Açúcar: Exportação

Dependente do Brasil, indústria açucareira global sofre queda por crise do petróleo


Agence France-Presse - 25 mai 2020 - 09:19

Após dois anos ruins, a indústria açucareira pensava que havia se recuperado. Mas com a pandemia da covid-19 e o colapso do mercado petroleiro, tudo voltou a apresentar queda e há uma ameaça ao equilíbrio mundial do setor, que depende bastante do Brasil.

Desde que a pandemia começou, o açúcar perdeu um terço de seu valor no mercado mundial, afirma, o economista do sindicato francês de beterrabas, Timothé Masson.

Este fato é terrível para as indústrias de açúcar de diversos países, especialmente as europeias, que foram convencidas a retomar as atividades depois de um ano marcado por queda de preços e fechamento de fábricas.

Em meados de fevereiro, a libra do açúcar bruto havia subido para 15 centavos de dólar em relação ao dólar americano, caindo recentemente para 8 centavos e depois subindo para 10 centavos.

“O ponto principal da crise está relacionado à crise do petróleo, que tornou mais interessante a produção de açúcar no Brasil ante o etanol, vendido no mercado doméstico, que afundou completamente por causa do petróleo”, ressalta Masson à AFP.

Outro fator que impulsionou as exportações brasileiras de açúcar na safra 2020/21 é a desvalorização do real em relação ao dólar, segundo relatório recente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

“A perspectiva é que essa taxa de câmbio continue apoiando a competitividade do açúcar brasileiro no mercado externo”, afirmou o relatório, que explica que a produção brasileira de açúcar chegaria a 35,3 milhões de toneladas – um aumento de 18,5% em relação à safra anterior.

Desde o início da pandemia, o real brasileiro perdeu 30% do seu valor em relação ao dólar, a moeda utilizada na precificação do mercado mundial de açúcar. “Isso significa que, a curto prazo, os brasileiros estão muito mais competitivos, pois podem vender (o açúcar) mais barato no mercado mundial em dólares e terão a mesma quantidade em reais”, disse Masson.

A tendência preocupa também outros países produtores de açúcar, como a África do Sul e a Tailândia, ressalta.

A ameaça monetária brasileira

No entanto, essa perspectiva não preocupa a Cristal Union, o segundo maior produtor francês de açúcar, afirma o CEO da empresa, Alain Commissaire.

“Já havíamos anunciado em dezembro, em nossas reuniões internas e com os produtores, que tínhamos mudado nosso modelo de negócios para ser mais europeu, mais flexível, mais ágil e estar menos no mercado mundial”, explica à AFP.

Algo semelhante acontece na Alemanha com a SüdZucker, considerada a maior refinaria de açúcar do mundo. A companhia aponta que, ao contrário do que ocorre no mercado global, os preços europeus não caíram nos últimos meses: eles tiveram queda para 300 euros por tonelada no último ano, mas, no final de fevereiro, ficaram em 370 euros. “E o aumento dos preços continua”, diz um porta-voz do grupo.

No momento, a principal preocupação dos produtores de açúcar é o etanol. “O Brasil inevitavelmente produz etanol. Não seria conveniente enfrentarmos uma pressão anormal em nossos mercados, pelo fato de o real estar desvalorizado e que o excedente acabe na Europa. Isso pode ser um problema para nós”, diz Commissaire.

Cerca de um quarto das beterrabas é destinado ao açúcar produzido na França, um dos maiores produtores da Europa, mas que representa somente 8% no mercado mundial.

“Pedimos que uma cláusula de proteção seja examinada na Europa, para evitar que uma torrente possa vir do Brasil ou dos Estados Unidos”, argumenta Commissaire, que considera a ameaça brasileira muito maior.

“No começo do ano, eram necessários 3,5 reais para obter um dólar, hoje estamos em 5,5, 5,7, e os bancos projetam 7,5 para o verão”, explica. “Isso significa não apenas mais açúcar; todo o setor agrícola será ‘impactado’ com o que acontece no Brasil”.


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