Cana: Meio ambiente

Potencial do biogás de cana supera importações de gás natural da Bolívia

Biogás poderá ser negociado de forma igualitária no mercado de gás natural em breve, aumentando a produção vinda de cana-de-açúcar e seus insumos


Click Petróleo e Gás - 06 nov 2020 - 11:13

O Brasil tem potencial para produzir, diariamente, entre 19 e 43 milhões de metros cúbicos de biogás a partir dos derivados da cana-de-açúcar (vinhaça e torta de filtro) até 2030, segundo projeções. O valor foi apresentado nesta quinta-feira, 5, pela diretora de pesquisa de petróleo e gás da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Heloísa Borges, durante fórum da Associação Brasileira do Biogás (Abiogás).

O maior valor desta projeção equivale a mais do que o dobro do volume de gás natural que o país importa da Bolívia, de 19 milhões de m³ por dia.

Borges estima que a produção brasileira de cana-de-açúcar poderá crescer 1,5% ao ano na próxima década, chegando a 802 milhões de toneladas até 2030. No mesmo período, a produção de vinhaça e torta de filtro pode chegar a 471 bilhões de litros e 33 milhões de toneladas, respectivamente.

Um dos mercados potenciais para o biogás derivado da cana-de-açúcar é o setor agrícola, que poderá demandar, até 2030, 11,4 bilhões de m³ – o equivalente a 6,3 bilhões de m³ de biometano, que pode substituir a mesma quantidade de diesel.

O valor representa entre 45% e 70% do consumo estimado de diesel do setor para 2030. “O setor agrícola consome entre 12% e 15% da demanda nacional de diesel, e o Brasil é importador desse combustível”, disse Borges.

Segundo a EPE, o Brasil produziu 294 toneladas de óleo equivalente a biogás em 2019, o que representou 0,09% da oferta total de energia e 2% da geração de energia elétrica do país.

No ano passado, o país contava com 533 usinas de biogás em operação, sendo reformuladas ou reformadas, com uma capacidade de produção combinada de 3,8 milhões de m³ por dia. As usinas estão concentradas principalmente nas regiões Sudeste e Sul.

As usinas de etanol que substituírem o diesel por biogás terão o direito de aumentar sua nota de eficiência energético-ambiental e emitir mais créditos de descarbonização (CBios) no programa RenovaBio, conforme aponta o secretário de petróleo, gás e biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia (MME), José Mauro Ferreira.

Ferreira ainda comentou o projeto da Lei do Gás, que deve ser votado em breve no Senado. O texto determina que qualquer tipo de gás, mesmo que não se enquadre na definição de gás natural, terá direito a tratamento igualitário desde que cumpra as especificações de qualidade da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). “Isso permite que o biometano seja negociado no mercado de gás natural”, acrescentou.

“Pré-Sal caipira”

Em outubro, foi inaugurada a maior usina de biogás de cana-de-açúcar do mundo. Localizada no estado de São Paulo, a Geo Energética da Raízen tem capacidade para gerar 138 GWh ao ano, o suficiente para abastecer 62 mil residências.

A chefe de transição energética e renováveis da empresa, Raphaella Gomes, disse que, no futuro, a usina se tornará uma refinaria integrada, utilizando etanol, bioenergia de bagaço, biogás e etanol celulósico, entre outros insumos. “Chegaremos a biomateriais, bioquímicos”, promete e completa: “É uma grande mudança do que fazemos hoje com os combustíveis fósseis para a biomassa”.

Ela ainda acrescenta que o biogás é o “Pré-Sal rural” do Brasil, com a vantagem de estar mais próximo dos grandes centros consumidores.

Paulo Nogueira


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