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Cana: Meio ambiente

Sem participação das usinas, governo enfrenta dificuldades para diferenciar irrigação e fertirrigação da cana

ANA e Agrosatélite realizam segundo estudo sobre irrigação da cana no Brasil, mas precisam de dados dos produtores para gestão justa dos recursos hídricos. Falta de dados prejudica setor sucroenergético


novaCana.com - 22 jan 2019 - 09:56 - Última atualização em: 28 fev 2019 - 10:31

A cana-de-açúcar possui o status de “cultura de maior área irrigada do país”. Ou seja, de toda a área irrigada no Brasil, 30% é de cana – ou 1,72 milhão de hectares. Mas este dado, publicado em um estudo de 2017 da Agência Nacional de Águas (ANA), não reflete a realidade do setor, não está incluído o Norte-Nordeste e pouco se sabe sobre a extensão de área em que a técnica é efetivamente utilizada.

O problema ocorre por conta de uma especificidade que só a cana possui: a divisão entre a irrigação – lâminas d’água mais robustas, tendo os mananciais como fonte – e a fertirrigação, com baixas lâminas contendo vinhaça (resíduo da produção de etanol) e água de reúso. Aliás, é justamente esta técnica de fertirrigação que faz a cana ter a posição de maior área irrigada, pois ela é muito utilizada pelos canavieiros.

Uma das responsabilidades institucionais da Agência Nacional de Águas (ANA) é produzir dados sobre demanda e oferta de água no país, bem como melhorar e atualizar os dados de estimativa de uso da água. Segundo Thiago Henriques Fontenelle, especialista em recursos hídricos da agência, surgiu a necessidade de caracterizar melhor a demanda e a área irrigada do setor sucroenergético, até por conta da sua expansão nos últimos anos.

A Agrosatélite foi a empresa contratada para essa função e está realizando um segundo levantamento da área de cana irrigada no país, com previsão de publicação completa em junho. A primeira pesquisa, divulgada em 2017, mapeou a irrigação na safra 2015/16 no Centro-Sul do país.

O objetivo do estudo atual é estender a pesquisa para a região Nordeste e obter dados separados de área irrigada e fertirrigada, inclusive por cidade. Afinal, além da escassez de informações, Fontenelle destaca que há um erro de origem nos dados que caracterizam a irrigação de cana no Brasil.

“Em números censitários, como são os produzidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), não se contempla a diferença da cana em relação às demais culturas, o processo de fertirrigação. A área sempre foi somada”, esclarece. Portanto, apesar do volume total de irrigação ser elevado, ele não necessariamente reflete uma quantia grande de água de mananciais utilizada por hectare plantado.

O primeiro estudo visou reduzir essas confusões separando as categorias de irrigação entre “irrigação plena”, “irrigação com déficit” e “irrigação de salvamento”. A primeira supre 100% da deficiência hídrica da cana em período seco, aplicando lâminas de água mais significativas, entre 300 e 1.000 mm ao ano. Já a irrigação com déficit, que supre cerca de 50% da deficiência hídrica em período seco, utiliza lâminas entre 200 e 300 mm ao ano. Por fim, a irrigação de salvamento, que reduz parcialmente o estresse hídrico em períodos secos, aplica a vinhaça diluída em água em volumes de 20 a 80 mm ao ano.

Em busca de apoio do setor

Para o segundo estudo, conforme Fontenelle, os esforços incluem mais idas a campo, conversas com o setor e envio de questionários aos produtores por intermédio da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

No início de dezembro de 2018, dados preliminares foram apresentados para a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Açúcar e Álcool (CSAA). De acordo com o CEO da Agrosatélite, Bernardo Rudorff, o intuito é provocar o setor: “Hoje, o resultado é deste jeito. Se vocês não estão gostando muito, o que podemos fazer para mudar isso?”.

Ele também explica que a Unica deseja divulgar a sustentabilidade da cana para o exterior, mostrando que ela pode ser produzida sem irrigação. Na câmara setorial, onde a apresentação foi feita, o pesquisador identificou que nem todas as entidades presentes concordam sobre a necessidade de irrigação do canavial. “Se você vai para regiões mais secas, principalmente o Nordeste, não tem como produzir sem irrigação; a produtividade é muito baixa sem irrigar”, esclarece.

