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Cana: Meio ambiente

Incêndios queimam produtividade dos canaviais e recursos do produtor, diz IAC

“Não há interesse nenhum em fogo no canavial. O fogo é um grande estorvo para a canavicultura”, afirma Marcos Landell


IAC - 28 out 2021 - 16:19 - Última atualização em: 29 out 2021 - 09:05

Quem ainda pensa que os incêndios são causados pela canavicultura está um tanto atrasado. Na safra 2020/21, 99,8% de toda a cana-de-açúcar cultivada em São Paulo foi colhida sem uso da queimada. Além desse dado, o fogo em canaviais literalmente queima os recursos investidos pelo canavicultor.

Dados do Programa Cana IAC, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, mostram que os incêndios reduzem o potencial de produtividade em razão da perda de população de colmos da cana no ciclo seguinte, ou seja, no corte posterior.

“Depois de 30 anos caminhando sobre a cana crua, não restam dúvidas: o fogo é um desastre econômico para o produtor”, sentencia o líder do Programa Cana IAC e diretor-geral do instituto, Marcos Landell.

Segundo ele, este ano foi atípico para o setor sucroenergético. Em São Paulo, 3% das áreas de cana foram atingidas por incêndios, conforme a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica). “São 150 mil hectares de cana. Isso traz muito prejuízo, principalmente para a próxima safra, e traz preocupação para a Unica”, diz o diretor técnico da entidade, Antonio de Padua Rodrigues.

A Unica promove ações preventivas, como o incentivo à construção de aceiros em áreas já colhidas para melhorar o controle de fogo, caso ocorra. Além do fogo, 10% dos canaviais em São Paulo sofreram com a geada este ano. O clima muito seco favorece os incêndios.

“O fogo causa falha no canavial e nessas falhas vai nascer mato, exigindo ações de manejo para eliminá-lo; isso tudo reflete em menor produtividade e menor longevidade do canavial, com consequente maior necessidade de replantio”, explica Landell.

De acordo com o pesquisador, uma significativa parte das operações já realizadas após a colheita e os produtos aplicados são perdidos quando ocorre incêndio. Assim, o agricultor perde recursos. “Essas ocorrências desorganizam a gestão do canavial e dobram o custo de produção”, afirma.

Além desses prejuízos, a qualidade da matéria-prima é impactada após o incêndio. Isso ocorre porque o fogo provoca a entrada de microrganismos na planta, levando ao apodrecimento do material e tornando a matéria-prima ruim para a indústria. “O impacto depende inclusive da variedade que foi atingida pelo incêndio. A urgência de se colher a cana vítima de fogo é para evitar esses prejuízos”, relata o cientista.

Landell explica que se o incêndio ocorrer em uma região mais fria, os danos são menores. Em uma região mais quente, a ação dos microrganismos é acelerada, prejudicando ainda mais a qualidade da matéria-prima.

Recuperação da cana queimada

Além disso, o tempo para recuperar um canavial queimado depende muito da extensão do fogo, do estrago feito e do estágio da cana queimada. Em uma brotação de três semanas, o dano pode ser não muito significativo. Se for de quatro a cinco meses, a planta irá vai morrer e brotar novamente. Neste caso, perde-se todo o desenvolvimento da planta e todo adubo usado.

“Se o fogo ocorrer no período de três a quatro semanas após a colheita, o dano é significativo e, se estiver seco, como em setembro, vai prejudicar a rebrota na base por falta de água”, atesta Landell. O produtor terá que entrar com adubos e nem sempre a brotação é do mesmo modo como antes da queimada. “Por isso se investe também em prevenção e combate ao fogo”, diz o diretor técnico da Unica.

De acordo com Rodrigo Morales, gerente agrícola do grupo Raízen, os incêndios não são atividades do setor sucroenergético. “A palha é um produto para nós, queimar palha é queimar matéria-prima da indústria”, diz.

O grupo mantém estações meteorológicas em suas fazendas para monitorar chuvas e água no solo. A tecnologia contribui para antecipar as ações preventivas porque, em 2021, a estiagem, que normalmente chega em agosto, chegou em julho.

Dados sobre umidade relativa do ar, temperatura e velocidade do vento contribuem para indicar as chances de ocorrer incêndios e com qual velocidade. Em áreas próximas às cidades, o grupo planta variedades precoces para antecipar a colheita e reduzir as chances de fogo.

Palha da cana protege o solo

Segundo Marcos Landell, com a nova realidade da cana crua, o fogo passou a ser indesejado. O setor tem interesse na palha residual, que resta no solo após a colheita, inclusive em função do déficit hídrico. “A palha cobre o solo e reduz a perda de água do complexo solo-planta nas áreas de produção, o que é interessante para a produtividade dos canaviais”, comenta o diretor-geral do IAC.

A cana crua pode ser uma grande oportunidade de melhorar a produtividade com variedades adaptadas a esse resíduo de palhas. O IAC desenvolveu variedades para diversas regiões com o perfil de canas eretas, que proporcionam melhor operação de máquinas. Exemplos dessas variedades são a IACSP 95-5094 e a IACSP01-5503, que chegou a atingir produtividades de 212 toneladas por hectare em áreas sem o uso da irrigação.

O “colchão de palha” mitiga o déficit hídrico. Segundo o líder do Programa Cana IAC, a cada 100 ml de déficit hídrico há uma redução aproximada de 12 a 14 toneladas de colmos por hectare. “É bastante! Em Ribeirão Preto teve déficit de 400 ml de chuva ante à média histórica. Isso mostra que, se não houvesse manejo, o prejuízo seria superior a 30 toneladas por hectare. Sem a palha, a redução da produtividade em Ribeirão Preto seria muito maior”, exemplifica.

Os pacotes tecnológicos desenvolvidos pelo Programa Cana IAC contemplam esse ambiente de cana crua desde o ano de 1994. A mudança no modo de colher cana alterou vários outros aspectos da cultura: incentivou novos estudos sobre nutrição e adubação dos canaviais, com o uso de potássio e cálcio, e acelerou o desenvolvimento de variedades adaptadas ao novo ambiente.

“Os talhões dos canaviais também mudaram com a mecanização. Novas pragas surgiram com o contexto da cana crua, como a cigarrinha, o que também exigiu novos estudos para controlá-las na situação sem uso de fogo na colheita”, explica Landell.

Para se ter ideia da mudança de ações dos canavicultores, em 1999/00, 28% dos canaviais paulista tiveram colheita mecanizada. Atualmente, são quase 100%. A mudança de rumo foi prospectada pela equipe do Programa Cana IAC ainda no início da década de 1990. Com o início da colheita mecanizada de cana crua, não fazia sentido queimar.

O custo do processamento da cana crua é menor do que o da cana queimada. A diferença é que se processa a cana logo após a colheita, pois não há intervalo entre colher e processar. Com isso, o caldo é mais rico. “No processamento, os caminhos também foram alterados de cana inteira para cana picada. Isso muda também a forma de recepção da cana nas unidades produtoras”, comenta Padua.

Uso da palha de cana

Em relação à dúvida sobre usar a palha para cogeração de energia ou deixá-la no solo para proteção, a recomendação do IAC é, nos primeiros ciclos da cultura, manter a palha na área colhida, inclusive para evitar o pisoteio do solo provocado por máquinas.

“O solo é preservado com a manutenção da palha. Deixá-lo desnudo é uma temeridade para a produtividade agrícola”, diz Landell.

Segundo ele, os ciclos mais avançados devem ser os preferidos para se eleger com a finalidade de se recolher a palha visando a cogeração de energia.


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