Indústrias sucroenergéticas por todo o Brasil vivenciaram dificuldades na última década – e o Paraná sentiu a crise com bastante intensidade, graças a características específicas da região. O resultado desse processo veio com a estagnação da produção e uma perda de receita bilionária para a indústria do estado. Agora, é preciso encontrar caminhos para destravar um potencial adormecido.

novaCana.com 17 set 2018 - 08:09 - Última atualização em: 17 set 2018 - 11:09

Um dos mais importantes segmentos do agronegócio nacional, o setor sucroenergético vivenciou momentos incertos nos últimos anos, tropeçando em dificuldades financeiras, políticas públicas desvantajosas e nas flutuações do mercado internacional de açúcar. O Paraná não foi uma exceção.

A estagnação produtiva paranaense foi intensa. O estado, que chegou a ser o segundo maior produtor nacional de cana-de-açúcar em 2008/09, atualmente ocupa o quinto lugar no ranking de produção brasileira, conforme dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Naquela época, a promessa de futuro era de crescimento, com volumes e cifras muito mais volumosos do que os dados apontam atualmente.

Considerando ainda outros indicadores, como área plantada, produtividade e produção de açúcar, etanol e energia elétrica, fica evidente porque o Paraná sofreu – e ainda sofre – mais que os demais estados para se recuperar.

Em 2011, um estudo realizado por Ana Selena Fernández Lucius, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), trazia uma capacidade de crescimento da cultura de cana-de-açúcar no estado que não se refletiu nas safras mais recentes.

O estudo mostra que, à época, 30 unidades estavam instaladas no Paraná, de acordo com o Mapa, e a perspectiva era que cinco novos projetos iniciassem as atividades nos anos seguintes.

Ainda assim, segundo o presidente da Associação de Produtores de Álcool e Açúcar do Estado do Paraná (Alcopar), Miguel Rubens Tranin, o estado possui pouco mais de 20 unidades ativas atualmente. Ou seja, a perspectiva de crescimento deu lugar a uma realidade de retração.

especial pr mapa usinas

Com a diminuição de usinas, a situação atual é de deterioração. Em fevereiro deste ano, duas unidades do grupo Sabarálcool perderam suas autorizações para a produção de etanol. Enquanto isso, o futuro das unidades do grupo Renuka Vale do Ivaí (em recuperação judicial) permanece incerto. Para completar, o maior grupo do estado, e um dos maiores do Brasil, a Usina Santa Terezinha, paralisou duas de suas unidades nos últimos anos devido à falta de cana-de-açúcar.

Este quadro recente contradiz o histórico promissor. Levando em conta aspectos como a localização privilegiada do Paraná, que facilita tanto o escoamento de açúcar quanto o de etanol, o estado poderia passar pela crise com mais tranquilidade. Mas, na prática, uma conjunção de fatores tiraram a perspectiva de protagonismo.

Canaviais, as usinas a céu aberto

A queda na produção de cana é o efeito mais visível da situação paranaense. Uma forma de demonstrar a redução na cultura no estado é direcionar o olhar para o aumento produtivo de dez em dez anos: entre 1970 e 1980, o crescimento médio da colheita foi de 326%; de 1980 para 1990, esse número passou para 208%; de 1990 para 2000, o índice foi de 176%; e de 2000 para 2010, de 110%.

Com os dados atualizados, entre 2011 e 2018, os aumentos da produção, que antes eram superiores a 100%, deram lugar a uma redução de 13%. Na safra 2017/18, a moagem foi 37,47 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, enquanto o volume na safra anterior foi de 42,21 milhões de toneladas, segundo dados do Mapa.

No auge de sua produção, na safra 2009/10, o Paraná chegou a colher 45,50 milhões de toneladas de cana. Dessa forma, atualmente, o estado está distante dos aumentos na moagem atingidos anteriormente.

especial pr historico cana

No panorama nacional, o Paraná foi o quinto maior produtor em 2017/18, ficando atrás de São Paulo (349,2 mi t), Goiás (70,6 mi t), Minas Gerais (65 mi t) e Mato Grosso do Sul (46,9 mi t). Mesmo sem uma expansão na área plantada, o potencial paranaense possibilitaria um resultado ainda maior.

