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Açúcar: Mercado

[Opinião] E o consumo brasileiro de açúcar?


Cepea/Esalq - 26 jul 2022 - 09:02

Por Heloisa Lee Burnquist*

Uma questão apresentada com certa frequência aos pesquisadores da equipe de açúcar do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq-USP, tem sido: qual é o consumo interno dos diversos tipos de açúcar ao longo do ano e em diferentes estados? Mais especificamente, como está estruturado o mercado brasileiro doméstico de açúcar?

A produção da cana já vem sendo acompanhada com precisão alta, não apenas pela obtenção de informações junto às unidades produtoras, mas confirmadas com o auxílio de imagens de satélites e drones. As exportações passam pelo registro alfandegário. O consumo do etanol e o movimento ao longo da cadeia já são relativamente transparentes e são informações que auxiliam consideravelmente a tomada de decisão pelas usinas e outros agentes ao longo da cadeia de distribuição até chegar ao consumidor final. Tais volumes também são de grande importância para fundamentar políticas governamentais para o setor de combustíveis.

Já para o açúcar, é possível obter dados tendo acesso ao sistema Sapcana do Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), que tem por objetivo manter o cadastramento de unidades fabris sucroenergéticas e o registro on-line de seus informes sobre moagem de cana-de-açúcar, industrialização e comercialização de açúcar (e etanol). No entanto, não se tem conhecimento da forma como esses dados são organizados nessa base, visto que o acesso não é público.

O setor sucroenergético brasileiro é reconhecido pela intensa profissionalização das atividades (particularmente no que tange à produção) e, no lado da comercialização, pela posição competitiva das suas exportações. Acredita-se, no entanto, que existam margens para ganhos não explorados no equacionamento da comercialização no mercado doméstico.

Com as elevações das taxas de inflação e dos juros, dos custos logísticos e com o contingente da população brasileira tendo acesso limitado a alimentos, torna-se ainda mais importante entender a sistemática do mercado interno, tanto para o gerenciamento das vendas, da logística, manutenção de estoques, quanto para fundamentar políticas públicas, uma vez que o açúcar se constitui não apenas em uma fonte barata de carboidratos, mas é base para a produção de diversos itens de consumo básico dos brasileiros.

Neste contexto, aumenta a importância de um conhecimento e acompanhamento mais completos e atualizados do mercado interno como instrumento para o planejamento. Até mesmo uma indicação dos estados superavitários ou deficitários em açúcar já seria um avanço para o planejamento das vendas.

O mercado à vista facilita o comércio em um contexto mais transparente, em que transações ocorrem a preços que são públicos, amplamente conhecidos. Basicamente, é mais fácil executar contratos nos mercados à vista e estes podem se constituir em importante fonte de geração de caixa.

Mas qual é o percentual de traders que explora tais oportunidades no mercado brasileiro? Existem indicações de que atualmente são poucos. No mercado de açúcar, a composição das formas de vendas escolhidas pelas empresas e suas respectivas tradings sugere que a prioridade é identificar o melhor momento de fixar o maior percentual possível de açúcar no mercado externo.

Isso ocorre mesmo quando o açúcar pode ser vendido com maior liquidez no mercado doméstico e em patamar superior ao do externo e, em diversas instâncias, até mesmo ao do etanol, que é o caso do atual momento. Assim, existem claras indicações de que tais oportunidades não têm sido exploradas com frequência, pois a convergência de preços não é rápida, assumindo diferenças quase estruturais pela falta de produto para a realização de lucros com arbitragem.

Com o lado vendedor assumindo tal postura, o comprador sente-se mais à vontade para se posicionar como um “falso oligopsonista” no mercado interno. A falta de transparência do mercado é um facilitador desse comportamento devido à assimetria de informações quanto ao que os compradores realmente demandam ao longo do ano, assim como quando as condições macroeconômicas se alteram, trazendo-os de volta para o mercado interno.

“Quando o vendedor não tem informações suficientes para realizar a arbitragem com facilidade, os compradores conseguem negociar com maior desenvoltura a seu favor”, Heloisa Lee Burnquist (Cepea)

Além disso, pressões crescentes para que os sistemas agroindustriais adotem governanças socioambiental e corporativa favorecem medidas que aumentam a transparência dos mercados. Isso, inclusive, representa uma outra fonte de ganhos potenciais.

