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Açúcar: Mercado

Os sinais distorcidos que o mercado envia para as usinas sucroalcooleiras


Agroanalysis - 17 out 2013 - 14:52

A safra 2013/2014 do Centro-Sul iniciou-se cercada de dúvidas em relação ao mix de produção entre açúcar e etanol das usinas. Desde 2010, não se via os preços do açúcar e do etanol tão próximos. Em parte, isso se deve à queda dos preços internacionais do açúcar em resposta ao desbalanceamento entre a oferta e a demanda mundiais. Porém, também é necessário reconhecer a contribuição da melhora dos preços do etanol nas usinas, possibilitada pelo aumento do preço da gasolina em janeiro deste ano e pela desoneração do PIS/COFINS em vigor desde o último mês de maio.

Recentemente, a desvalorização do real e a relativa recuperação dos preços do açúcar no mercado internacional colocaram novamente o açúcar como o produto mais rentável dentro das possibilidades para o uso da sacarose da cana. Porém, dentro do processo decisório das usinas sobre qual o foco de sua produção, não é levada em consideração somente a paridade de preços entre açúcar e etanol, mas também quais os compromissos de venda e financiamento:

• No caso de se optar por mudar o foco da produção do açúcar para o etanol, há que se considerar alguns custos, como o custo de washout (custo para deixar de entregar o volume de um contrato, geralmente de açúcar para exportação), o qual varia de acordo com as partes envolvidas e a situação do mercado do açúcar no momento. Além disso, alguns bancos exigem contratos de exportação como contrapartida para financiamentos com base em moeda estrangeira.

• Já, no caso de se alterar o mix de mais "alcooleiro" para mais "açucareiro", há que se pensar nos possíveis compromissos de entrega e estocagem de etanol (como, por exemplo, a resolução 67/2011 da ANP) ou, até mesmo, a necessidade de caixa da usina, uma vez que o mercado de açúcar tende a ter uma liquidez menor do que a do etanol.

• Ainda há que se considerar dificuldades e limites técnicos, sendo que é de se esperar que, na época de maior moagem e melhor qualidade da cana, obtenha-se uma maior produção de açúcar do que durante a fase inicial e final da safra, quando é mais simples produzir etanol.

Os dados quinzenais de produção do Centrol-Sul divulgados pela UNICA indicam que o mix está mais "alcooleiro" do que na safra 2012/13. Simulações indicam que, se as usinas continuarem seguindo o mesmo padrão apresentado até o mês de agosto, o mix final da safra ficará entre 44,5% e 45,0% para o açúcar, enquanto, na safra passada, atingiu os 49,5%. Porém, caso as usinas optem por voltar suas produções fortemente para o açúcar, como observado no ano passado, o mix pode ir para próximo de 48,0%. Tal diferença terá um impacto muito importante no mercado de açúcar e etanol, já que a variação de um ponto percentual no mix para mais ou para menos altera a produção de açúcar em aproximadamente 770 mil toneladas e a de etanol, em aproximadamente 475 mil m³ (utilizando como base a previsão de safra da Unica divulgada em abril, de 589,6 milhões de toneladas de moagem e 136,7 kg/t de cana de ATR).

Os preços do etanol e do açúcar devem refletir, de certa maneira, a maior ou menor necessidade da população em relação a um determinado produto, porém se pode questionar a valorização dos preços do açúcar durante o mês de agosto e início de setembro, uma vez que a safra mundial 2013/14 inicia-se oficialmente em outubro, sendo esperado o quarto superávit consecutivo de açúcar. Já os preços do etanol deveriam refletir o contínuo crescimento da frota de veículos leves no Brasil e o consequente aumento do consumo de combustíveis na casa de 4% a.a., mesmo quando a economia como um todo não deve crescer mais de 2,5% em 2013.

Isso tudo, aliado à desvalorização do câmbio, está, de certa maneira, enviando sinais distorcidos para as usinas, indicando que o mundo está precisando de mais açúcar, quando, na verdade, tem seus armazéns cheios. Sendo assim, as próximas divulgações da produção quinzenal pela UNICA poderão trazer volatilidade aos preços do açúcar e do etanol, e será interessante acompanhar a resposta das usinas a essas mudanças relativas de rentabilidade dos dois produtos, sendo que, até o final de agosto, o uso da flexibilidade das usinas a favor da melhor remuneração não foi completamente explorado.

Paridade entre preço do etanol e do açúcar?
Geralmente, fala-se em paridade do preço do etanol e do açúcar com base no estado de São Paulo. Porém, nem sempre essa relação é completamente verdadeira. Alguns incentivos tributários, como aqueles que isentam parcialmente as usinas instaladas em Goiás, Mato Grosso do Sul e Paraná do pagamento do ICMS incidente sobre o etanol, afetam esta paridade, de maneira a deixar a produção de etanol mais atrativa naqueles estados quando se compara às usinas de São Paulo.

Manuela M. Czinar é Mestre em Agroenergia pela FGV-SP


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