Mas ele não acontece porque uma das consequências mais evidentes da crise no setor sucroenergética do estado foi a queda de produtividade tanto na indústria quanto no campo. Especificamente na parte agrícola, ou seja, em relação à quantidade de cana que é colhida por hectare, o Paraná alcançou os piores níveis do Brasil dentre os principais produtores.

Conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o desempenho paranaense aparece em nono lugar na temporada 2017/18, ficando abaixo da média nacional de 73,1 toneladas de cana-de-açúcar por hectare. Enquanto o estado colheu 64,2 t/ha, o Mato Grosso do Sul obteve 70,5 t/ha e Minas Gerais, que teve a melhor produtividade, 78,8 mi t/ha.

especial pr produtividade

Portanto, se o Paraná fosse tão produtivo quanto Minas Gerais – mantendo a atual área plantada, sem fazer qualquer expansão –, poderia ter colhido 45,9 milhões de toneladas de cana na safra 2017/18. O volume é 22,4% superior ao que foi produzido.

Dificuldades no caminho

Alguns dos principais motivadores desse quadro negativo em relação à produtividade estão no clima e na falta de dinheiro para cuidar dos canaviais. Uma estiagem em 2012 e geadas em 2015 impactaram o plantio, refletindo nas safras seguintes. Já no início da temporada atual, uma nova estiagem atingiu o período de plantio, prejudicando o desenvolvimento das plantas.

Este cenário, acompanhado da queda de investimentos, afetou de forma mais intensa a renovação dos canaviais no Paraná. Com isso, os rendimentos agrícola e industrial da cana colhida também caíram, um efeito negativo que pode ser duradouro.

Além disso, um ponto levantado por Tranin como agravante para a queda de produtividade foi a maneira como foi realizada a mecanização: “Rápida e pouco estruturada”. De acordo com ele, que também é vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), como o estado possui solos mais argilosos em comparação com outras regiões, a mecanização pesada gerou compactação, o que é negativo para a cultura da cana.

“É uma soma de fatores. A questão climática, a financeira e a adequação tecnológica no plantio e na colheita da cana: tudo isso fez o Paraná perder a liderança de produtividade. Mas estamos buscando recuperar o que perdemos”, Miguel Rubens Tranin

Ele ainda relata que, mesmo em áreas mais arenosas, as colhedoras não estavam devidamente ajustadas. “Acabamos tendo perdas de lavoura e uma redução de produtividade muito drástica”, aponta. Segundo ele, a duração da cana no campo caiu de cinco para três cortes e, com isso, o retorno financeiro dos produtores foi prejudicado: “O pessoal acabou perdendo em produtividade, não conseguindo fazer a renovação na velocidade necessária”.

Potencial financeiro inalcançado

Monetariamente, é possível estimar quanto o estado perdeu com a baixa produtividade. De acordo com o Mapa, os produtores de Minas Gerais movimentaram R$ 7,05 bilhões de reais com a venda da cana em 2017. Considerando a moagem estadual de 64,81 milhões de toneladas, os canavieiros mineiros receberam cerca de R$ 108,85 por tonelada vendida.

O número se refere ao Valor Bruto da Produção (VBP), uma estimativa da geração de renda do meio rural utilizada para acompanhamento do desempenho do setor. O Paraná, com a moagem de 37,75 milhões de toneladas, recebeu 4,78 bilhões de reais, ou seja, R$ 126,88 por tonelada de cana.

especial pr vbp

Assim, se o estado usasse a potencialidade que já possui, com a mesma área plantada e o mesmo valor pago pela tonelada de cana, mas com uma produtividade elevada como a de Minas Gerais, poderia movimentar R$ 5,8 bilhões – R$ 1,02 bilhão a mais só em 2017. Isso sem considerar o valor agregado da venda de produtos como o açúcar, o etanol e a bioeletricidade.

