Estudos

Evolução do plantio e da colheita mecanizados da cana-de-açúcar


novaCana.com - 16 ago 2013 - 10:08 - Última atualização em: 27 ago 2014 - 17:08

A expectativa de expansão da área cultivada de cana-de-açúcar, de 8,5 milhões de hectares, em 2012, para cerca 14 milhões de hectares em 2030, vai requerer alterações significativas em todo o sistema de mecanização atualmente empregado para pôr a atividade em níveis adequados de sustentabilidade. A cana-de-açúcar é uma cultura semiperene cujo processo de produção prevê uma colheita por ano, produzindo em média 81 t/ha/ano, no território brasileiro, se as principais condições edafoclimáticas e de preparo e manejo de solo forem atendidas [Braunbeck e Magalhães (2010)].

Desse total, aproximadamente 1,7 milhão de hectares, cerca de 20%, são replantados a cada ano, e em apenas 40% deles é utilizado o plantio mecanizado.  No restante da área, é usado o plantio semimecanizado. O método totalmente manual está restrito hoje a áreas pouco significativas, de alta declividade, predominantemente na Região Nordeste. A cana-de-açúcar é plantada em geral no período de chuvas, entre novembro e março, para ser colhida apenas na safra seguinte, ocasionando ao sistema produtivo déficit de um ano. Durante o período entre a colheita do último ciclo e o plantio da nova cana, muitas usinas executam rotação de culturas com leguminosas, visando não só proteger o solo, como também estender o período de safra.  Tradicionalmente a colheita de cana-de-açúcar foi feita a mão, mas passou por rápida mudança para a colheita mecânica na última década, sobretudo em função de legislação que restringe o uso da queimada [Braunbeck e Magalhães (2010)].

Verifica-se, no entanto, principalmente a partir de 2008, elevada queda 419 de produtividade nos canaviais brasileiros, que passou de 81 t/ha/ano para cerca de 69 t/ha/ano, em 2012, com sensível impacto na rentabilidade do setor, ainda mais considerando-se que o preço da gasolina – que baliza os preços do etanol – também se manteve estável nesse período. Diversos fatores podem ajudar a explicar essa queda, muitos dos quais já foram discutidos na seção anterior.

Entretanto, deve-se também considerar que, nesse mesmo período, foram intensificadas, no setor, novas práticas de plantio e colheita mecanizados de cana-de-açúcar. Se, por um lado, tais práticas proporcionam muitos aspectos positivos no que tange à redução do trabalho manual e, no caso da colheita, na extinção das queimadas, por outro lado, levantam dúvidas sobre até que ponto, mesmo que hegemônicas e inexoráveis para o futuro do setor sucroenergético, também não precisam ainda ser aprimoradas de forma a ajudar a compensar eventuais reduções de produtividade no processo, em função de problemas advindos de sua própria implantação, 1 além de propiciar redução futura de custos, quer seja em períodos com safras adversas, quer seja em períodos com boas safras.

Propostas de aperfeiçoamento de tais práticas serão discutidas neste artigo de forma a induzir o desenvolvimento de melhores soluções em relação aos sistemas produtivos e à mecanização do setor.

Histórico da mecanização e influência do Protocolo Agroambiental

A colheita de cana-de-açúcar no Brasil não começou tal qual atualmente é realizada. De fato, iniciou-se com o corte manual, queimadas, e apenas o carregamento era mecânico. Nas décadas de 1950 e 1960, começaram as melhorias no corte mecanizado com a importação das primeiras máquinas vindas da Austrália, mas tais máquinas ainda exigiam a queimada da cana--de-açúcar. Na época, esse procedimento não era visto como um problema, ainda sem a preocupação ambiental de hoje.

A primeira experimentação de corte de cana-de-açúcar mecanizado foi realizada em 1956, com um equipamento importado. Nos anos 1970, as primeiras configurações de máquinas como as de hoje começaram a ser produzidas no Brasil seguindo a mesma tecnologia australiana da década de 1950, com colheita de cana picada. Cabe salientar que, nesse período, existiram também colhedoras que utilizavam o processo de colheita de cana inteira. Em São Paulo, a colheita mecanizada teve início em 1973, com a utilização da tecnologia importada, bem como da de fabricação nacional.  O processo de mecanização no cultivo canavieiro se tornou mais acentuado com a implantação do Proálcool, em 1975.

Na década de 1980, ainda havia a dúvida a respeito de qual processo de colheita deveria ser utilizado: o da cana picada ou o da cana inteira. Na época, existia um tipo de colhedora que cortava a cana em sua base e depois tombava o colmo inteiro na superfície do solo. Todavia era necessário recolher a cana-de-açúcar do chão, o que, além do custo muito alto, gerava uma grande quantidade de impurezas.

