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Açúcar: Mercado

Arnaldo Luiz Corrêa: a tempestade perfeita


Archer Consulting - 15 set 2014 - 09:02

O mercado futuro de açúcar em NY viveu mais uma semana daquelas que os produtores certamente gostariam que fossem apagadas de suas memórias. O vencimento outubro/2014, cuja expiração ocorre nesse final de setembro, encerrou a sexta-feira a inacreditáveis 13.78 centavos de dólar por libra-peso. Nos últimos 2 meses o vencimento outubro/2014 caiu mais de 350 pontos para desespero de muitas usinas brasileiras que ainda tinham razoável volume para ser fixado contra aquele mês. Agradeçam aos tailandeses por isso. Até que o outubro expire o show de horror deve continuar.

Uma desvalorização de mais de 20% num período de dois meses, a maior desde o incêndio no terminal açucareiro da Copersucar quando o mercado negociou a 20.16 e depois mergulhou de cabeça para 15.89 centavos de dólar por libra-peso dois meses depois. Além disso, o mercado negociou a mínima de 13.75 centavos de dólar por libra-peso, o menor preço desde 12 de maio de 2010. Um espanto.

O spread outubro/marco que negociou a 250 pontos é o maior negociado nos últimos 10 anos em valores absolutos. Em termos relativos, o maior ocorreu em 29 de abril de 2008 quando o maio/2008 e julho/2008 negociavam, respectivamente, a 10,16 e 11,87 centavos de dólar por libra-peso, um carrego embutido de 153,65% ao ano.

A esmagadora maioria dos traders e diretores comerciais de usinas, por mais pessimistas que pudessem ser com os caminhos que o mercado estava trilhando desde há algum tempo, está surpresa com a velocidade e a magnitude do declínio. Uma baixa de 52 meses é assustadora. A absoluta falta de demanda na exportação que o mercado tem experimentado, mais o fato de 2014 ter sido um ano particularmente difícil para as tradings, o que diminui o apetite delas para a tomada adicional de riscos e a natural postergação de novos negócios, culmina com um ambiente desfavorável para o setor sucroalcooleiro pela falta de política de um governo atrapalhado e extremamente medíocre, e no topo de tudo isso a ameaça de uma entrega volumosa de açúcar por parte da Tailândia. A tempestade perfeita. Só falta a Dilma ganhar as eleições.

Falar depois que aconteceu é fácil demais. Por isso, não podemos esquecer que o quadro que se pintava no início do ano safra era da possibilidade de seca, que se efetivou; uma produção de cana aquém da estimativa, que acabou se verificando mas sem grande impacto; e uma chance bastante razoável do El Nino, que não se concretizou. As fixações de venda contra a bolsa de futuros de NY por parte de algumas usinas foram empurradas com a barriga na esperança de que preços melhores ocorressem com a materialização das previsões.

Uma lição fica desse derretimento do açúcar em NY para muitas empresas: com gestão de risco não se brinca nunca. Nos meus tempos de trader nunca tive muita predileção por me apaixonar pela posição e tento sempre que posso passar esse recado. A lei de Murphy está sempre pronta para ser aplicada. E, como ela assevera, se alguma coisa pode dar errado, certamente dará. Mas o que ninguém esperava era um derretimento de 300 pontos em dois meses. E tem trader apostando que vamos ver apenas um digito ainda no outubro. Impressionante como esse cenário de filme do Bela Lugosi parece não ter fim. Por outro lado, eu vejo semelhanças entre o mercado e humores atuais com o de maio de 2010 quando NY negociou 13 centavos de dólar por libra-peso e muitos diziam que ia para 9 centavos.

Os demais meses de negociação também se desvalorizaram nesses dois meses, obviamente. O março/2015 caiu 263 pontos; o maio e o julho perderam 225 e 187 pontos, respectivamente. Mais adiante na curva, o março/2016 por exemplo, caiu 117 pontos.

Algumas notícias na semana também contribuíram para colocar mais lenha na fogueira. O etanol em Chicago quebrou o suporte de longo prazo a 1.8550 praticamente abrindo a possibilidade que esse etanol encontre o Brasil como destino final. O petróleo Brent caiu para abaixo de 100 dólares o barril, o menor preço dos últimos quinze meses. As perspectivas de reeleição da presidente Dilma aumentaram, o que deve ser desastroso para a Petrobras, e para a política de transparência na formação de preços dos combustíveis, tão necessária para que o setor sucroalcooleiro pudesse atrair novos investimentos. Refletindo o novo quadro na corrida eleitoral, o dólar explodiu e a bolsa de valores encerrou a semana no seu sexto dia consecutivo de quedas. Pelo andar da carruagem, em 2015, corremos o sério risco de sentirmos saudades de 2014. É desalentador.

Apenas por curiosidade: o volume total de moagem no Centro-Sul, até a segunda quinzena de agosto, publicado pela UNICA, mostra um total de 372 milhões de toneladas de cana. Nas últimas 6 safras, o valor acumulado até esse período representou em média, tirando os extremos, 61.5% do volume total da respectiva safra. Se isso se repetir, alcançaríamos um número de 605 milhões. Ou seja, se algum fundo estiver fazendo esse tipo de análise, certamente dará com os burros n’água. Seguindo o mesmo critério, a produção de açúcar seria de 34.8 milhões de toneladas e a de etanol 26.8 bilhões de litros. A UNICA, em sua ultima estimativa, apresenta um número menor em 3.4 milhões de toneladas de açúcar e 2.8 bilhões a menos de etanol.

Alguns leitores questionaram o número que publicamos aqui sobre o aumento de consumo de combustível nos últimos doze meses, um total de 4.4 bilhões de litros. Muito bem, vamos a eles. Primeiramente, os números são da Agência Nacional do Petróleo. O acumulado nos doze meses compreendidos entre agosto de 2013 e julho de 2014 é de 11.8 bilhões de litros de hidratado e 43.1 de gasolina C (que contem 25% de anidro). O total no período é de 54.98 bilhões de litros. No mesmo período do ano anterior, portanto entre agosto de 2012 e julho de 2013, o acumulado é de 10.0 bilhões de litros de hidratado e 40.6 bilhões de litros de gasolina C, um total de 50.58 bilhões de litros. Portanto a diferença entre os dois é de 4.4 bilhões de litros. Se compararmos esse número com as vendas de etanol publicadas pela UNICA, estaremos incorrendo num erro conceitual pois o número da ANP é o consumo de carburante no Brasil e o número da UNICA engloba apenas o Centro-Sul e inclui o não-carburante.

Arnaldo Luiz Corrêa é diretor da Archer Consulting

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