Açúcar: Exportação

Produtores de beterraba da França temem concorrência do açúcar de cana brasileiro

Após acordo UE-Mercosul, França deve visar mercado africano


RFI - 16 jul 2019 - 09:28

Segundo a Comissão Europeia, o acordo do bloco com o Mercosul deve poupar às empresas europeias mais de € 4 bilhões em impostos. Mas, como em toda negociação, a Europa também teve que fazer concessões importantes a seus novos parceiros comerciais, especialmente no setor da agricultura.

Uma das decisões desagradou especialmente aos produtores de beterraba da França, os grandes fornecedores de açúcar para o continente. Eles veem com preocupação a possibilidade de a produção do açúcar brasileiro literalmente invadir o mercado europeu com os preços mais competitivos oferecidos pela cana-de-açúcar.

A RFI ouviu especialistas e representantes de produtores e empresariado para tentar entender o que está em jogo nesta “guerra do açúcar” entre Brasil e França, na disputa pelo mercado europeu.

Segundo Timothé Masson, economista da Confederação Geral de Produtores de Beterraba da França, os produtores franceses serão “penalizados” no caso do açúcar, ao contrário do setor bovino ou de aves.

“Este açúcar brasileiro que deixamos entrar sem impostos não é um tipo de produto que encontraremos na França, mas em outros países europeus que são nossos clientes tradicionais, como o Reino Unido, a Espanha e a Itália, de quem a França sempre foi fornecedora”, explica o especialista, em entrevista à RFI.

De acordo com ele, isso significa menos clientes para a França. “É também por isso que existem países favoráveis a esse acordo no centro da Europa, porque se trata de uma maneira de comprar um açúcar mais barato, em relação ao produto francês”, diz e completa: “Estes países não são atualmente produtores de açúcar, mas o que chamamos de refinadores. Eles importam o açúcar mascavo e o refinam”.

Com o Brexit e o fechamento do mercado britânico, Masson acredita que esse contingente de mercado se tornará ainda mais importante, fazendo eco à insatisfação dos produtores de beterraba franceses.

O acordo com o Mercosul prevê a importação para a UE de 180 mil toneladas de açúcar, principalmente do Brasil, sem taxas alfandegárias. Os produtores franceses de beterraba se sentem ameaçados por essas novas importações e exigem que o acordo não seja ratificado.

Quem lucra com o acordo UE-Mercosul?

Segundo o economista francês Olivier Geneviève, presidente da associação Ethical Sugar (Açúcar Ético, em português), especializada na indústria do açúcar e seus derivados, o custo da produção do açúcar na Europa é muito mais elevado do que no Brasil.

“A única saída para a França neste caso seria reexportar a produção excedente para a África, por exemplo, e isso é proibido pela Organização Mundial do Comércio, embora já esteja acontecendo”, diz.

Geneviève explica que toda matéria-prima que é usada em um produto final tem seu peso no processo de produção. “Se o preço da matéria-prima baixa, o consumidor não será beneficiado. Na verdade, isso servirá para aumentar o lucro das grandes corporações em todo o agronegócio, ou seja, todas as empresas que utilizam o açúcar em sua cadeia produtiva”, afirma.

Assim, ele acredita que o impacto do acordo Mercosul-UE se refletirá em um aumento da margem de lucro de multinacionais [ligadas ao agronegócio] na Europa. “Isso vai relançar a dinâmica da especulação, do capitalismo, do poder dos acionários. Teremos aqui na França grandes prejuízos em termos de mercado de carne bovina, mas também em indústrias de cana-de-açúcar na Martinica, na Ilha de Reunião e outros territórios franceses, por causa do acordo com o Mercosul”, analisa Geneviève.

Mudanças no mercado

O economista aponta que a produção francesa do açúcar de beterraba deverá se voltar para o continente africano. “A África tem fome e aumenta enormemente sua população. A margem de manobra que teremos será exportar para eles, com subvenções disfarçadas do contribuinte europeu para tentar encontrar um escoamento do produto nesta panela de pressão”, avalia.

Mas ele lembra que o açúcar da cana brasileiro é mais competitivo que o extraído da beterraba. “Existe também a periodicidade das colheitas. Temos apenas uma colheita para as beterrabas, entre setembro e novembro, sendo que no Brasil podemos ter duas colheitas para a cana”, explica.

“É necessário ver também a questão do etanol. Uma porcentagem de 5,75% da gasolina europeia é misturada ao etanol brasileiro, que, em teoria, é mais barato do que seu equivalente europeu”, diz o economista. “Os grandes beneficiários deste acordo serão empresas como a Coca-Cola, PepsiCo, BP, Shell, todas essas empresas altamente capitalistas”, analisa.

No Brasil, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) avalia, através de comunicado oficial, que, as quantidades estabelecidas no acordo entre União Europeia e Mercosul, quando plenamente atendidas, podem elevar o valor exportado para o bloco europeu para mais de R$ 2 bilhões por ano, comparativamente a um total de R$ 600 milhões de exportações para a região no passado (cálculo realizado levando em conta as mesmas condições de preço de 2018). Esse valor equivale a 7% do total das divisas geradas pelo Brasil com a exportação total de açúcar e etanol em 2018.

Para Olivier Geneviève, o acordo poderá salvar setor do açúcar e etanol em crise no Brasil. “Os grandes vencedores deste acordo serão os traders e empresas que possuem normalmente um capital de centenas de milhões de euros. O mercado brasileiro está em crise nesse setor há muitos anos. Será uma boia de salvação para eles, tendo como grandes beneficiários as companhias europeias no final”, diz o economista e professor da Escola de Comércio de Lyon, no leste da França.

Márcia Bechara
Com colaboração de Lucas Senra


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