Empecilhos à expansão

Essa baixa produtividade dos canaviais no Paraná é só um dos fatores que fizeram o estado perder o brilho que teve no passado. Outra razão determinante está relacionada à área plantada, que perdeu bastante espaço para outras culturas. Conforme a Conab, o estado chegou a ter 635 mil hectares de cana em 2014/15, número que caiu para 570,3 mil hectares na atual safra.

Miguel Tranin, inclusive, aponta que o plantio de cana-de-açúcar possui fortes concorrentes – um quadro que não se repete com tanta força em outros estados. “Toda a soja e o milho se transformam em frango e porco. Então, as usinas não concorrem só com os grãos, mas também com a pecuária, que agrega muito mais valor”, esclarece.

Com o fraco rendimento agrícola da cana e as dificuldades financeiras das usinas, os grãos avançaram ainda mais. Assim, o estado não perdeu apenas em redução de unidades, mas também em área de cana plantada. “O açúcar e o etanol estão com preço muito baixo e a soja e o milho, com o preço explodindo”, explica.

De acordo com Tranin, há uma tendência das unidades irem para o extremo noroeste do estado, onde a competitividade com o milho e a soja é menor, pois o solo é mais arenoso. Atualmente, das 30 usinas instaladas, dez estão na região, com a maior parte das demais dividida entre o norte central e o norte pioneiro.

Investimentos baixos e esparsos

Também é preciso considerar que o Paraná sofreu as consequências da crise que atingiu as sucroenergéticas brasileiras. Por todo o país, as companhias precisaram enxugar os custos e passaram a investir menos.

Com isso, muitas usinas entraram em um ciclo vicioso. Os problemas de produção prejudicam ainda mais a receita e agravam a situação financeira, dificultando a obtenção de empréstimos e financiamentos que seriam utilizados justamente para os investimentos mínimos necessários. O resultado é uma intensificação dos problemas agrícolas e, consequentemente, ainda mais dificuldade para a captação de recursos.

Os relatórios divulgados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) comprovam essa situação. O banco estatal é uma das principais fontes de captação de recursos para usinas do Brasil e, portanto, é um bom termômetro para entender como os empréstimos – ou a falta deles – impactaram o Paraná.

especial pr investimentos

Nos últimos 15 anos, o banco financiou 33 projetos do setor sucroenergético no estado, somando R$ 1,2 bilhão. Destes, a maior quantia – R$ 727,42 milhões – e a maior parte – 42,42% – foram destinadas para o plantio de cana. Em uma comparação crua, nos mesmos anos, o estado de São Paulo teve 741 projetos financiados, acumulando R$ 17,16 bilhões investidos.

Relacionando os financiamentos com a média da produção de cana-de-açúcar em cada estado nestes 15 anos, São Paulo recebeu 71,9% mais investimentos por tonelada do que o Paraná. Enquanto o estado paulista registrou aplicações de, aproximadamente, R$ 55,90 por tonelada produzida, o paranaense recebeu apenas R$ 32,50/t.

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A nível nacional, nas últimas dez safras, o Paraná foi responsável por 6,77% de toda a produção de cana-de-açúcar brasileira. Ainda assim, só recebeu 3% dos investimentos feitos pelo banco no mesmo período, uma diferença de 55% entre os indicadores.

especial pr participações

Dentro do estado, o grupo sucroenergético que mais recebeu financiamentos é a Usina Santa Terezinha, com 27 projetos entre 2003 e 2014, acumulando R$ 977,12 milhões. A maior parte dos financiamentos da empresa junto ao BNDES se destinaram à expansão e modernização industrial, com R$ 178,25 milhões, sendo que os últimos projetos com esse objetivo foram em 2008.

Por outro lado, os projetos relacionados ao plantio de cana-de-açúcar, que vêm em segundo lugar em quantidade, acumularam R$ 540,76 milhões em financiamentos. O mais recente foi em 2014, última vez que o grupo sucroenergético recebeu investimentos do banco.

Já o setor de cogeração, que, nacionalmente, foi o quarto a receber mais financiamentos nos últimos 15 anos, teve apenas três projetos no Paraná. Eles foram autorizados em 2005, todos para a Santa Terezinha, totalizando R$ 100,25 milhões. Desde então, o setor de bioeletricidade paranaense não recebeu investimentos do banco.