De acordo com Rudorff, em entrevista ao novaCana, a reunião na CSAA foi para buscar apoio, para que as entidades forneçam ou ajudem na obtenção de informações sobre a fertirrigação. “Pela metodologia de imagem de satélite que usamos, fica difícil diferenciar", explica. O pesquisador diz que isso só não ocorre em regiões de grande deficiência hídrica, em que é sabido que se usa água de mananciais – nestes casos, se o canavial está bem desenvolvido, ele está sendo irrigado.

Entretanto, o profissional explica que os mecanismos de mapeamento via satélite não conseguem diferenciar as duas técnicas – irrigação e fertirrigação – necessitando, portanto, de informações cedidas pelos próprios produtores.

Com o objetivo de estimular a obtenção destas informações, a ANA participa de câmaras setoriais, envia ofícios e busca estabelecer um contato mais próximo com os produtores para mostrar que o estudo é para fins de planejamento de gestão de recursos hídricos, fator que influencia no planejamento do próprio setor.

“Identificamos melhorias a serem feitas [em relação ao primeiro estudo], principalmente com uma participação maior dos produtores que apenas olharam para o número da área irrigada estimada pelo estudo, não viram os detalhes e questionaram o tamanho dessa área [dizendo ser menor]”, relata Rudorff.

Já Fontenelle, da ANA, pondera que as múltiplas interpretações também se dão por diferenças na terminologia usada. Em algumas discussões, a fertirrigação é tratada como uma técnica à parte, já que não há um dimensionamento de equipamentos para irrigar de fato.

Para a ANA, a colaboração é necessária para o planejamento dos recursos hídricos e a realização das outorgas das águas de forma justa. “Se já tem outorga para diversas empresas de energia, por exemplo, e a água esgotou, caso queira irrigar uma área de cana não terá mais o recurso”, alerta Rudorff, que completa: “Se o setor se fecha e não apresenta a demanda, fica mais complicado. Eles acham que é para fiscalização”.

Fontenelle confirma esta desconfiança. “Há um certo receio em fornecer informações internas e muitas delas são estratégicas para o negócio. Mas não fazemos indiretamente nenhuma fiscalização neste sentido”, explica.

Caminho para investimentos conscientes

Segundo a ANA, não é competência da agência levantar a bandeira pró ou contra a irrigação da cana-de-açúcar. Inclusive, a entidade não identifica um uso irresponsável da água na sua produção, já que é uma cultura que consome menos água por hectare no comparativo com outras. No mapeamento do Atlas da Irrigação, apesar da área de cana ocupar cerca de 29,5% do total plantado no país, o uso da água é de 9,4%.

Também de acordo com o Atlas, apesar do Brasil estar entre os países com maior área irrigada do mundo, em 2017, o país utilizou apenas 20% deste potencial. Por outro lado, há regiões em que a intensificação da irrigação preocupa devido à possibilidade de disputa pela água – não necessariamente por conta da produção de cana.

“O nosso papel principal é que o setor continue crescendo com sustentabilidade hídrica, expandindo em áreas em que há água”, explica Fontenelle. Com isso, a agência não necessariamente se preocupa com a quantidade de água despendida, mas sim se o volume usado é bem empregado e resulta em canaviais mais produtivos.

A ideia é que o setor saiba quais são as áreas em que há recursos hídricos, onde vale a pena investir, e as que já estão estressadas e o investimento não é viável. Os motivos podem ser puramente falta do recurso, existência de abastecimento público ou até outras culturas irrigadas.

Além disso, a irrigação requer altos investimentos. Fontenelle aponta que o produtor irrigante deve usar alta tecnologia, realizando um bom manejo, e possuir assistência técnica. Mas há produtores que fazem apenas a irrigação para suplementar uma parte da deficiência hídrica enquanto outros investem em irrigação por gotejamento, por exemplo.

Desta forma, mesmo com a carência de informações oficiais, as empresas que querem investir já sabem que precisam observar esse critério. “A nossa impressão é que o setor enxerga a irrigação e fertirrigação da cana como um potencial de expansão da atividade”, relata Fontenelle. Assim, ele acredita que é importante que exista cada vez mais informações sobre a irrigação da cultura, pois ela segue expandindo.

Apesar da cana-de-açúcar já ser muito bem estabelecida em regiões onde a chuva supre a sua demanda hídrica, existem áreas de expansão nos últimos cinco anos que não são muito propícias sem algum tipo de irrigação.

