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Desenvolvimento genético da cana-de-açúcar: histórico e a experiência brasileira


novaCana.com - 16 ago 2013 - 12:08 - Última atualização em: 27 ago 2014 - 17:08

A história da cana-de-açúcar no Brasil é secular e, em diversos momentos, confunde-se com a própria história do país, que atualmente é o maior produtor de cana do mundo, mesmo com a queda na competitividade da indústria. Nas últimas três safras, a produção nacional girou em torno de seiscentos milhões de toneladas de cana (MTC), atingindo seu recorde de 620 MTC na safra 2010-2011, quando esse volume gerou quase 38 milhões de toneladas de açúcar e mais de 27 bilhões de litros de etanol.

Esses valores são expressivos, sobretudo quando comparados ao cenário vigente no período imediatamente anterior ao início do Proálcool, marco na história dos biocombustíveis no Brasil. Na safra 1975-1976, a produção nacional de cana foi de 68,3 MTC, volume que gerou apenas 0,6 bilhão de itros de etanol e 5,9 milhões de toneladas de açúcar.

Esse aumento da produção reflete não apenas os esforços de investimento produtivo dos grupos econômicos do setor, mas também significativos esforços de P&D agrícola e industrial, que se revelaram fundamentais para o êxito da cultura da cana nessas últimas décadas. De fato, a inovação desempenhou papel de destaque durante esse período, especialmente a partir do Proálcool, que possibilitou o uso de biocombustíveis em larga escala.

A associação entre inovação na cadeia produtiva da cana e o Proálcool é constante na literatura. 1 Contudo, Dunham, Bomtempo e Fleck (2011) demonstram que a estruturação do Sistema de Produção e Inovação Sucroalcooleiro (SPIS)2 no período anterior ao Proálcool foi essencial para o sucesso desse programa e, consequentemente, do setor nos anos seguintes. 3

A análise dos autores compreende o período entre 1875 e 1975, quando importantes eventos e atividades contribuíram para formar as principais bases da futura pesquisa agrícola no setor, foco desta seção. Entre esseseventos, os autores apontam o surgimento do mosaico da cana na década de 1920 como fator determinante para a estruturação do SPIS. O mosaico devastou boa parte da lavoura de cana, notadamente no estado de São Paulo, que ainda não figurava entre os maiores produtores de cana do Brasil. Para superar a crise, dois elementos foram essenciais: (i) direcionar a pesquisa agrícola (P&D); e (ii) alterar a conduta dos empresários da época (difusão tecnológica).

A estratégia vencedora para direcionar a pesquisa agrícola foi a seleção de variedades de cana existentes tanto no Brasil quanto no exterior. Essa atividade ocorreu na Estação Experimental de Cana de Piracicaba (EECP) e em outras oito usinas paulistas com seus campos de experimentação próprios. Na visão de Dunham, Bomtempo e Fleck (2011), essa relação que se estabeleceu entre a instituição pública de pesquisa e as empresas do setor se revelou fundamental para o sucesso da empreitada, já que permitiu ampla difusão das novas variedades e das técnicas de manejo mais adequadas. 4

Nesse contexto, a superação da crise do mosaico foi um evento importante em si, mas ainda mais importante por seu legado à pesquisa agrícola.

O início da década de 1930 trouxe um dos mais complexos motores de transformação do SPIS. Trata-se do motor de desenvolvimento de variedades de cana-de-açúcar. A transformação do SPIS ocorreu 403 em torno da mesma tecnologia básica: desenvolvimento/seleção de variedades de cana. Entretanto, a motivação não era mais vencer o mosaico. O objetivo era aumentar a produtividade agroindustrial por meio da maximização do rendimento agrícola, o que seria obtido com o desenvolvimento de variedades de maior conteúdo de sacarose e de maior resistência a pragas e doenças [Dunham, Bomtempo e Fleck (2011, p. 57);].

Como identificam os autores, o modelo empreendido pela EECP para pesquisa, por meio da seleção de variedades, e para difusão tecnológica, por meio de redes com agentes produtivos, foi futuramente replicado por importantes instituições no melhoramento genético da cana, como pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC), quando este sucedeu à EECP, em 1935, e pelo Centro de Tecnologia da Coopersucar (CTC), criado em 1969. 5 Além disso, é interessante notar que a relação entre instituições de pesquisa e agentes produtivos de São Paulo provocou a capacitação das usinas paulistas e a mobilização de recursos para incrementar a produtividade de seus negócios.