Energia potencial, transmissão escassa

Se a céu aberto o Paraná vem passando por dificuldades, dentro das usinas a situação não é diferente. Um dos grandes vetores de desenvolvimento da indústria sucroenergética é a geração de eletricidade a partir do bagaço de cana, um fator que, inclusive, ajudou grandes empresas a lidarem com situações de crise.

Segundo o analista e sócio-fundador da consultoria FG/A, Juliano Merlotto, a geração de energia funciona como um "abatedor de custos" para as usinas de açúcar e etanol. Com a produção da bioeletricidade, é possível reduzir custos unitários, lucrar com a venda do excedente e aproveitar ao máximo a cana-de-açúcar que sai do campo.

O problema é que o Paraná deixou a desejar também neste aspecto, com pouca participação e baixos investimentos das usinas na área de eletricidade. Das 200 empresas do setor sucroenergético que não só utilizam a biomassa como principal fonte de energia na maior parte do ano, mas também comercializam o excedente, apenas nove delas são paranaenses.

Para Miguel Tranin, a maior dificuldade para a expansão da cogeração paranaense está além do alcance das usinas. “O Paraná, nos últimos quatro ou cinco anos, teve capacidade de gerar entre 900 a 1 milhão de MWh por ano, mas a grande necessidade do estado é em relação às linhas de transmissão”, afirma.

Ele explica que, se mais unidades iniciarem a cogeração de eletricidade, a Companhia Paranaense de Energia (Copel) precisaria investir em novas linhas ou em potencializar as já existentes. De acordo com o presidente, as linhas de transmissão disponíveis hoje não são suficientes para distribuir todo o potencial de geração de energia das usinas de cana.

Tranin ainda cita um estudo encomendado pela Alcopar e pela Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP). No documento, ele demonstra que o potencial para a produção de energia de biomassa no estado é grande, especialmente por demandar um investimento relativamente baixo e sem impacto ambiental.

“A Copel teria que fazer esse planejamento para que, em um futuro próximo, possamos ter mais usinas cogerando energia elétrica. Poderíamos chegar a 3 GWh por ano e há demanda”, Miguel Rubens Tranin

“Por mais que tenhamos a Itaipu – que tem energia de sobra –, ela é nacional, não do Paraná. Então, temos carência na transmissão de energia e este seria um investimento urgente no estado”, defende o presidente.

Segundo os dados apresentados, a energia produzida pelas usinas seria suficiente para suprir toda a demanda de Curitiba e Maringá juntas. “Trata-se de uma grande oportunidade para o estado e também para as empresas sucroenergéticas”, salienta Tranin, indicando que este poderia ser um caminho para a retomada do crescimento do setor.

A cogeração paranaense em contexto

Por enquanto, o Paraná está na quinta posição nacional tanto na capacidade de cogeração quanto na média do total gerado nos últimos anos. Em 2017, por exemplo, São Paulo foi responsável por aproximadamente 53% da bioeletricidade gerada no país. Em seguida vieram Mato Grosso do Sul (13%), Minas Gerais (12%) e Goiás (12%). O Paraná vem na sequência, com apenas 3,77% da produção de energia no ano passado, o que corresponde a 809,15 GWh.

especial pr ranking geracao

Para efeitos de comparação, o Mato Grosso do Sul foi o estado que mais produziu energia em relação à produção de cana em 2017, com 2.991,62 GWh e uma moagem de 46,9 milhões de toneladas, ou 63,78 kWh/t. Se o Paraná rendesse da mesma forma, ele poderia ter produzido 2.391,75 GWh, ante o resultado efetivo de 809,15 GWh – um aumento de 195%.

Observando esses números e a média do valor da venda de bioeletricidade no mercado spot nos últimos três anos, conforme dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, as usinas do Paraná deixaram de receber aproximadamente R$ 365,61 milhões só com a venda de energia em 2017.

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Para Miguel Tranin, a cogeração poderia representar um aumento de 15% a 20% no fluxo financeiro das empresas, com reflexos positivos para a economia do Paraná.

