Açúcar: Mercado

Safra desafiadora de cana deve provocar déficit global de açúcar


NovaCana - 20 mai 2014 - 15:56 - Última atualização em: 29 nov -1 - 20:53

O produtor de cana Jose Rodolfo Penatti vê da janela da sua casa sinais de que o mundo está caminhando ao seu primeiro déficit de produção de açúcar em quatro anos.

Nos 150 acres que sua família cultiva no estado de São Paulo desde a década de 1950, os caules são metade do tamanho normal da cana, de mais de três metros, e estão mais marrons que verdes depois que a seca de janeiro até março ressecou a região Centro-Sul. "É o pior cenário que eu já vi", disse Penatti, 54, que estima perder 20% da sua safra.

A menor safra no Brasil deixará a produção mundial 900 mil metros cúbicos abaixo da demanda de doze meses, que terminará no dia 30 de setembro, e o escassez pode ser maior no próximo ano, disse Bruno Lima, consultor sênior de gestão de riscos da FCStone do Brasil.

A Copersucar prevê que os contratos futuros de açúcar bruto subirão 13% por ano, para 20 centavos de dólar a libra-peso.  Uma melhora prolongada pode aumentar os custos para compradores, incluindo a Nestlé, ao mesmo tempo em que revigora o lucro para as refinarias, depois de quatro anos de excedentes que forçaram dezenas de usinas a fechar.

"O déficit pegou o mercado de surpresa", informou Peter Sorrentino, que ajuda a gerenciar cerca de U$3,8 bilhões na Huntington Asset Advisors em Cincinnati, em entrevista por telefone ontem. "Não precisa de muita variação no clima para haver mudanças significativas na projeção das safras. O mercado tem estado em baixa por muito tempo, investidores e indústria também estão reagindo à perda potencial em capacidade".

Retomada nos preços

O açúcar bruto avançou 14% desde o final de janeiro até ontem, para 17,76 centavos de dólar, na ICE Futures U.S. hoje em Nova York, superando o ganho de 5,2 por cento do índice de 24 commodities Standard Poor's GSCI Spot. O índice de ações MSCI All-Country World subiu 5,9 por cento ao longo do mesmo período, enquanto o índice Bloomberg Treasury Bond teve um incremento de 1,3 por cento.

O Brasil, que respondeu por 28% da produção global no ano passado e por 57% das exportações, teve seu verão mais seco em pelo menos sete décadas na região Centro-Sul, o que danificou culturas tropicais como cana-de-açúcar, café e laranja. Os futuros do café arábica subiram 66% neste ano, tocando em abril a maior alta em 26 meses, e os futuros do suco de laranja subiram 12 por cento.

De dezembro até fevereiro, o nível de chuva em São Paulo foi de apenas 25% do normal, limitando o crescimento das plantas e prejudicando o rendimento das plantações, disse Drew Lerner, presidente da empresa de meteorologia World Weather Inc, de Overland Park, no Kansas.

A produção de cana no Centro-Sul, que correspondente a 90% da produção total do país, pode cair até 5,2%, para 565 milhões de toneladas, de acordo com Julio Maria Borges, chefe da consultoria paulista JOB Economia & Planejamento.

Déficit estendido

A demanda global irá atingir um recorde de 167,6 milhões de toneladas no ano, que se encerra em 30 de setembro, estendendo duas décadas de altas que viram o consumo crescer 48%, como mostram dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, a USDA, na sigla em inglês. Na safra de 2014/2015 que começa em 1o de outubro, a demanda pode exceder as colheitas em até 3 milhões de toneladas, de acordo com a Copersucar.

Os produtores do Brasil, do México e da China viram uma redução nos incentivos para aumento da produção depois que os preços caíram até 59 por cento, em janeiro, em relação à maior alta em 30 anos, registrada em fevereiro de 2011, e após uma subida dos custos de refino, segundo Jonathan Kingsman, fundador da Kingsman SA, uma unidade da Platts, da McGraw Hill Financial Inc. Desde 2010, pelo menos 44 usinas fecharam, disse Norberto Zaiet, vice-presidente do Banco Pine, de São Paulo.

Excedente de açúcar

Estoques amplos podem colocar os preços em espera. Mesmo com uma demanda recorde, a estocagem no final de setembro irá chegar a 43,38 milhões de toneladas, o maior volume da história, de acordo com a USDA. Compradores com açúcar suficiente para atender suas necessidades poderão diminuir as compras.

A oferta está aumentando fora do Brasil. Tailândia, o segundo maior exportador, viu sua produção saltar 13% na safra que começou em 25 de novembro, disse em 7 de maio o Escritório do Conselho de Cana e Açúcar do país.

"Ainda temos estoques amplos", disse Ivan Melo Filho, diretor comercial da Raízen, numa entrevista em Nova York no dia 13 de maio. "Isso poderia limitar as altas".

Gestores financeiros estão ficando mais teimosos, com uma posição líquida de longo prazo, em 13 de maio, de 136.016 futuros e opções de contratos, a maior desde 19 de novembro, segundo dados da Commodity Futures Trading Commission. Recentemente, em 18 de fevereiro, fundos de garantia e outros grandes especuladores estiveram em baixa, com uma posição líquida de 26.489 contratos de curto prazo.

"Com o aumento das expectativas por um padrão climático como o El Ninõ, que está se desenvolvendo, os riscos para as nossas projeções de médio prazo mudam completamente", disseram analistas do grupo Goldman Sachs Inc, liderado por Jeffrey Cyrrie, em um relatório de 13 de maio.

Etanol de cana

A oferta pode ficar ainda mais firme se a cana for usada para fazer combustível, o que oferece um melhor retorno com o aumento da demanda interna e dos preços. Cerca de 58% da safra brasileira será convertida em etanol, de acordo com a Raízen, uma joint venture entre a Shell e a Cosan. Esse poderia ser o maior percentual em cinco anos, de acordo com a Unica.

Em seu campo em Piracicaba, que fica a cerca de 160 quilômetros ao noroeste de São Paulo, Penatti disse que terá sorte se colher 10 mil toneladas de cana da safra que começou neste mês, em comparação com as 12.500 toneladas do ano passado.

"As perdas serão severas", disse ele.

Fonte: Bloomberg
Tradução e adaptação: novaCana.com
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