Foi somente a partir da década de 1990 que a opção pela cana picada na colheita se consolidou como rota tecnológica vencedora. Essa proposta para colheita mecanizada teve origem em virtude de questões sociais, econômicas e tecnológicas que ocorreram na Austrália e em Cuba, na segunda metade do século XX, com o intuito de eliminar a operação de carregamento necessária no sistema que manuseia colmos inteiros. Entretanto, mesmo nesse caso, ainda nos anos 1990, visava-se à recuperação apenas dos colmos, sendo a palha eliminada da forma mais econômica possível, normalmente por meio da queima, ou, no caso da colheita da cana crua, deixada no campo para conservação do solo [Braunbeck e Magalhães (2010)].

Apenas com a evolução das colhedoras em relação à potência e, sobretudo, com as maiores restrições impostas pelo Protocolo Agroambiental celebrado, em 2007, entre as usinas paulistas e o governo de São Paulo, o setor passou a buscar integralmente a colheita da cana crua.

O Protocolo Agroambiental de São Paulo se traduziu em medida legal em defesa do meio ambiente, já que a queima da palha da cana-de-açúcar é uma das grandes responsáveis pela emissão de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera. Além disso, seria um caso de saúde pública, visto que há um aumento substancial no número de doenças respiratórias entre crianças e idosos, principalmente nas cidades limítrofes da produção canavieira, o que teria gerado infindáveis processos na justiça contra as usinas.

O protocolo antecipou os prazos legais paulistas para a eliminação da 421 prática da queima, de 2021 para 2014 nas áreas onde é possível realizar a colheita mecanizada e de 2031 para 2017 nas áreas para as quais não existe a tecnologia adequada para a mecanização. O citado protocolo é um acordo voluntário pioneiro que conta com a adesão de mais de 170 unidades agroindustriais e 29 associações de fornecedores, que juntos representam mais de 90% da produção paulista. 2

Cabe destacar que o trabalho de corte de cana-de-açúcar crua realizado por uma colhedora equivale ao trabalho de oitenta a cem homens. Sem a queima da palha, o corte manual é considerado inviável por causa dos riscos de acidente. Além disso, a produção homem/dia na cana crua é muito baixa.

Em função disso, a mecanização da colheita cresceu bastante a partir de 2007, evidenciando o papel preponderante desempenhado pela legislação ambiental paulista. Conforme informa a Tabela 4, mais de 80% da cana produzida pelas usinas já é colhida mecanicamente no Centro-Sul, aumento de quase 150% em relação ao nível praticado em 2005.

Tabela 1 | Evolução da mecanização agrícola na cana-de-açúcar na Região Centro-Sul, 2005-2012 (em %)

tabela1-evolucao-mecanizacao-agricola-cana-de-acucar-regiao-centro-sul

Em relação ao plantio, o processo manual, por muito tempo, foi hegemônico no Brasil. Contudo, a partir dos anos 1990, com o início da colheita mecanizada, começava também a crescer o interesse pela mecanização do plantio. Anos depois de a evolução da colheita mecânica ser acelerada, em face dos protocolos ambientais a favor do fim das queimadas, o plantio mecanizado foi ocupando seu espaço em função, principalmente, da crescente falta de mão de obra no campo, em virtude de a colheita mecanizada ter dispensado contingentes que estariam disponíveis para atuar nos três meses que envolvem o plantio. Conforme evidencia a Tabela 4, o plantio mecânico já representa quase 60% das áreas próprias das usinas na Região Centro-Sul, nível quase sete vezes superior ao verificado em 2007.

1 Tais como: na colheita – maior tráfego na lavoura, o que gera maior pisoteamento e, portanto, compactação de solo; corte de base mais alto no colmo da cana-de-açúcar, executado pela colhedora, deixando no solo uma porção nobre da cana, pois na base concentra-se muito açúcar – e, no plantio: a necessidade da utilização de maior número de mudas, em relação ao plantio manual, entre outras.

2 Além da queima, o protocolo dispõe sobre outros temas de relevância, como a conservação do solo e dos recursos hídricos, a proteção das matas ciliares e recuperação de nascentes. Tal movimento acerca da legislação em prol do término da queima teria se iniciado em 2002, quando entrou em vigor a Lei das Queimadas, Lei 11.241, de 19 de setembro de 2002, em São Paulo. O referido protocolo foi fundamentado nessa lei.

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