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Os problemas da mecanização no plantio de cana e as possíveis soluções


novaCana.com - 16 ago 2013 - 10:08 - Última atualização em: 27 ago 2014 - 17:08

Desempenho dos sistemas mecanizados utilizados pelo setor canavieiro

O avanço da mecanização tanto no plantio como na colheita vem revelando certas deficiências no desempenho e, em alguns casos, vem se mostrando menos eficiente do que o sistema manual. Ainda que deva ser considerada a dificuldade de oferta de mão de obra treinada para realizar as operações mecanizadas, ou mesmo a inadequação de determinadas variedades de cana à mecanização, é necessário avaliar se as atuais tecnologias de mecanização agrícola poderiam ser mais bem desenvolvidas.

A cana-de-açúcar se propaga vegetativamente por meio de gemas 1  laterais. Tradicionalmente, a multiplicação de canaviais é feita por meio de rebolos,2 com comprimento de duas a três gemas, extraídos de colmos produzidos em viveiros. O plantio da cana-de-açúcar envolve quatro etapas principais: a colheita de mudas em local distinto da área de plantio; o transporte até a área de plantio; a distribuição das mudas nos sulcos e, por último, a pulverização e cobertura das mudas [Braunbeck e Magalhães (2010)].

Problemas identificados

Em relação à mudança, em maior intensidade, a partir de 2006, do plantio manual para o plantio mecanizado, o principal problema verificado pelas usinas foi a necessidade do aumento significativo da quantidade dos toletes 3 necessários para o plantio de um hectare de cana-de-açúcar. Quando o sistema era manual, eram necessárias, em geral, de dez a 12 toneladas de toletes para plantar um hectare, o que gerava, em média, oitenta toneladas de cana por hectare em um ano. Ao fim do ciclo produtivo, depois de cinco anos, são gerados cerca de 400 t/ha.

Com a introdução do plantio mecanizado, verificou-se que eram necessárias de 16 a vinte toneladas de toletes para a obtenção dos mesmos resultados.  Dessa forma, tal situação representa um sensível aumento de custos, mesmo considerando-se que, por outro lado, há uma redução significativa da mão de obra envolvida – em que pese haver também incremento de custos, referentes tanto ao capex quanto ao opex relativos à aquisição e operação das máquinas envolvidas.

Uma das principais razões para a necessidade do elevado número de toletes no plantio é que as gemas neles presentes são muito sensíveis, fáceis de serem danificadas, o que ocorre frequentemente durante todo o processo.  A começar pela colheita das mudas, que é feita com uma colhedora de cana-de-açúcar adaptada com kit de emborrachamento. Nessa etapa, muitos toletes já são recolhidos com gemas danificadas. Logo depois da colheita, esses toletes sofrem nova agressão em sua passagem para os veículos de transbordo que vão levá-los para o local de plantio. E novamente passam por outra agressão ao serem despejados nas plantadoras.

Dessa forma, a alternativa dos usineiros é aumentar a quantidade de toletes por hectare, a fim de tentar compensar, ao menos em parte, a esperada perda de gemas viáveis. Some-se a isso o fato de que, na tecnologia atual de plantadoras, não existe ainda uma que consiga dosar adequadamente a quantidade de toletes a serem lançados no sulco, por unidade de tempo e área. E, com o incremento de toletes maior do que o necessário, ocorre também o aumento da competição entre eles. Dessa forma, nem todas as gemas vão germinar, o que também é mais um fator que prejudica todo o processo de plantio.

Outro ponto importante é a busca por ampliar a eficiência da operação de plantio. Atualmente, as plantadoras, até mesmo por terem que transportar cerca de seis toneladas de toletes, só estão aptas a plantar, no máximo, duas linhas de cada vez. Essa característica aumenta a necessidade de tráfego para a conclusão do plantio em determinada área, aumentando assim o pisoteamento do solo (compactação), que é um dos principais fatores de queda de produtividade a médio e longo prazos nas lavouras de cana-de—açúcar brasileiras.

Também é fundamental que as linhas de plantio estejam bem-alinhadas durante o processo, a fim de facilitar a operação de colheita, evitando o pisoteamento e, principalmente, garantindo que as máquinas envolvidas no processo só trafeguem no espaço entre linhas, e nunca por cima da linha onde a cana é plantada, fato ainda comum. O presente desenho das máquinas impõe limites para o desenvolvimento e a difusão das melhores práticas de manejo agrícola.