O modelo criado nas décadas de 1920 e 1930 também serviu de base para a criação do Plano Nacional de Melhoramento de Cana-de-Açúcar (Planalsucar), em 1971, sob responsabilidade do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). Como destacado em Dunham (2009), a criação do Planalsucar foi a resposta às demandas por aumento de produtividade agrícola, que deveria se traduzir em ganhos de competitividade do açúcar brasileiro no mercado externo. Nas palavras do autor:

"A criação do Planalsucar tinha por objetivo reunir as condições técnicas e administrativas destinadas à implementação de projetos de pesquisa em genética, fitossanidade e agronomia, com o objetivo principal de obter novas variedades de cana, com alto índice de produtividade e adaptadas às condições de solo e clima" [Dunham(2009, p. 4)].

O Planalsucar contou com várias estações experimentais pelo Brasil, com foco no desenvolvimento de novas variedades de cana e de novas técnicas de manejo, na análise de solos e fertilizantes, entre outros. Como defendem Dunham (2009) e Dunham, Bomtempo e Fleck (2011), o Planalsucar incrementou capacidade de gerar variedades e, consequentemente, de aumentar a produtividade da cultura. Com a criação do Proálcool, tal capacidade ampliou-se ainda mais, o que permitiu lançar, entre 1977 e 1988, 19novas variedades pelo Planalsucar.

A despeito de seu sucesso, o Planalsucar foi influenciado pela mudança da conjuntura econômica na segunda metade da década de 1980. Como destacado em Milanez, Cavalcanti e Faveret Filho (2010) e Milanez e Nyko (2012), a redução persistente dos preços do petróleo a partir de 1986 levou à retirada gradual dos incentivos estatais ao setor sucroalcooleiro, processo concluído apenas em 1999. Nesse novo contexto, o Planalsucar foi transferido do IAA, que seria extinto em 1990, para o Ministério da Agricultura em 1988.

Em termos práticos, tal medida significou a descontinuação do Planalsucar. No entanto, para substituí-lo e dar lugar a seus antigos ativos e pesquisadores, sete universidades federais firmaram convênio entre si e assumiram os trabalhos de melhoramento genético da cana, criando a Rede Interuniversitária de Desenvolvimento do Setor Sucroalcooleiro (Ridesa) 6 [Dunham (2009)].

A Ridesa vem obtendo resultados positivos no trabalho herdado do Planalsucar. Em vinte anos de existência (1991-2011), a instituição liberou 65 novas variedades desenvolvidas nas 31 estações experimentais que lhe pertencem. 7

Além da Ridesa, outro importante ator da pesquisa agrícola no SPIS é o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC). Como dito anteriormente, o CTC nasceu no fim da década de 1960 como instituição de pesquisa da Copersucar, tradicional trading de açúcar e etanol do setor. Com a criação do CTC, as usinas de São Paulo almejavam variedades de cana e tecnologias industriais cada vez melhores, de modo a permitir incrementos constantes de produtividade.

Em 2004, o CTC passou por sua primeira grande mudança institucional, quando deixou de ser Centro de Tecnologia Copersucar para se tornar Centro de Tecnologia Canavieira. Essa reestruturação do CTC buscou transformá-lo no "principal centro de desenvolvimento e integração de tecnologias disruptivas da indústria sucroenergética", 8 expandindo suas atividades para todas as regiões canavieiras do Brasil.

Em 2011, o CTC passou novamente por uma grande mudança, tornando-se uma empresa de Sociedade Anônima. Hoje, seus acionistas são responsáveis por cerca de 60% da moagem de cana da Região Centro-Sul do Brasil, o que facilita a difusão de inovações. Na avaliação geral de Dunham, Bomtempo e Fleck (2011, p. 59), o diferencial desse arranjo paulista reside na "precisão da combinação de variedades e técnicas de cultivo". Com o maior banco de germoplasma do mundo, o CTC lançou 24 novas variedades no mercado no período entre 2005 e 2011.

