Estudos

Os problemas que afetam a performance das novas variedades de cana


novaCana.com - 16 ago 2013 - 11:08 - Última atualização em: 27 ago 2014 - 17:08

Para explicar os problemas de ganhos decrescentes de produtividade e baixos IAV e ICV, a primeira e mais intuitiva resposta que vem à mente é a ausência de novas variedades. O argumento é simples: ceteris paribus, quanto menor o número de variedades novas disponíveis ao longo do tempo, maior será a probabilidade de se alcançar ganhos de produtividade mais reduzidos, já que as variedades existentes, depois de certo tempo, tendem a apresentar rendimentos decrescentes. Além disso, quanto menor o número de novas variedades disponíveis, maiores serão, ceteris paribus, as probabilidades de maiores números para IAV e ICV.



Contudo, essa explicação não encontra apoio na realidade. Segundo Braga Jr., Oliveira e Raizer (2011), o país vem sendo palco para o surgimento de um grande número de novas variedades de cana. Os autores ressaltam que foram liberadas no Brasil 207 variedades para uso comercial entre 1970 e 2010. Entre 1990 e 2010, 154 diferentes variedades de cana foram testadas e utilizadas pelos agentes produtivos do setor.1 Restringindo ainda mais o período de análise, para os últimos dez anos (2003-2012), foram registradas no Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) 74 variedades de cana. Portanto, a ausência de novas variedades é uma possibilidade de resposta que deve ser refutada.

O conceito de "variedade significativa", explorado em Braga Jr., Oliveira e Raizer (2011), ajuda a lançar luz a essa discussão. Na definição dos autores, são consideradas variedades significativas aquelas cultivadas em, pelo menos, 5% da área de cana no Brasil em um ano do censo varietal do CTC.  Definido o conceito, entre 1991 e 2010, apenas 15 variedades, ou cerca de 10% do total de variedades utilizadas, puderam ser consideradas variedades significativas. Portanto, fica evidente a relação entre os dois problemas apontados: a baixa adoção (difusão) sugere haver problemas na performance (ganhos de produtividade) das variedades liberadas.

Por sua vez, Joaquim (2012) estima que sejam gastos aproximadamente R$ 150 milhões para o desenvolvimento completo de uma variedade de cana-de-açúcar superior aos padrões comerciais. Logo, mesmo sem ter acesso aos orçamentos de P&D das principais empresas e instituições do Brasil, é possível concluir que os esforços de investimento por cada incremento percentual de produtividade tendem a ser crescentes.

Há outras respostas que tentam explicar o quadro exposto no tópico anterior.  De natureza conjuntural, a crise financeira de 2008-2009, por exemplo, deixou em situação frágil a maior parte dos grupos econômicos do setor sucroenergético. Nesse contexto, houve acentuada retração do crédito concedido pelas instituições financeiras às empresas do setor, cujo endividamento foi crescente. Por conta disso, houve redução nos investimentos agrícolas, incluindo aqueles direcionados à renovação dos canaviais. No estado de São Paulo, o estágio médio de corte da cana alcançou 3,7 anos em 2011 [CTC (2012)]. A redução da taxa de renovação e, por consequência, a maior longevidade dos canaviais redundam em menor taxa de difusão das novas variedades.

Nos últimos três anos, o setor também enfrentou adversidades climáticas, acusadas frequentemente de serem as principais responsáveis pela drástica redução de produtividade. Além disso, muitos argumentam que o recente movimento de mecanização, tanto da colheita quanto do plantio, gerou efeitos deletérios na produtividade agrícola. 2  Sem negar os impactos que clima e mecanização vêm gerando sobre o canavial, Demattê (2012) argumenta que esses dois fatores apontam para um problema com raízes mais profundas: a questão varietal. Para o autor, a tendência à estagnação da produtividade agrícola está mais relacionada à performance das novas variedades de cana, que ainda é bastante influenciada pelas condições climáticas marginais, e ao fato de essas variedades não estarem satisfatoriamente adequadas à mecanização.  Contudo, as relações entre as novas variedades e a mecanização, por exemplo, não ocorrem em um único sentido. A mecanização do plantio e da colheita, bem como as técnicas de manejo associadas, deve estar adequada às variedades desenvolvidas, ou seja, o desenvolvimento tecnológico deve ser integrado. Como tal situação não ocorre na prática, tanto os ganhos de produtividade quanto a difusão tecnológica vêm obtendo resultados aquém do esperado. 3

Demattê (2012) ainda chama atenção para outros fatores que contribuem para a composição desse cenário: (i) a proliferação de doenças nas novas variedades, o que diminui a segurança varietal e, portanto, aumenta a resistência das usinas em ampliar seu plantio e; (ii) a grande expansão da lavoura de cana no ciclo de investimentos na última década.

