Cana: Meio ambiente

As estratégias para descarbonizar a produção de cana e torná-la mais competitiva


EPBR - 26 mar 2021 - 08:06

A redução da pegada de carbono da produção de bioenergia da cana-de-açúcar é parte de uma estratégia para dar competitividade ao produto e torná-lo mais atrativo, diante da força da eletrificação como alternativa de transição desse mercado.

Neste sentido, entram em cena trabalhos para mudança de uso da terra, práticas de manejo conservacionistas e adoção de tecnologias de captura e armazenamento de carbono.

Um estudo desenvolvido na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) mostra que a conversão de pastagens degradadas em plantações de cana auxilia na recuperação de solos e aumenta a captura de carbono.

“Quando se faz a conversão de uma pastagem para o cultivo da cana, há uma captura de uma a duas toneladas de carbono por hectare por ano a mais. Além disso, a conversão reverte o processo de degradação, permitindo a ciclagem de nutrientes no solo”, explica o coordenador da pesquisa, Maurício Roberto Cherubin.

Atualmente, o Brasil conta com mais de 170 milhões de hectares de pastagens utilizadas para pecuária extensiva, com menos de um animal por hectare. Calcula-se que cerca de 25% dessa área apresenta degradação severa.

“Se nós considerarmos a conversão de apenas 1% da área de pastagem do país, o incremento na produção de cana-de-açúcar no Brasil seria de 20%”, conta Cherubin.

Para o pesquisador, ainda há um certo descrédito quando o assunto é sustentabilidade no setor sucroenergético e esse estudo vem mostrar com base científica que a produção de bioenergia a partir de cana-de-açúcar pode ser sustentável.

“A comunidade internacional tem uma série de ressalvas à mudança de uso da terra e expansão do aumento área de cultivo de cana-de-açúcar, que muitas vezes se associa ao desmatamento. E isso não é verdade”, afirma.

Os números mostram que, nas últimas décadas, apenas 0,6% da expansão de cana se deu em áreas de vegetação nativa. Enquanto 70% ocorreu em áreas de pastagem, e o restante em conversão de outras culturas.

Uma preocupação constante dos ambientalistas, contudo, é a degradação indireta – o risco de culturas com critérios de sustentabilidade empurrarem atividades que ameaçam as florestas nativas para novas áreas.

Atualmente, 92% da produção da cana está na região Centro-Sul, abrangendo cerca de 9 milhões de hectares.

Cherubin explica que, de acordo com outros estudos preliminares, há 20 milhões de hectares de áreas de pastagem aptas para receber cultivo, considerando condições climáticas e de solo, e que não incluem áreas de preservação natural.

Redução de CO2 no manejo

O artigo também se dedicou a debater a melhora das práticas de manejo nos últimos anos. A principal mudança observada foi a eliminação da queima da palha pré-colheita.

Hoje, 97% das áreas são colhidas sem queima, o que também evita a emissão de CO2 e a esterilização da camada superficial do solo.

“Atualmente, utiliza-se parte dessa palha para produzir bioenergia, de etanol de segunda geração, e parte dela é mantida no solo para captura de carbono e manutenção de nutrientes”, afirma Cherubin.

Bioenergia com captura e armazenamento de carbono

Há também estudos para aplicação de tecnologias de captura e armazenamento de carbono, conhecida como CCS (Carbon Capture and Storage).

Considerada já há algum tempo principalmente para as empresas de energia fóssil, como uma forma de reduzir a emissão de CO2 a partir dos combustíveis de petróleo, a tecnologia poderia ser aplicada também à produção de bioenergia (BECCS).

“A lógica é separar o CO2 que é produzido pela combustão de um combustível e direcionar para alguma aplicação ou enterrá-lo, por exemplo, em algum reservatório”, explica Joaquim Seabra, doutor em planejamento de sistemas energéticos e professor da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp.

A ideia geral é retornar o carbono para onde ele estava estocado, embaixo da terra, e assim evitar que ele seja lançado na atmosfera.

Para Seabra, em um sistema que usa biomassa, a vantagem estratégica está no fato de que, para crescer, a biomassa usa o carbono presente na atmosfera para fazer fotossíntese.

“Nesse caso eu estou efetivamente retirando CO2 da atmosfera. Então, do ponto de vista climático, é uma grande contribuição”, destaca.

Outra vantagem da biomassa seria a facilidade de separação do CO2 no processo de fermentação.

“[Na produção de etanol] eu fermento o caldo da cana e, no processo de fermentação, eu tenho o CO2 como um coproduto. Ele sai junto com o etanol e praticamente puro. Então, não exige nenhum tipo de investimento sofisticado para separar e concentrar o CO2. Ele já está prontinho e pode ser direcionado para uma aplicação industrial ou ser direcionado de novo para debaixo da terra”, detalha o professor.

Embora o processo de captura de carbono no processo de fermentação seja menos custoso que a captura na combustão, ambos os processos ainda esbarram em custos financeiros e energéticos, e dependerão de incentivos para ganhar escala.

“Internacionalmente, a gente já tem iniciativas acontecendo. Mas para que isso ganhe escala é preciso que haja um comprometimento sério com as metas de mitigação de emissão. Muito possivelmente, nós iremos precisar da remuneração adequada do CO2”.

No Brasil, a Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio) já prevê um bônus de até 20% sobre a Nota de Eficiência Energético-Ambiental quando houver comprovação de emissão negativa de gases de efeito estufa no ciclo de vida do biocombustível.

Na avaliação de Seabra, isso favorece economicamente a adoção da tecnologia e seria uma das formas de viabilizar a captura, mas ainda serão necessárias outras estratégias, como a valorização do mercado de carbono, por exemplo.

Nayara Machado e Gabriel Chiappini


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