Essa afirmação vai no mesmo caminho dos números apresentados por Merlotto. Ele explica que, em 2017, uma usina sucroenergética média teve fluxo de caixa líquido positivo de R$ 4, graças a uma receita de R$ 8,28 por tonelada obtida com a energia. Assim, caso não tivesse gerado energia, a unidade teria registrado um caixa negativo. Com uma geração de energia mais eficiente, o fluxo de caixa poderia ser ainda mais elevado.

Para Merlotto, a cogeração é uma alternativa mais rentável e atrativa do que operações de fusão e aquisição, por exemplo. “Quem tem capacidade de investir vai preferir a cogeração do que fazer a aquisição de um vizinho. Esse vai ser o direcionamento do capex nos próximos anos”, projeta.

Açúcar tipo exportação

De acordo com Tranin, historicamente, o setor sucroenergético do Paraná sempre foi mais açucareiro que alcooleiro. “Quando se investe na indústria, você compra um pacote pronto. A fábrica de açúcar vai ter uma capacidade e a destilaria usará praticamente só o resíduo, aproveitando o caldo para fazer etanol”, relata.

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Esse perfil se aproveita de um privilégio paranaense: o porto de Paranaguá. Diferente de outros estados produtores, que estão mais distantes das saídas para escoamento do açúcar produzido – e, portanto, concentram-se mais na fabricação de etanol –, o Paraná está bem localizado para exportar a commodity.

Em 2017, com 58% da matéria-prima sendo direcionada para o açúcar, o Paraná estava em terceiro lugar no ranking nacional de produção. Foram 2,93 milhões de toneladas, atrás de São Paulo (23,86 mi t), que possui uma moagem superior e um mix de produção de 52,9%, e Minas Gerais (4,24 mi ton), com 48,7% da produção direcionada para o açúcar.

Com esse montante, o Paraná contribuiu com 7,8% da produção total nacional de 36,9 milhões de toneladas. Por sua vez, Minas Gerais correspondeu a 11,3% e São Paulo, a 64,5%.

especial pr mix estados

Uma quantia considerável deste açúcar é exportada. De acordo com os dados da Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), 28,7 milhões de toneladas de açúcar saíram do país em 2017. Dessas, 2,68 milhões foram produzidas no Paraná – o número equivale a 91,4% da produção do estado no mesmo período.

Além disso, o porto de Paranaguá é a segunda maior saída do açúcar brasileiro via navio. Em 2017, o volume foi de 5,07 milhões de toneladas, movimentando R$ 1,98 bilhão. E, até julho de 2018, os embarques foram de 1,67 milhões de toneladas, gerando uma receita de R$ 563,12 milhões.

De acordo com um levantamento da agência marítima Williams, no primeiro semestre de 2018, o maior grupo sucroenergético do Paraná, o Santa Terezinha, despachou 472,76 mil toneladas.

Inclusive, o Santa Terezinha foi a quarta empresa que mais vendeu açúcar via porão de navio no Brasil, tanto no primeiro semestre de 2018 quanto em todo o ano de 2017. No ano passado, o grupo comercializou 1,34 milhões de toneladas, atrás apenas de Raízen, Copersucar e Biosev.

A segunda maior vendedora de açúcar do estado, a Alto Alegre, despachou, até junho deste ano, 198,3 mil de toneladas.

Mercado interno de etanol

Em contrapartida, a produção paranaense de etanol – que era de 1,5 bilhões de litros em 2011 – tinha perspectiva de crescer para 2,5 bilhões de litros em dez anos, de acordo com o estudo de Fernández Lucius, da UFPR. Na safra 2017/18, no entanto, as usinas paranaenses destilaram 1,29 bilhões de litros entre etanol anidro e hidratado. Ou seja, houve uma redução no volume.

Desde a safra 2014/15, o estado observa quedas na produção do renovável. O recorde da série histórica foi no ciclo 2008/09, quando o Paraná produziu 2,08 bilhões de litros.

especial pr historico etanol

Entretanto, a frota de automóveis, dominada por veículos do tipo flex, traz um grande potencial de mercado – sem contar a escassa produção do biocombustível em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.