A produção brasileira de cana quase duplicou em menos de uma década.  A recente expansão da cultura ocorreu em regiões de fronteira, como nos estados do Centro-Oeste do Brasil, onde os solos têm fertilidade inferior e o clima é mais adverso quando comparados aos solos e clima das regiões tradicionais de produção. O autor argumenta que para essas condições, "o número de variedades novas está restrito" [Demattê (2012, p. 24)].

De fato, o desenvolvimento completo (até a comercialização) de uma nova variedade leva, em média, dez anos. Se bem-sucedida comercialmente (depois da década de desenvolvimento), a nova variedade leva, pelo menos, mais cinco anos para figurar entre as mais utilizadas pelas usinas. Com isso em mente e considerando que: (i) a expansão mais recente da cana começou em meados da última década; e (ii) os programas de melhoramento, até então, focaram-se nas regiões tradicionais de produção, como São Paulo (maior produtor de cana e, portanto, maior mercado); é razoável imaginar que novas variedades desenvolvidas para as regiões de fronteira ainda não estão disponíveis em grande quantidade.

Além disso, ao mesmo tempo em que foi intenso, o último ciclo de investimentos também foi pouco planejado. A rápida expansão dos canaviais demandou mudas que não estavam disponíveis, ou seja, não havia matéria--prima para ser replicada no tempo desejado. Não se pode descartar, nesse contexto, que o planejamento de viveiros não conseguiu viabilizar volume de mudas compatível com a demanda pouco planejada das usinas. Por isso, os grupos produtivos do setor acabaram por reproduzir as variedades mais conhecidas e disponíveis. 4

Ademais, os sistemas de colheita de mudas e de plantio mecanizado tendem a aumentar a sustentabilidade socioambiental do setor, mas também vêm concorrendo para diminuir a eficiência desses processos agrícolas no curto e no médio prazos. Como discutido detalhadamente na próxima seção, os equipamentos envolvidos nessas operações têm tecnologia defasada e pouco integrada a conceitos avançados de manejo eficiente.

Esses fatores também ajudam a explicar os ganhos menores de produtividade e os valores intermediários de IAV e ICV, especialmente nas regiões de fronteira. A Tabela 1 ilustra essa situação. 

Tabela 1 | IAV e ICV em São Paulo e nos principais estados da fronteira de expansão da cana, em 2011

tabela1-sao-paulo-principais-estados-fronteira-expansao-cana-2011
A execução inadequada de manejo agrícola agrava o problema, comprometendo o sucesso de novas variedades. Nesse sentido, a assistência técnica mais próxima dos produtores, cada vez mais afastados dos centros tradicionais, facilitaria o melhor aproveitamento das novas variedades. 

Diante desses argumentos, chega-se à seguinte situação: há novas variedades de cana lançadas a cada ano. Contudo, o ritmo da difusão tecnológica vem diminuindo. E, como sugere Demattê (2012), parte da explicação reside na performance desses produtos, que não se provaram consistentes o bastante e, portanto, capazes de compensar o risco de troca das variedades atualmente vencedoras.

Alguns fatores já foram apresentados para ajudar a explicar esse problema.  Contudo, a literatura especializada abrange outros fatores estruturais que parecem contribuir para a inadequada performance das atuais variedades.  Entre eles, há as restrições do melhoramento genético convencional ou clássico, principal método utilizado no melhoramento da cana-de-açúcar.  Abstraindo ilações sobre o eventual esgotamento desse método na cultura da cana, Hotta et al. (2010) assinalam três de suas principais restrições: (i) elevada complexidade do genoma da cana; (ii) tempo requerido para a comercialização de uma nova variedade; e (iii) estreita base genética utilizada nos cruzamentos entre variedades.

A elevada complexidade genética da cana 5  impõe obstáculos à adoção de 415 novas técnicas de melhoramento, como a transgenia, já que os investimentos necessários são considerados incompatíveis com o retorno proporcionado pela cultura. Isso decorre da área relativamente pequena cultivada com cana quando comparada à de culturas como milho e soja. Em termos práticos, a lavoura de cana parece não dispor de escala suficiente para incentivar, no ritmo desejado, as grandes e tradicionais empresas de melhoramento genético a investir em transgenia nessa cultura. O Gráfico 1 compara o tamanho das lavouras de cana com o de outras culturas no mundo. 

Gráfico 1 | Evolução da área plantada – cana-de-açúcar e outros vegetais 

grafico1-evolucao-area-plantanda-cana-de-acucar-outros-vegetais

Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a área mundial de cana-de-açúcar representou 3,6% da área mundial plantada com cereais em 2011. No Brasil, quando se compara a lavoura da cana com a de outros cereais importantes, como soja, milho e trigo, a área de cana equivaleu a aproximadamente 25% da área plantada com tais cereais. De fato, a cana é hoje a terceira lavoura de maior importância no Brasil, perdendo apenas para soja e milho. A situação, portanto, sugere que a cultura é relevante para o país; mas para grandes empresas de genética agrícola, cujo mercado é global, é menos importante.