“Você aumenta o risco climático quando expande, por exemplo, para o Triângulo Mineiro e o sudoeste goiano, que são áreas onde as chuvas são menos adequadas”, explica Fontenelle, que acrescenta: “Do ponto de vista estratégico, a irrigação da cana é vista como algo importante para perspectivas futuras do setor, já que permite a expansão em áreas que não seriam adequadas. Áreas mais adequadas e, principalmente, mais perto das usinas, são vistas como potencial de crescimento para reduzir o risco e aumentar a produtividade”.

Outro ponto é que o setor muitas vezes fica travado pela carência de incentivos econômicos que deixariam os investidores mais seguros. “Passamos por anos em que esse investimento mais arriscado ou que exige um montante maior ficou parado. Mas a perspectiva é que, com a retomada do crescimento do setor nos últimos dois anos, o investimento em irrigação da cana seja olhado novamente com potencial interessante”, prevê Fontenelle.

Irrigar ou não irrigar?

A resposta para se a cana deve ser mais ou menos irrigada é: depende. Segundo Rudorff, a irrigação no Brasil varia muito de acordo com onde o produtor está – olhar para a deficiência hídrica é crucial nesse aspecto. “O Centro-Sul vai bem sem a irrigação”, esclarece.

Conforme o profissional, a irrigação com água de mananciais é muito mais efetiva para aumento de produtividade do que a fertirrigação, pois o volume de água é muito baixo para impactar consideravelmente o canavial. Para ele, a fertirrigação é o fornecimento de nutrientes, enquanto a irrigação, é de água.

Apesar de benéfica, a irrigação é um investimento alto. A prática é normalmente adotada em locais onde não se produz sem a técnica, pois a produtividade é muito baixa. “Em áreas do norte de Minas de Gerais, como Paracatu e Jaíba, as lâminas são altamente significativas, de 300 milímetros para cima, e lá realmente precisa”, exemplifica.

Mas Rudorff destaca que a irrigação precisa ser acompanhada de um pacote tecnológico para a cana chegar a um rendimento de, pelo menos, 120 t/ha, a fim de compensar o gasto com a técnica. Existem, ainda, usinas com infraestrutura para fazer o manejo da água, em que a área é 100% irrigada, como a Agrovale, em Juazeiro (BA).

Além disso, em condições de menor deficiência hídrica, existem variabilidades em que é possível equalizar a água ao longo dos anos, tornando a cana mais longeva e necessitando de renovação após somente dez anos; não quatro ou cinco, como ocorre normalmente. Em casos de maior deficiência hídrica, os riscos de baixa produtividade são muito mais elevados e tornam a cultura não compensatória, pois ela não consegue atender à demanda da usina.

O dilema da fertirrigação

“Ouvindo as pessoas do setor, existem as mais diversas opiniões sobre a fertirrigação”, pondera Rudorff. Para ele, a fertirrigação é um “mal necessário” e um “fim útil”. Afinal, a vinhaça é gerada em quantia considerável – para cada litro de etanol produzido, são gerados 10 litros – e pode causar danos ambientais se descartada de forma errada. No ano passado, a usina Santa Luiza, do grupo Atvos, foi acusada de causar desequilíbrio ambiental ao despejar vinhaça no meio ambiente.

Por conta destas características, há quem veja a fertirrigação como um manejo. “É benéfico para a produção por causa do reaproveitamento do potássio e do uso de outros nutrientes”, relata.

Além disso, ele explica que a vinhaça é aplicada em períodos secos, o que é favorável em termos de fertilização, mas pouco para a irrigação: “As lâminas são muito pequenas em relação à demanda de água da cana, o que é pouco relevante em termos de fornecimento de água e aumento de produtividade”.

Por exemplo, segundo o estudo anterior feito pela Agrosatélite, em 2016/17 foram produzidos cerca de 280 bilhões de litros de vinhaça – quantia suficiente para irrigar um milhão de hectares com lâminas bem pequenas, de 28 milímetros. Por outro lado, a vinhaça é usualmente diluída em água para fertirrigar os canaviais, o que também contribui para a redução do déficit hídrico das soqueiras após o corte.

Por fim, o profissional ainda destaca que o setor alega que essa água já está na conta da indústria e já foi paga, pois se trata de reúso, diferente do processo de irrigação que requer mais investimento – algo que, na maioria das vezes, a usina não dispõe.

Gabrielle Rumor Koster – novaCana.com