Em síntese, a história da dinâmica da pesquisa agrícola e dos eventos e das atividades a ela relacionados mostra como se formou o SPIS que hoje vigora no Brasil. Ridesa e CTC são os dois principais atores desse sistema, mas convivem com outras importantes empresas e instituições, como o IAC. Contudo, como avaliam Dunham, Bomtempo e Fleck (2011, p. 59), os resultados não foram homogêneos. Nas palavras dos autores:

"O primeiro [resultado distinto] foi o fortalecimento da produtividade agroindustrial de São Paulo. As empresas participantes do trabalhocom o IAC ou com o CTC tiveram acesso a uma ampla rede de difusão de conhecimentos. [...] A mobilização de recursos das empresas paulistas foi indispensável para alcançar estes resultados. O reconhecimento da importância dos trabalhos de experimentação agrícola culminou na criação do CTC, que, além de fortalecer a assistência técnica, passou a gerar tecnologias e conhecimentos próprios. "

Outro ponto destacado pelos autores é o caráter exógeno das inovações, ou seja, usinas sucroenergéticas são usuárias de tecnologia e dependem de seus fornecedores e parceiros para darem saltos tecnológicos. Todavia, é igualmente importante ressaltar que o arranjo consagrado em São Paulo contempla o CTC, empresa privada cujos acionistas são as próprias usinas de açúcar e etanol. Isso não significa dizer que as instituições públicas de pesquisa não tiveram relevância nesse estado. Pelo contrário, o papel dessas instituições vem sendo fundamental para garantir aumentos de produtividade agrícola da cana [Dunham, Bomtempo e Fleck (2011)]. A diversificação de variedades no canavial é fator de segurança e ativo estratégico para os agentes produtivos. Da mesma forma, é salutar para o mercado haver diferentes atores provedores de tecnologia agrícola, incluindo novas variedades de cana.

1 Ver, por exemplo, Ueki (2007), BNDES (2008) e Maia (2010).
2 Segundo os autores, o conceito de sistema de inovação (SI) foi utilizado porque "oferece uma visão abrangente da inovação, possibilitando identificar os agentes envolvidos e o papel por eles desempenhado. [...] Ao se utilizar a abordagem de SI, é possível compreender como os agentes (empresas, instituições de pesquisa, fornecedores de tecnologias etc.) se relacionam entre si. A análise destas relações se mostra fundamental para entender como o Sistema de Produção e Inovação Sucroalcooleiro – SPIS estava estruturado antes do lançamento do Proálcool" [Dunham, Bomtempo e Fleck (2011, p. 37)].
3 Os autores argumentam que açúcar e etanol, apesar de estarem inseridos em mercados distintos, são obviamente produtos bastante relacionados, já que têm origem na mesma matéria-prima. Por essa razão, inovações desenvolvidas nessa cadeia, especialmente para a etapa agrícola, têm potencial para gerar efeitos positivos em ambos os mercados. Desse modo, concluem os autores que "ainda que tenham sido motivadas para a produção açucareira, diversas atividades influenciaram a estrutura disponível quando da implementação do Proálcool" [Dunham, Bomtempo e Fleck (2011, p. 38)].
4 Segundo Dunham, Bomtempo e Fleck (2011), essa rede de oito usinas representava 55% da produção paulista de açúcar, o que facilitava a difusão tecnológica no período.
5 Os autores argumentam que havia outras iniciativas de melhoramento genético de cana no período, tal como ocorria na Estação Experimental de Cana de Campos (EECC), no norte fluminense, onde novas variedades eram desenvolvidas. Contudo, o sucesso das iniciativas não foi uniforme. O estado de São Paulo foi aquele que obteve os resultados mais significativos. Entre os fatores explicativos, os autores chamam atenção para a rede formada entre instituições de pesquisa (principalmente o IAC) e os agentes produtivos, o que garantia assistência técnica e difusão tecnológica das inovações. Esse arranjo institucional não foi eficiente em outros estados. As novas variedades desenvolvidas no EECC,  por exemplo, eram recomendadas e difundidas pelo IAC.
6 As universidades que originalmente compuseram a Ridesa são: Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Universidade Federal de Sergipe (UFSE), Universidade Federal de Viçosa (UFV), Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) e Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ao longo dos anos, outras três universidades foram incorporadas à Ridesa: a Universidade Federal de Goiás (UFG), a Universidade Federal do Piauí (UFPI) e a Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT).
7 Informações obtidas em: <http://www.ridesa.agro.ufg.br/pages/38059>. Acesso em: 16 jan. 2013.
8 Disponível em: <http://www.ctcanavieira.com.br/nossahistoria.html>. Acesso em: 16 jan. 2013.

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