Outro fator que merece destaque é a capacidade que os desenvolvedores de tecnologias têm de se apropriar economicamente dos resultados gerados por suas inovações. 6 No mercado brasileiro de novas variedades de cana, por exemplo, o regime de apropriabilidade é fraco, sobretudo em razão da ausência da lógica empresarial na comercialização e remuneração dos programas públicos de pesquisa. Como resultado, a apropriabilidade dos resultados no mercado de cana é bastante inferior quando comparada com a de outras culturas, o que pode gerar menores incentivos para a inovação. 7 O Gráfico 2 ilustra tal situação. 

Gráfico 2 | Custo de germoplasma como percentagem do custo de produção

grafico2-custo-germoplasma-como-percentagem-custo-producao

Além dessas características específicas do mercado de cana, a própria planta apresenta dificuldades para o melhoramento convencional. Hotta et al. (2010) sublinham que alguns traços desejáveis comercialmente não podem ser introduzidos na cana por meio das técnicas clássicas de melhoramento.  Essa situação é reforçada pela base genética limitada usada no melhoramento clássico. Os autores argumentam que os programas hoje existentes selecionam e utilizam poucos clones para gerar populações. Dal-Bianco et al. (2011) sugerem que essa falta de diversificação de genótipos pode ser o problema por trás da dificuldade em se obterem aumentos consistentes de produtividade. Além disso, leva-se tempo considerável para se alcançarem resultados significativos pela rota clássica: uma variedade demora seguramente mais de dez anos entre seu cruzamento e o lançamento comercial.

A transgenia, por sua vez, ampliaria as possibilidades do melhoramento e, por conseguinte, os potenciais ganhos de produtividade. Como argumentado, porém, esse método ainda esbarra na alta complexidade genética da cana, o que resultaria em elevados investimentos em P&D. A Tabela 2 estima os diferentes ganhos potenciais proporcionados pelos dois métodos aqui considerados.

Tabela 2 | Estimativas do rendimento teórico máximo da cana

tabela2-estimativas-rendimento-teorico-maximo-cana

Não obstante, a evolução do melhoramento clássico para a transgenia, por sua vez, exige elevados investimentos em pesquisa básica. Por esse motivo, vem sendo frequente a participação de instituições públicas brasileiras nas pesquisas de base para a inovação nesse segmento. No país, podem ser citadas ao menos duas importantes iniciativas: o projeto SucEST (sequenciamento genético da cana) no início dos anos 2000 e o Programa de Bioenergia da Fapesp (Bioen), que abrange cinco grandes temas – biomassa, biorrefinarias, tecnologias de produção de etanol, motores e impactos das cadeias dos biocombustíveis em todas as dimensões da sustentabilidade.

Contudo, os avanços gerados pelas iniciativas públicas de pesquisa básica não vêm sendo suficientes para engendrar estímulos e ciclos virtuosos de inovação setorial. Segundo alguns especialistas entrevistados, apesar de pioneiras, essas iniciativas não conseguiram preencher todas as lacunas necessárias da pesquisa básica em cana-de-açúcar. Ademais, não foram estabelecidos elos eficientes de transferência de conhecimento e tecnologia da academia para o setor privado. Pode-se identificar até mesmo escassez de mão de obra qualificada para ser incorporada pelo setor privado.

1 Foram consideradas apenas as variedades que atingiram pelo menos 0,1% da área do país, segundo censo do CTC [Braga Jr., Oliveira e Raizer (2011)].
2 Como argumentado em Milanez et al. (2012) e segundo especialistas do setor, essa situação pode ser explicada por, pelo menos, três razões: (i) a compactação do solo; (ii) a menor densidade de plantas por área plantada, já que o plantio deve se ajustar ao corte mecanizado; e (iii) a maior altura em que o colmo é cortado pelas colheitadeiras em relação à altura do corte manual, de modo a evitar que a máquina arranque as soqueiras de cana no momento da colheita.
3 Nas entrevistas realizadas com os grupos usineiros, muitos alegaram ter resgatado variedades antigas, de domínio público, que se mostraram mais aptas à nova realidade da mecanização e às diferentes condições de produção do Centro-Oeste.
4 Em alguns casos extremos, algumas usinas entrevistadas chegaram a admitir terem usado cana-soca em vez de mudas na formação de seus canaviais
5 A complexidade genética da cana-de-açúcar diz respeito basicamente à estrutura poliploide e aneuploide de seu genoma. Nas palavras de Souza et al. (2011, p. 146), "sugarcane genome poses challenges that have not been addressed in any prior sequencing project, due to its highly polyploid and aneuploid genome structure with a complete set of homeologous genes predicted to range from 10 to 12 copies (alleles) and to include representatives from each of two different species".
6 Para um resumo sobre o conceito de regime de apropriabilidade, incluindo seus desdobramentos na análise de um caso real (setor de alimentos), ver Sidônio et al. (2013).
7 Nos últimos anos, a transformação do CTC em empresa e o estabelecimento de novos atores, como a CanaVialis, indicam mudanças positivas que podem melhorar o regime de apropriabilidade desse segmento.


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