Internamente, é possível perceber que o consumidor paranaense prefere gasolina ao etanol. Nos últimos cinco anos, o etanol hidratado teve 31,64% de presença no mercado de combustíveis do Ciclo Otto. Para efeitos comparativos, em São Paulo, o combustível renovável teve 45,39% da preferência dos consumidores no mesmo período. Goiás e Mato Grosso, que também são estados produtores e possuem um etanol historicamente mais competitivo frente à gasolina, registraram índices de 41,8% e 51,1%, respectivamente.

Essa diferença surge porque os consumidores são sensíveis ao preço dos combustíveis e, neste ponto, a incidência tributária sobre o etanol no Paraná dificulta seu ganho de mercado. Conforme dados da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis), em São Paulo, cada litro do renovável paga R$ 0,324 de ICMS, enquanto esse valor passa a ser de R$ 0,531 no Paraná.

Miguel Tranin, da Alcopar, concorda: “Essa diferença permite uma competitividade de preço em São Paulo bem melhor do que aqui [no Paraná]. Lá, é bem mais fácil o etanol ser viável para abastecer”.

Essa distância de pouco mais de R$ 0,20 entre os valores é essencial no cálculo da competitividade do combustível nos postos. Quando o etanol passa a custar mais de 70% do valor da gasolina, a lealdade dos consumidores ao biocombustível já começa a flutuar – e, de janeiro a junho, de acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o etanol paranaense se manteve competitivo durante apenas oito semanas (em São Paulo, foram 11 semanas).

especial pr etanol competitividade

Um olhar mais distante sobre o consumo de etanol e a frota de automóveis deixa claro que os dois fatores nem sempre caminham em conjunto no estado. Em uma comparação simples entre os dados de 2007 e 2017, é possível notar que, enquanto a frota cresceu 73,9%, o consumo do renovável de cana aumentou 52,2%, uma diferença de 21,7 pontos percentuais.

Inclusive, os números do Paraná deixam clara a relação entre o aumento da frota e uma preferência do consumidor cada vez maior para a gasolina. Neste caso, a mistura obrigatória de etanol anidro à gasolina – que passou a ser de 25% em julho de 2007 e de 27% em abril de 2015 – representou um alento para o setor sucroenergético. Mantendo a mesma comparação vista anteriormente, o crescimento da demanda por anidro subiu 110,2%.

especial pr consumo frota

Para efeitos de comparação, o consumo de gasolina C, que já conta com a mistura de anidro e compete diretamente com o etanol hidratado nas bombas, cresceu 87% entre 2007 e 2017.

Indústria opta por outros caminhos

Enquanto a demanda interna por etanol foi de 1,89 bilhão de litros em 2017 e de 1 bilhão de litros no primeiro semestre de 2018 – considerando anidro e hidratado –, a produção das destilarias paranaenses foi de 1,29 bilhão e 743,76 milhões de litros, respectivamente. Ou seja, a oferta foi menor que a demanda

Mapa interativo: Origem e destino do etanol paranaense (em milhões de litros)

Fonte: ANP / Elaboração: novaCana.com

Com isso, a necessidade de importação do biocombustível de outros estados e a tributação incidente fazem parte dos fatores que diminuem a competitividade do etanol nos postos paranaenses, evidenciando um potencial não aproveitado pela indústria local. Além disso, considerando que o Paraná é o único estado sulista com produção de etanol, a diferença regional entre oferta e demanda é ampliada.

Para atender ao consumo no estado, as distribuidoras de combustíveis optam por trazer etanol principalmente de São Paulo e Mato Grosso. Desde 2015, inclusive, os paranaenses consumiram um volume maior de etanol paulista do que o produzido internamente. No primeiro semestre de 2018, por exemplo, 278,67 milhões de litros de etanol vieram de São Paulo, ante 241 milhões de litros do combustível produzido dentro do estado.

especial pr etanol origem

Em contrapartida, nem toda a produção fica no estado. Devido à sua localização, o Paraná é um dos principais fornecedores de etanol para Santa Catarina e Rio Grande do Sul – só no primeiro semestre de 2018 foram 130,52 milhões de litros fornecidos, o equivalente a 54,05% da produção total do estado no mesmo período (241,48 milhões de litros).

especial pr etanol destino

Mas, além de observar a movimentação de etanol, é importante também notar a capacidade de armazenamento de etanol da indústria paranaense. Esse elemento se torna um importante fator estratégico, pois permite que as companhias possam vender o biocombustível em momentos de melhor preço. Isso é essencial na entressafra de cana-de-açúcar, quando há uma queda na oferta.

