Estudos

A evolução da produtividade da cana-de-açúcar


novaCana.com - 16 ago 2013 - 11:08 - Última atualização em: 27 ago 2014 - 17:08

Desde que o Brasil, antes de iniciar o Pro-álcool, estruturou um Sistema de Produção e Inovação Sucroalcooleiro (SPIS), os resultados não tardaram a chegar por meio de melhores variedades de cana (melhoramento convencional) e melhores práticas agronômicas. Como efeito, os últimos quarenta anos testemunharam ganhos substanciais da produtividade agrícola, que é uma boa medida para avaliar o desempenho das inovações no período. O Gráfico 1 mostra a evolução da produtividade média desde a criação do Proálcool até o período recente.

Em 1975, a produtividade agrícola média girava em torno de 45 toneladas de cana por hectare (t/ha). Já na década passada, esse valor esteve em torno de 75 t/ha, chegando a mais de 80 t/ha em alguns anos. Também se observa tal crescimento quando são considerados outros indicadores. Por exemplo, nos dez primeiros anos de Proálcool, eram produzidos, em média, 6.400 kg de ATR/ha plantado com cana. De 2005 até 2012, o valor médio para esse indicador foi de cerca de 10.509 kg de ATR/ha.

Se, por um lado, é amplamente reconhecido o crescimento de produtividade da cultura da cana desde a criação do Proálcool, pelo outro, esse crescimento não vem sendo uniforme ao longo do tempo. A Tabela 1 exibe os ganhos de produtividade, desde a criação do Proálcool, em 1975.

Há decréscimo das taxas de crescimento a cada período analisado, o que produz o alerta sobre a performance recente da inovação agrícola. 1 Essaqueda é ainda mais pronunciada se as duas últimas safras forem consideradas, quando a produtividade agrícola estagnou-se e, até mesmo, reduziu-se de maneira surpreendente (Gráfico 1).

grafico1-evolucao-da-produtividade-agricola-entre-1975-e-2012

tabela1-produtividade-media-e-crescimento-de-produtividade-entre-periodos

Quando comparados os rendimentos aos de outras culturas, o patamar de produtividade alcançado pela cana chega a ser decepcionante. Os gráficos 2 e 3 demonstram a discrepância desses ganhos nas últimas décadas.

Apesar de haver crescimento, esses números refletem a defasagem entre os ganhos de produtividade em cana e em cereais, tanto no Brasil quanto no mundo. A situação surpreende ainda mais se for considerado o rendimento teórico máximo da cana-de-açúcar. Diversos trabalhos estimam esse potencial. Em Waclawovsky (2010) apud Dal-Bianco (2011), o rendimento teórico máximo da cana é superior a 380 t/ha, enquanto em Moore (2009) chegou a 472 t/ha. Mesmo que esses potenciais não sejam plenamente alcançados na prática, eles oferecem uma ideia da dimensão da defasagem tecnológica hoje existente. Na última safra, por exemplo, o rendimento médio foi inferior a 70 t/ha na Região Centro-Sul do Brasil.

grafico2-ganho-produtividade-mundial-historia

Além dos indicadores de produtividade, é possível avaliar o desempenho das inovações tecnológicas por meio de outros dois indicadores: o Índice de Atualização Varietal (IAV) e o Índice de Concentração Varietal (ICV), cujos resultados são exibidos Gráfico 4. O IAV é uma medida de difusão tecnológica, ou seja, avalia o ritmo com que as novas variedades lançadas são absorvidas nos canaviais brasileiros. 2

Em CTC (2012), é utilizada a seguinte classificação para esse índice: (i) valores altos e não recomendáveis são aqueles acima de sete anos; (ii) valores intermediários oscilam entre cinco e sete anos; e (iii) valores baixos e adequados são aqueles inferiores a cinco.

grafico3-ganho-de-produtividade-historico-brasil

grafico4-censo-vairedades-brasil

Por sua vez, o ICV busca avaliar o grau de concentração das principais variedades no canavial brasileiro. 3 Esse índice sinaliza o grau de dependência do canavial em relação às principais variedades utilizadas e, consequentemente, os riscos associados a essa dependência. Segundo a classificação do CTC (2012): (i) valores maiores que 50% são considerados altos e não recomendados; (ii) valores entre 40% e 50% são intermediários; e (iii) valores inferiores a 40% são considerados baixos e ideais.

Por meio do cenário traçado pelo Gráfico 4, pode-se depreender que variedades mais antigas vêm ocupando espaço cada vez maior nas lavouras de cana, ou seja, o ritmo de substituição de variedades antigas por novas variedades está se reduzindo constantemente na última década. Hoje, o IAV está bem próximo de valores não recomendados.

Sintomática também foi a proporção de aproximadamente 60% de variedades protegidas (patentes em vigor) na safra 2011-2012. Significa dizer que cerca de 40% da área brasileira de cana foi plantada com variedades que já caíram em domínio público, ou seja, cujo lançamento ocorreu há pelo menos 15 anos.

Quando se considera apenas o ICV, o resultado é similar. Desde meados dos anos 2000, quando o setor sucroenergético acelerou seu ritmo de expansão, a concentração de variedades nos canaviais cresceu vertiginosamente. Enquanto no começo da década passada o canavial contava com condições ideais (baixa concentração e elevada diversificação de variedades), no início da atual década sua situação encontra-se bastante deteriorada (mas ainda intermediária), o que lhe deixa mais suscetível a novas doenças e a fortes variações climáticas.

Conclui-se, portanto, que o atual SPIS conquistou consistentes ganhos de produtividade na cultura da cana, mas vem enfrentando problemas para manter o ritmo dos resultados alcançados no passado. De fato, o período mais recente pode ser considerado frustrante e, se extrapolado para o futuro, aponta para ganhos de rendimento agrícola cada vez mais reduzidos.

Mas quais são as razões que explicam tais problemas? E quais são seus mecanismos de ação que redundam em efeitos negativos sobre o setor sucroenergético? O tópico a seguir busca responder a essas questões.

1 Outros trabalhos, como Dal-Bianco et al. (2011), também demonstram que os ganhos de produtividade estão se tornando cada vez menos pronunciados, ou seja, há crescimento, mas seu ritmo é decrescente.
2 O IAV "é obtido pela diferença entre o ano atual e o ano de cruzamento da variedade, ponderado pela porcentagem de utilização de cada variedade, na região estudada. Do valor obtido, são subtraídos 20 anos correspondentes ao número médio de anos que uma variedade demora para atingir o seu ápice" [CTC (2012, p. 2)].
3 O ICV é "obtido com base na participação porcentual das três principais variedades na região estudada" [CTC (2012, p. 2)].

Tags: novaCana.com