Tais problemas conjugados requerem não só que as máquinas envolvidas no processo sejam aperfeiçoadas, como também que todo o processo de plantio seja revisto. E, de preferência, que as máquinas venham a se adequar aos melhores processos de preparo e cultivo do solo.

Possíveis soluções

Em primeiro lugar, é necessário melhorar o processo da colheita dos toletes das mudas. Como foi comentado, é usada uma colhedora de cana—de-açúcar adaptada com kit de emborrachamento para desempenhar essa função. Decerto, precisa-se desenvolver uma nova tecnologia para a colhedora de mudas, ou um novo processo de recolhimento, que reduza a chance da danificação das gemas não só durante a colheita, mas também nos processos da passagem dos toletes da colhedora para o veículo de transbordo e deste para as plantadoras. Para tanto, uma possibilidade seria, por exemplo, a criação de algum novo processo que envolva o transporte dos toletes por meio de um container que os coloque diretamente na plantadora, sem a necessidade, portanto, das movimentações dos toletes previamente descritas.

Em relação à dosagem das mudas pela plantadora, é necessário o desenvolvimento de tecnologias capazes de garantir a exata distribuição de toletes nos sulcos, de preferência colhidos anteriormente, com a mais alta taxa possível de gemas viáveis, de forma a alcançar as melhores práticas da agricultura de precisão, as quais já são muito utilizadas na cultura de cereais. Para tanto, softwares que mapeiem a produtividade do terreno e comandem a resposta adequada, em tempo real, para a plantadora, também precisam ser desenvolvidos e inseridos na máquina, ou seja, há necessidade de maior automação. É certo que, com mais essa evolução, seria reduzida em muito a necessidade de colocação elevada de toletes para serem plantados por hectare.

Em relação ao aumento das linhas de produção e seu alinhamento no processo de plantio, é necessário desenvolver processos/máquinas capazes não só de operar um número maior de linhas por vez, como também de garantir o uso dos mais modernos recursos informatizados, de telecomunicações, de georreferenciamento (GPS), de piloto automático, assim como a utilização de softwares de logística e de planejamento e controle da produção, visando, até, integrar o controle e a comunicação das usinas com as frentes de trabalho agrícolas em tempo real, o que otimizaria o trabalho da grande frota de máquinas e veículos agrícolas envolvida nesse processo.

Por fim, tais soluções se encontram no paradigma atual da reprodução da cana por meio de toletes que, em média, têm três gemas e comprimento de 20 cm a 45 cm, mas que envolvem grandes massas a serem transportadas no processo. Conforme mencionado, o plantio dos cereais leva muita vantagem em relação ao plantio da cana, em função, sobretudo, da reduzida dimensão de suas sementes, o que torna todo o processo de manipulação/ plantio mais facilitado.

Para a cana-de-açúcar, já está sendo pensada, e pode vir a ser uma boa solução, a tentativa de se criar uma espécie de semente a partir de um meristema tropical. Com isso, seria obtida alta redução dos custos de produção e de métodos e máquinas envolvidos no preparo, plantio e manejo do solo, o que revolucionaria todo o setor sucroenergético.

Uma primeira tecnologia já testada a fim de alcançar essa redução teve por objetivo a propagação da cana-de-açúcar por meio de uma única gema, com o rebolo reduzido, tratado e condicionado para evitar pragas e doenças, com reserva energética suficiente para até o sistema radicular se desenvolver [Braunbeck e Magalhães (2010)]. Se bem-sucedida, essa nova tecnologia envolverá a mudança de práticas e máquinas agrícolas.

1 Porção da cana situada nos nós existentes no colmo, responsável pela propagação da planta.
2 Fração do colmo com o corte característico do facão picador ou do corte de base, em ambas as extremidades. O colmo, por sua vez, é um tipo de caule comum em gramíneas como a cana-de-açúcar, bambu etc., em que nós e entrenós são bem visíveis e podem ser ocos (bambu), ou cheios (cana-de- -açúcar). No da cana-de-açúcar, é onde se concentra o caldo, que contém o açúcar.
3 Parte do colmo da cana-de-açúcar que tem uma ou mais gemas.

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