidade econômico-financeira das indústrias sucroenergéticas que, desde 2008, vêm sofrendo grande perda de competitividade em razão de políticas públicas adotadas para o setor de combustíveis, que incluem a redução da carga tributária sobre os derivados de petróleo comercializados no país e a comercialização de gasolina subsidiada", informou a Unica, em nota.


Demissões

Entre as consequências da crise está também o aumento do desemprego, principalmente na indústria, e que tem afetado outros setores, como comércio e serviços. Em Sertãozinho, cuja economia depende quase que exclusivamente da cana-de-açúcar, o primeiro semestre do ano fechou com saldo de 551 demissões, enquanto no mesmo período do ano passado o balanço foi de 2,6 mil contratações, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Nakabashi destaca que as perdas ocorrem em efeito cascata, ou seja, prejudicam também o comércio, a construção civil e os serviços. "Existe uma tendência de que as pessoas que ficaram desempregadas saiam da região em busca de trabalho. Provavelmente, encontrar ocupação em outra área, principalmente quem tem mão de obra menos qualificada. Elas vão para outros setores", afirma o economista, destacando que a expectativa de recuperação está prevista apenas a partir de 2015.

"Nós já tivemos uma redução da safra por causa do clima e isso está refletindo sobre o preço do açúcar, que está aumentando. Parece também que o Governo Federal está sinalizando um aumento no preço da gasolina. Mas a recuperação ainda vai depender muito de quanto será esse reajuste, porque temos uma defasagem em torno de 15 a 20%. Se o governo der esse valor de reajuste, o que eu acho muito difícil, já dá um bom alívio para o setor", diz Nakabashi.

Adriano Oliveira