Um estudo recente do Agroicone concluiu que o acompanhamento mais detalhado da cadeia tem maior potencial para reverter em benefícios que em gastos (Chiodi, 2020). Tomemos como exemplo a venda de maior volume de produto com maior valor agregado, menor custo de inventário (carrying costs), gastos evitados com penalidades e assimetrias de informação e, eventualmente, promovendo uma maior eficiência com a redução de fertilizantes, diesel, absenteísmos, acidentes, consumo de água e até redução das emissões de gases de efeito estufa. Transparência, portanto, pode ser uma estratégia para aumentar a lucratividade do negócio.

Dessa forma, é compreensível a busca de uma fonte que possibilite uma melhor compreensão e acompanhamento da composição e dinâmica do consumo de açúcar dentro do país. Trata-se de um desafio? Uma pesquisa complexa? Sem dúvida não é trivial, porém já foi realizada pelo Cepea, a pedido da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), ao final dos anos 2000.

Com os avanços tecnológicos na área de sistematização de dados e conhecimento acumulado a respeito do mercado desde este período até o momento atual, tal iniciativa, feita a princípio de forma pontual, poderia ser facilmente sistematizada e atualizada com a frequência que os gestores considerarem necessário, sendo essencial, no entanto, a colaboração para a obtenção de tais informações.

Quem consultar o Sugar Semi-Annual do USDA, elaborado pelos técnicos do Consulado dos EUA no Brasil e disponibilizado gratuitamente pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), verá que este explicita que o Brasil “não tem uma fonte oficial sobre consumo de açúcar”. Somos os maiores produtores e exportadores mundiais há décadas, mas não temos dados sobre como o açúcar se movimenta dentro do país.

Existem, certamente, iniciativas bem fundamentadas nesse sentido, mas apresentadas de forma esporádica. Encontramos, por exemplo, apresentação bastante interessante e bem ilustrada publicada pela EDFman para a safra 2010/11, que aparentemente relaciona os estados superavitários e deficitários em termos da commodity à taxa de ICMS incidente sobre o açúcar por estado.

Parece um desafio interessante buscar identificar quais as regiões ou estados nacionais superavitários e quais os deficitários ao longo do ano (civil), ainda que em termos percentuais, por tipo de açúcar (pelo menos VHP, Cristal e Refinado), embalagem (saca, big-bag ou líquido), agentes de comercialização envolvidos (vendas inter-usinas, atacadista, varejista), indústria (refrigerantes, alimentos processados, lácteos, dentre outros).

Quando, ao final dos anos 2000, o Cepea realizou o levantamento, foram selecionados 18 estados nacionais: SP, PR, RJ, ES, MG, MS, GO, MT, PE, AL, PB, SE, RN, BA, PA, PI, AM e MA. Resultados interessantes foram obtidos para o ano de 2010. Por exemplo:

  • De 10,36 milhões de toneladas de açúcar direcionadas para o mercado interno, 8,7 correspondem a vendas realizadas para estados do Centro-Sul e 1,66 milhão de toneladas foram vendidas para o Norte e Nordeste.
  • Deste total, a indústria absorveu 52%, o varejo, 31% e o restante foi vendido ao atacado (18%).
  • As vendas para as indústrias de alimentos e bebidas foram desagregadas em nove categorias, cada uma acompanhada de seu percentual: nas vendas diretas das usinas para o varejo, 59,28% foram de açúcar refinado amorfo e granulado; 40,39%, de cristal; 0,29% de líquido e 0,04%, de VHP.

Esses e diversos outros aspectos puderam ser levantados, com o devido apoio do setor em todos os 18 estados selecionados. Analisando atualmente, tais características se mantêm? E se tivéssemos essas informações, a princípio, para cada trimestre do ano? Seria interessante? Devemos tentar a implementação desta atividade?

Consideremos uma questão recorrente: as cláusulas contratuais que impedem a informação sobre compras pelas grandes empresas vão prejudicar o levantamento? Não, considerando-se que os dados sobre volume necessários pelo Cepea são agregados e a fonte individual não se identifica. Além do que, embora o lado consumidor de açúcar no mercado interno venha a perder um pouco de autonomia por ocasião das negociações, com certeza compreenderão os pontos positivos de tal iniciativa também para seu planejamento, na forma de um atendimento menos oneroso face à possibilidade de melhorar a logística, dentre outros fatores.

* Heloisa Lee Burnquist é professora da Esalq-USP e pesquisadora do Cepea


Textos opinativos não necessariamente traduzem a opinião do NovaCana. A publicação visa estimular o debate e proporcionar uma variedade de pontos de vista para os leitores.


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