Açúcar: Mercado

Fundos de hedge fazem grandes apostas no açúcar


Wall Street Journal - 11 nov 2015 - 08:04

De repente, os investidores estão novamente vendo uma boa oportunidade no açúcar.

Os preços dos contratos futuros de açúcar demerara subiram 39% desde 24 de agosto, a maior alta registrada desde 2011 e um salto raro em meio ao colapso do mercado de commodities. O volume de negócios com futuros bateu um recorde em setembro, e as apostas otimistas dos gestores de recursos neste mês atingiram seu maior nível em dois anos, segundo dados da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos Estados Unidos, (CFTC, na sigla em inglês).

O Tudor Investment Corp. e o D.E. Shaw & Co. estão entre fundos de hedge que vêm injetando dinheiro no mercado de açúcar, depois que Wall Street praticamente abandonou a commodity em meio a um declínio de preços de vários anos.

Os ganhos estão sendo impulsionados, em parte, pela melhora nos fundamentos do mercado de açúcar. Este ano deve ser o primeiro dos últimos cinco em que a produção anual ficará abaixo da demanda em todo o mundo, ajudando a reduzir o excedente de açúcar que, em agosto, derrubou os preços para uma mínima de sete anos. Outro fator que está ajudando na mudança é uma melhora nos dados econômicos de mercados emergentes, o que tem ajudado a produzir uma modesta recuperação em relação ao dólar das moedas do Brasil e da Índia, os principais produtores de açúcar do mundo.

Mas as oscilações de preços também são uma prova da tendência dos investidores, em tempos de dinheiro fácil e baixos retornos, de migrar em bando para mercados vistos como uma boa oportunidade de fazer operações rentáveis. Os preços dos futuros subiram até 12% acima dos praticados no início da semana passada nas negociações reais com o açúcar físico, de acordo com a Platts — sinal de que os futuros estão muito elevados, dizem operadores.

“Observamos uma desconexão total com o mercado físico”, diz David Martin, membro da diretoria do fundo de hedge Martin Fund Management, que administra US$ 75 milhões, e operador ativo no mercado de açúcar. Ele considera a alta atual exagerada.

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A oscilação já chamou a atenção da operadora de bolsas Intercontinental Exchange Inc., que na quinta-feira aumentou as exigências de margem dos futuros de açúcar em 19,5% para elevar o custo de se fazer apostas alavancadas com dinheiro emprestado. Os ganhos já estão começando a retroceder, com o mercado caindo 5,04% em relação ao pico recente registrado na quarta-feira passada. Ontem, os futuros de açúcar fecharam com alta de 5,1% na ICE, a US$ 14,71 por libra-peso.

“Estamos vendo uma nova leva” de operadores entrando no mercado de açúcar, atraídos pelo seu crescimento e alta volatilidade, diz Jeff Dobrydney, diretor da Jenkins Sugar Group, corretora americana de açúcar.

O açúcar começou a atrair a atenção dos operadores no início do ano, depois que a desvalorização do real derrubou os preços da commodity. Como o Brasil responde por mais de 40% de açúcar demerara exportado no mundo, uma queda no real tende a incentivar os agricultores a elevar a produção, o que pressiona os preços para baixo.

Alguns fundos de hedge macro, que fazem apostas com base em tendências macroeconômicas, aproveitaram a oportunidade e começaram a vender o açúcar como uma forma mais barata de apostar contra o real, já que as taxas de juros do Brasil, perto de 15% ao ano, tornam caro tomar reais emprestados para fazer apostas, dizem corretores.

Especuladores financeiros fizeram um recorde de apostas pessimistas contra o mercado em março, segundo a CFTC.

Desde então, o real se valorizou um pouco, provocando uma corrida desabalada de investidores para cobrir vendas a descoberto, com alguns dando meia volta e apostando numa alta.

No Briarwood Capital Management, fundo de hedge que administra US$ 30 milhões, o açúcar “vem sendo uma fonte de dinheiro”, diz Fred Schutzman, diretor-presidente da empresa.

O Briarwood fez vendas a descoberto de açúcar no início do ano, mas passou a apostar na alta dos preços em 22 de setembro, quando seus modelos indicaram que era hora de comprar.

Há razões fundamentais para apostas otimistas.

A Organização Internacional do Açúcar (ISO, na sigla em inglês) prevê que o mercado do produto terá o primeiro “déficit estatístico” este ano, com a produção atual ficando aquém da demanda em 3,5 milhões de toneladas. A associação setorial, que é sediada em Londres, não prevê que haja uma escassez de açúcar ao redor do mundo, graças aos excedentes de oferta acumulados desde 2011.

“É o mercado pessimista mais longo que já vimos para o açúcar em um bom tempo”, diz Michael McDougall, diretor de commodities do Société Générale em Nova York. “É como um grande navio que tem dificuldade em virar. Mas parece que finalmente está começando a virar.”

As usinas de açúcar no Brasil estão direcionando mais cana-de-açúcar para produção de etanol, que é misturado à gasolina. A produção de açúcar da região Centro-Sul na safra 2015/2016 até 30 de outubro caiu 6,7% ante um ano atrás, para 27,5 milhões de toneladas, segundo dados da União da Indústria da Cana-de-Açúcar, ou Unica. A safra termina em março.

Após uma safra nacional fraca, a demanda da China por açúcar importado saltou 55%, para 3,75 milhões de toneladas, nos primeiros nove meses do ano. A Wilmar International Ltd., trading com sede em Cingapura, recebeu entregas físicas de US$ 1 bilhão em açúcar através das bolsas este ano, alimentando especulações sobre um maior apetite asiático.

Mas, num sinal que deixa alguns investidores em dúvida, os produtores e processadores de açúcar estão fazendo as maiores apostas em dois anos de que os preços vão cair. “A demanda simplesmente não está lá ainda”, diz Bruno Lima, que lidera a divisão de açúcar e etanol da corretora INTL FCStone no Brasil. Durante visita a usinas, ele encontrou demerara com um grande desconto em relação aos futuros negociados em Nova York.

Os estoques globais de açúcar encerram setembro em 85,4 milhões de toneladas, ante 83,2 milhões um ano antes. É o suficiente para suprir o mundo durante seis meses, afirma a ISO.

Schutzman, do Briarwood, diz que a firma está pronta para sair do mercado. “Neste momento, nossos modelos nos dizem que as chances de os preços do açúcar subirem mais são baixas.”

Carolyn Cui


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