Ao longo das últimas safras, o Paraná tem registrado picos de armazenamento de etanol que equivalem a montantes entre 11,9% e 30,6% da produção anual. Esses valores, no entanto, ficam aquém não apenas dos vistos em São Paulo – onde a indústria chegou a armazenar 45,5% de etanol em 2014/15 –, mas também da média nacional, que apresentou índices entre 19,9% e 35,9%.

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Ou seja, as indústrias sucroenergéticas do Paraná não têm guardado o produto para a venda em momentos de preços mais altos, o que pode indicar uma maior necessidade de liquidez das companhias, a falta de planejamento estratégico e a própria carência de investimentos em tanques de armazenamento de etanol. O resultado é uma indústria mais suscetível às flutuações de preço.

Em volume, o Paraná registrou o maior estoque de etanol na entressafra 2014/15, com 494,67 milhões de litros armazenados. Por sua vez, na mais recente entressafra, o maior volume registrado foi de 342,58 milhões de litros.

Um futuro de incógnitas

Não há dúvidas de que o Paraná pode ser um grande produtor do setor sucroenergético. Da localização privilegiada à demanda crescente, o estado tem potencial. Porém, para aproveitá-lo melhor, as usinas precisam de investimento em estrutura a fim de equilibrar estrategicamente o uso da cana entre a produção de açúcar e de etanol, ampliar a produtividade no campo e aumentar o rendimento industrial.

A tarefa é complexa. Para um estado tradicionalmente mais açucareiro, a criação de uma flexibilidade entre os produtos da cana demanda recursos financeiros, que o Paraná, hoje, não tem. Também é preciso considerar que as usinas paranaense vêm registrando poucos investimentos em seus canaviais – uma área prioritária para o setor –, mesmo que haja espaço para ampliar a moagem, especialmente por meio de um aumento da produtividade.

Entretanto, embora exista o potencial de crescimento e oportunidades de investimento, um dos pontos chaves envolve a retomada do crédito do setor sucroenergético como um todo. Para o diretor de agronegócio do Itaú BBA, Pedro Fernandes, as companhias precisam comprovar que podem gerar caixa para justificar novos investimentos.

Segundo ele, com os preços do mercado como estão hoje, a expectativa de expansão de área das usinas é muito baixa. Dessa forma, a perspectiva é que o setor precise diminuir antes de voltar a crescer – algo que, de certa forma, já vem acontecendo no Paraná, com uma perceptível queda em sua tendência histórica de crescimento.

“A consolidação do setor, que era esperada, não aconteceu”, afirma Fernandes, que continua: “A questão que fica é o quanto o setor vai ter que diminuir antes de voltar a ser rentável, e a ser interessante tanto internamente quanto para investidores externos”.

No horizonte, a maior esperança é a nova política nacional de combustíveis (RenovaBio). “Estamos na expectativa dessa ação governamental e da comercialização dos créditos de carbono”, relata Tranin.

Trata-se de um programa federal de caráter ambiental, que busca precificar a vantagem positiva dos biocombustíveis por meio da criação de um mercado de carbono com negociação em bolsa de valores. Com isso, o governo pretende incentivar processos produtivos mais sustentáveis e, em contrapartida, as usinas poderão ter uma ampliação na receita.

O maior rendimento, entretanto, depende também das indústrias sucroenergéticas, que precisarão se ajustar às regras ambientais do programa para, na sequência, poder aplicar estrategicamente os recursos adicionais.

Gabrielle Rumor Koster, Rafaella Coury e Renata Bossle – novaCana.com

Infográficos: Bianca Rati
Programação: Juliano Rossetto
Dados: Thiago Nascimento