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Crise leva sete usinas de Alagoas a pedir recuperação judicial

Sete usinas de Alagoas pedem recuperação para evitar falência


Diário do Poder (AL) - 25 out 2017 - 08:10 - Última atualização em: 26 out 2017 - 08:10
Usina Seresta: produção e exportação de açúcar é um dos mais importantes suportes da economia alagoana

Atualização (26/10, às 08h50): Foram acrescentados dados do Valor Econômico sobre as dívidas das companhias e a forma como as companhias tentaram resistir à crise, incluindo renegociações de dívidas, demissões e mecanização da lavoura.

Sete usinas integrantes da Cooperativa Regional dos Produtores de Açúcar e do Álcool de Alagoas (CRPAAA) e mais duas empresas que atuam na exportação e manutenção da produção dos cooperados ingressaram nesta terça-feira (24) com pedido de Recuperação Judicial (RJ), junto à Justiça, solicitando prazo de carência para renegociar e pagar suas dívidas. A RJ substituiu, na legislação brasileira, a antiga concordata.

A Cooperativa reúne algumas das usinas mais importantes de Alagoas, mas as associadas que fazem parte do pedido de Recuperação Judicial são as usinas Seresta (da família do ex-governador Teotônio Vilela Filho), Sinimbu, Sumaúma, Penedo, Porto Rico, Porto Alegre e Capricho, além da Mecânica Pesada Continental S/A e a Coopertrading, respectivas responsáveis pela manutenção das usinas e pelas vendas da produção.

Segundo o Valor Econômico, as dívidas das usinas estão alocadas principalmente com fornecedores e trabalhadores. O saldo devedor de cada uma varia de R$ 20 milhões a R$ 40 milhões e o número de fornecedores de cana afetados pode chegar a quase 4 mil.

Considerando todo o grupo, ainda de acordo com a reportagem, a principal devedora das recuperandas é a Copertrading, que tem entre seus credores basicamente instituições financeiras. Seu principal credor é o Banco do Nordeste, com R$ 90 milhões a receber em moeda nacional e US$ 53 milhões em dólar. Também estão entre os bancos credores o Safra, CCB, Daycoval e BNP Paribas.

A direção da Cooperativa relutava há meses na decisão de ingressar com o pedido de recuperação judicial, um recurso que evita a falência desde que se consiga demonstrar a viabilidade da empresa. O Diário do Poder recebeu a notícia sobre a iminente pedido de RJ na semana passada, mas representantes do setor como o ex-governador Teotonio Vilela responderam que a informação não procedia.

Conforme explica o Valor Econômico, a lei de recuperação judicial não engloba a recuperação de cooperativas, de modo que cada empresa associada terá que apresentar uma lista de credores e um plano de pagamento próprio. Elas terão 60 dias para apresentar seus planos, que devem incluir alternativas para viabilizar o pagamento aos credores e a possibilidade de venda de ativos.

Situação já se arrastava

Segundo alta fonte do setor, as estimativas são "preocupantes". No final de 2016, por exemplo, pequenos produtores protestaram contra o calote de usineiros no pagamento de cerca de R$ 250 milhões pela cana fornecida há mais de três anos. Dos 7,4 mil produtores de cana alagoanos, 90% são pequenos fornecedores. Com as dificuldades financeiras, aliadas à sequência de estiagens, várias famílias estão vendendo suas terras para pagar empréstimos, enquanto as usinas recebem o que produzem antecipadamente e não pagam aos fornecedores.

Além disso, o Valor Econômico também aponta que, ao longo dos últimos três anos, as usinas já vinham demitindo trabalhadores de forma expressiva. Além da crise financeira, as demissões também foram provocadas pela mecanização da colheita, que passou de 25% para 65% na região nesse período. De acordo com o jornal, quando os preços do açúcar estavam melhores, as companhias conseguiram renegociar algumas dívidas, mas a recente queda das cotações da commodity prejudicou novamente o fluxo financeiro. 

História

A história da Cooperativa Regional dos Produtores de Açúcar e Álcool de Alagoas (CRPAAA) tem início em 6 de outubro de 1933, quando foi constituída a Comissão de Vendas dos Usineiros de Alagoas.

Na primeira safra em que a Comissão de Vendas esteve à frente das negociações, de 19 de outubro 1933 a 30 de abril de 1934, foram produzidos em Alagoas 530.599 sacos de açúcar do tipo cristal e demerara.

Com o Decreto-lei 5.893, de 19 de outubro de 1943, do Governo Federal, regulamentando o funcionamento das cooperativas no país, a Comissão de Vendas foi substituída, em 17 de dezembro de 1943, pela a Cooperativa dos Usineiros de Alagoas.

Com criação da Cooperativa – que iniciou suas atividades em 10 de março de 1944 –, os produtores passam para um novo patamar, dispondo de uma estrutura mais organizada, com um Conselho de Administração e um Conselho Fiscal para organizar a produção de seus associados da maneira mais transparente possível.

Durante a gestão de João Evangelista da Costa Tenório (eleito diretor presidente em 22 de setembro de 1978) é realizada mais uma mudança de denominação. Em 6 de outubro de 1986, o nome completo passa a ser Cooperativa Regional dos Produtores de Açúcar e Álcool de Alagoas (CRPAAA). E assim permanece até hoje.

Após ser reeleito ao longo de 21 anos para a presidência da CRPAAA, João Tenório é substituído, em 2009, por José Ribeiro Toledo Filho, atual diretor presidente.

Claudio Humberto e Davi Soares
Com informações adicionais do Valor Econômico e edição novaCana.com