Cana: Meio ambiente

[Opinião] A família Balbo e a agenda ESG


O Estado de S. Paulo - 18 jul 2022 - 09:50

Por José Renato Nalini*

No ano de 2005, quando teve início a experiência da Câmara Ambiental no Tribunal de Justiça de São Paulo, logo se tomou conhecimento de que as usinas Santo Antonio e São Francisco desenvolviam projeto de plantio de cana-de-açúcar que dispensava a queima da palha. Tivemos contato com Clésio Balbo, por intermédio de meu amigo e colega Ricardo Braga Montserrat, juiz de Ribeirão Preto e chegamos a visitar uma das usinas em Sertãozinho (SP).

Vimos que os Balbo constituem uma família singular. Destacam-se como empresários conscientes de sua responsabilidade perante o futuro. Não foi surpresa ler a substanciosa entrevista que Leontino, um dos irmãos, concedeu a Alexa Salomão na Folha de São Paulo de 17 de maio. Mais do que o seu ceticismo em relação à agenda ESG, na qual minha ingenuidade continua a acreditar, vale focar uma questão seríssima: os efeitos colaterais da “revolução verde”.

Os quatro vetores dela: uso de defensivo e fertilizantes químicos, alto grau de mecanização, melhoramento genético. Para Leontino Balbo, o mais importante na agricultura é o solo. Sistemas tradicionais mantiveram por milênios a bioestrutura do solo. “Na terra existem bactérias, alguns líquens e pequenos insetos chamados colêmbolos. Eles produzem uma cola proteica, que une as partículas do solo. As principais são saibro, argila e areia”, disse ele.

Ocorre que os insumos da “revolução verde” mataram as bactérias e insetos e esterilizaram o solo. A chuva não encontra mais espaço poroso e a água causa erosão. Tanto que, nos Estados Unidos, o Ministério do Interior interdita fazendas cujo solo está pulverizado.

“Tem mais. A maioria das plantas tira o oxigênio da raiz, não das folhas. As mesmas empresas que venderam o pacote agora oferecem planta transgênica para resolver o problema. Atuam na consequência”, segue o executivo.

A lavoura demanda cada vez mais recursos. É o que faz com que os alimentos encareçam. Além disso, os adubos ácidos prejudicam o solo.

Para fabricar ureia e cloreto de potássio, são necessárias toneladas de combustíveis fósseis, utilizados para retirar das minas, com transporte por caminhões e navios antes de chegar às fazendas. “Enfim, pagamos em dólar para emitir mais gás carbônico e para causar desequilíbrio nas plantas”. Os adubos químicos desequilibram fisiologicamente as plantas, que transpiram substância geradora de duas a três vezes mais pragas e doenças, em cotejo com o uso de adubos naturais.

O moto contínuo faz com que se necessite cada vez mais de herbicidas e inseticidas que acidificam o solo. No Centro-Oeste brasileiro, o emprego de ureia e cloreto de potássio é tão intenso, que o solo precisa de três vezes mais calcário. Nossas jazidas vão se exaurir rapidamente.

Por isso é que Leontino Balbo não acredita no ESG. “O greenwashing está institucionalizado, no Brasil e no mundo, dentro de empresas e governos”. Não há incentivo ao produtor sustentável. Native e Natura sobrevivem à custa de sacrifícios enquanto se celebra a abertura de mais um poço da Petrobras. Mais gás venenoso causador do efeito-estufa. Penaliza o consumidor, o empresário ecológico e as futuras gerações. Estas é que sofrerão com secas, incêndios, geadas e inundações.

As instituições financeiras visam apenas o lucro. Interessam-se pela Taxa Interna de Retorno (TIR). Não se indaga qual é a TIR da água, da biodiversidade e do solo.

No setor de sua atividade, Leontino Balbo afirma que o Brasil vai consumir mais de dez milhões de toneladas de açúcar de cana. Mais ou menos quatro milhões destinados ao consumo direto e outros seis milhões vão para uso industrial. O açúcar orgânico vende quatro mil toneladas, ou 0,066% do total. As grandes marcas de alimentos no Brasil não consomem açúcar orgânico. Não se interessam por ele, a despeito de sua sustentabilidade.

O mercado global de açúcar convencional é de 190 milhões de toneladas e o de açúcar orgânico é de 600 mil toneladas, ou 0,4% apenas. Durante uma viagem a Bruxelas, Leontino Balbo, depois de sua palestra, contou o que suas empresas fazem, falou da regeneração do solo, da biodiversidade, da fauna preservada. Sugeriu uma redução do imposto de importação para estimular quem se preocupa com o porvir. A resposta foi “o tema é muito delicado”.

Uma tonelada de açúcar orgânico exportada para a Europa custa US$ 600 e paga US$ 540 de imposto para entrar no Velho Continente. Para produzir uma tonelada de açúcar, emite-se 120 kg de gás de efeito estufa. A viagem e entrega emitem mais 350 kg. Só que no seu crescimento, a cana extrai 1.500 kg por tonelada. “Somos um ralo de carbono”. Já a beterraba emite 880 kg por tonelada e não retira nada, porque lá se queima óleo.

O testemunho de Leontino Balbo é valioso e deveria ser considerado pelos candidatos à presidência. Sustentabilidade é a legítima-defesa da humanidade e a agenda ESG deveria ser observada por todos. Sem conversão ecológica, não haverá salvação para a humanidade.

* José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras (2021/22)


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