Colheita

Mecanização avança, mas cana perde produtividade


Valor Econômico - 03 abr 2013 - 08:35
Operador habilitado, Aparecido Silva resiste a trocar o facão pela colheitadeira
A tradicional figura do cortador de cana, sujo e sofrido, está praticamente extinta no Centro-Sul. A colheita recém-iniciada na região será pelo menos 85% mecanizada, em uma área de 7 milhões de hectares. No início da década passada, a colheita manual chegou a demandar 750 mil pessoas em todo o país, sendo 500 mil no Centro-Sul, estima o professor do Departamento de Economia Rural da Unesp de Jaboticabal, José Giacomo Baccarin. Na safra passada, o número de cortadores empregados era de apenas 189 mil pessoas. No Nordeste, que responde por 10% da produção brasileira de cana, a mecanização ainda é ínfima e demanda 330 mil cortadores.

Ao contrário do que se esperava, o processo de substituição do homem pela máquina - que coincidiu com um momento de crescimento do emprego na economia brasileira - não provocou até agora nenhuma catástrofe social. A maior parte da mão de obra liberada pelo setor, não qualificada, foi absorvida pela construção civil, observa Baccarin. A União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), que representa as usinas do Centro-Sul, estima que 22,7 mil dos 80 mil cortadores que suas 190 associadas empregavam em 2007 foram qualificados para novas tarefas, principalmente na própria indústria da cana, como operadores de máquinas, mecânicos etc.

Nos últimos cinco anos, as usinas e fornecedores de cana investiram R$ 14 bilhões para mecanizar a colheita. Essa modernização, porém, trouxe um problema inesperado - a redução da produtividade dos canaviais. João Guilherme Iglézias, diretor da Agroterenas, uma das maiores fornecedoras de cana para usinas, diz que a produtividade nos últimos três a quatro anos caiu de 85 toneladas por hectare para 70 toneladas, sendo 8 a 10 toneladas em razão da mecanização - a diferença foi efeito do clima. "Tivemos que reescrever os manuais de manejo". Só agora surgem variedades mais adaptadas às máquinas, como por exemplo as que "ficam mais em pé" e brotam melhor sob a palha. O setor testa ainda técnicas para reduzir a compactação do solo provocada pelas máquinas e reduzir as impurezas trazidas pela colheitadeira para dentro da usina.

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Com máquinas, diminui rendimento de canaviais

Uma colheitadeira de cana substitui os braços de 80 a 100 trabalhadores, dependendo da produtividade do cortador. Nos últimos cinco anos, as usinas e fornecedores de cana investiram cerca de R$ 14 bilhões para alavancar a substituição do homem pela máquina, mas, até agora, o resultado não agradou.

A razão é que a mecanização mudou o patamar de produtividade dos canaviais, provocando um declínio sistêmico de rendimento. Produtores com décadas de experiência no setor estão tendo que "reaprender" o manejo da cultura. E, quatro anos depois, o setor está apenas no meio de uma reação, afirma João Guilherme Iglézias, diretor de operações agrícolas da Agroterenas.

A empresa é uma sexagenária em produção cana-de-açúcar e uma das maiores fornecedores da matéria-prima para usinas do país, com 70 mil hectares cultivados. Iglézias conta que a produtividade nos últimos três a quatro anos caiu de 85 toneladas por hectare para 70, sendo que de 8 a 10 toneladas da perda é diretamente atribuída à mecanização. O restante foi efeito do clima. "Tivemos que esquecer tudo o que sabíamos sobre cana e reescrever os manuais de manejo".

Só agora, detalha o executivo, começam a surgir variedades de cana mais adaptadas às máquinas - plantas que "ficam mais em pé" e brotam melhor sob a palha, por exemplo. O setor testa ainda técnicas para mitigar a compactação do solo e reduzir o volume de impurezas trazido pela colheitadeira para dentro da usina. A falta de mão de obra qualificada para operar as máquinas também é um gargalo.

No ciclo 2013/14, que acabou de começar, a empresa espera produzir 75 toneladas por hectare, ainda distante das 85 do passado. Iglézias espera retomar os níveis históricos em apenas três anos.

Mas a resistência em "rasgar a cartilha" e começar de novo ainda é grande entre os fornecedores de menor porte, também descapitalizados para investir nas máquinas. O produtor Luiz Carlos Tasso Júnior é diretor da Canaoeste, uma associação que representa 2,8 mil fornecedores da matéria-prima espalhados em 80 municípios, entre eles os tradicionais Sertãozinho e Ribeirão Preto (SP). Ele conta que a concentração de açúcar na cana (o chamado ATR) caiu nos últimos anos na região, conhecida por reunir as melhores condições de clima e solo para a cultura. Historicamente, o desempenho médio do ATR na região era de 145 quilos por tonelada, com picos que já superaram os 160 quilos. "Na safra 2012/13, a concentração de ATR caiu a 138 quilos, número que deve se repetir em 2013/14. Não acredito que será possível retomar os níveis históricos, a não ser que haja um avanço significativo na genética da planta", afirma Tasso.

Fabiana Batista
De Araçatuba, Valparaíso, Paraguaçu Paulista e Sertãozinho (SP)