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Venda de CBios vai beneficiar fornecedores de cana, mas não deve fazer parte do Consecana, diz Unica


novaCana.com - 15 mar 2018 - 10:16

O RenovaBio, programa de incentivo à produção nacional de biocombustíveis, vai trazer a possibilidade das usinas lucrarem com a venda do crédito de descarbonização (CBio). Mas, além delas, os fornecedores de cana-de-açúcar também podem se beneficiar desse novo mercado.

Essa afirmação é do diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Antonio de Padua Rodrigues, durante o 1º Encontro Técnico do RenovaBio, realizado em Piracicaba (SP), em 23 de fevereiro.

“Sem dúvida alguma, uma parcela do RenovaBio é do fornecedor”, Antonio de Padua Rodrigues (Unica)

Em entrevista ao novaCana, ele explica que 90% da nota de eficiência energético-ambiental das usinas depende da parte agrícola da produção – e ela não diz respeito só à cana própria. Dessa forma, é importante que haja um acompanhamento maior sobre as práticas dos fornecedores.

A nota, que é obtida pelo uso da ferramenta RenovaCalc, determina o caráter mitigador do biocombustível em relação a seu substituto fóssil. Assim, ela varia de usina para usina e impacta no número de CBios que cada companhia pode emitir. Ou seja, uma usina com fornecedores que adotam bons tratos culturais poderá ter um maior número de créditos do que outra que tenha o mesmo volume de produção, mas produtores menos eficientes ambientalmente.

“Existem dois tipos de fornecedor. Aquele que tem boa produtividade e utiliza seus insumos da forma correta contribui para a redução dos gases de efeito estufa e melhora a nota do usineiro. Do outro lado, existe aquele que tem baixa produtividade e executa atividades menos sustentáveis, aumentando a emissão total de gases”, afirma Padua.

Porém, ele cita um terceiro tipo: “Há também aquele que prejudica a nota justamente por não ter controle sobre seus processos e utilizar o preenchimento padrão”.

Pádua está se referindo a possibilidade aberta pelo RenovaCalc de preenchimento com dados padrões. Esta opção é dada aos fornecedores agrícolas que não possuem os dados completos de seus processos produtivos. No entanto, isso implica que serão computados maiores valores de emissão, prejudicando a nota final da usina.

Assim, a relação entre usineiro e agricultor vai se estreitar pelo interesse de ambos em gerar mais lucros. “Eu, como usineiro, não vou querer um fornecedor que jogue minha quantidade de CBios para baixo. Eu quero ter fornecedores de cana que façam o contrário, que me gerem mais papel, que participem mais, que me façam lucrar mais”, exemplificou o diretor durante o evento.

Com essa possibilidade de benefício, além da maior pressão por parte da usina, o produtor será incentivado a regularizar sua situação no Cadastro Ambiental Rural (CAR), que é indispensável para a participação no programa, e até para melhorar sua produtividade – de forma mais sustentável, preferencialmente.

Como cada caso é um caso, Padua explica que a maneira de remunerar o produtor será avaliada de forma global para a criação de um modelo de premiação para os fornecedores que ajudam a diminuir as emissões, ao mesmo tempo em que vai determinar como tratar os que pioram a nota da usina. Dessa forma, o mercado de CBios ficaria de fora do preço estabelecido pelo sistema Consecana, mas ainda assim haveria repasse aos produtores. Isto ocorreria de forma semelhante ao que acontece com utilização do bagaço de cana para cogeração, que não faz parte do Consecana, mas entra na negociação direta entre usina e fornecedores.

“Como o RenovaBio só entra em vigor em 2020, temos tempo para estudo e discussão. Vamos entender melhor o funcionamento da calculadora, a apuração das notas e dos preços dos CBios, e determinar como será o relacionamento com a agricultura”, promete.

Com essa possibilidade, o RenovaBio passa a ser economicamente interessante também para os fornecedores, incentivando toda a cadeia de produção a melhorar seus processos. O incentivo econômico sustenta a iniciativa e alinha mais o interesse do fornecedor e da usina. O resultado deve ser um processo mais sustentável, com menor emissão de CO2 em toda a cadeia.

Rafaella Coury – novaCana.com