João Paulo Botelho (FCStone): Uma visão ampla sobre a decisão das usinas

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Entre as safras recordes na Ásia, a seca no Centro-Sul e as flutuações no mercado de etanol brasileiro (preço baixo do açúcar, pressão para um mix alcooleiro e estoques elevados), o mercado conta com mais dúvidas que certezas. Os próximos meses serão de muita emoção.

novaCana.com29/08/2018

“Há mais coisas entre o mercado de açúcar e o de etanol do que sonha a nossa vã filosofia”. Por mais que parafrasear Shakespeare pareça um exagero, as complexidades que envolvem os dois principais produtos das usinas de cana-de-açúcar brasileiras acabaram se tornando desafiadores. O setor está navegando por águas inexploradas.

Além da safra nacional, é preciso manter um olhar atento no que acontece internacionalmente, tanto em outros grandes países produtores de açúcar e de etanol quanto no mercado de petróleo. E ainda entram na conta mudanças no comportamento dos consumidores – seja em relação ao açúcar ou ao biocombustível.

A consultoria FCStone, especializada em inteligência de mercado, tem dado uma atenção especial para o cenário internacional do açúcar, inclusive realizando uma expedição à Índia para aprofundamento dos conhecimentos da equipe sobre a safra no país.

“A oferta e demanda de açúcar na Índia sempre foi um dos principais determinantes no mercado internacional do adoçante”, relata o analista sênior João Paulo Botelho, que continua: “Ainda assim, a importância do país para o mercado internacional de açúcar ao longo dos últimos 12 meses foi mais marcada que o usual”.

Botelho está confirmado como um dos palestrantes do NovaCana Ethanol Conference 2018, que acontece em São Paulo (SP), na próxima semana. Ele estará no painel “Avaliações e perspectivas da safra” ao lado do diretor-executivo da Bioagência, Tarcilo Rodrigues, e do sócio e analista da Agroconsult, Fabio Meneghin. Juntos, eles ainda participarão de um debate mediado pelo economista do Pecege, Haroldo Torres.

Formado em Economia pela Universidade Estadual de Campinas, Botelho possui especialização em Finanças Corporativas pela mesma instituição. Em sua trajetória profissional, ele ingressou na FCStone ao final de 2013, na área de grãos e oleaginosas. Alguns meses depois, tornou-se analista de mercado para o setor de açúcar e etanol, assumindo a posição de analista sênior na área em outubro de 2016.

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A safra brasileira e o clima

A diminuição das chuvas na região Centro-Sul do país – que deve impactar negativamente a qualidade da cana-de-açúcar –, somada ao envelhecimento do canavial percebido em grande parte das plantações, dá o tom do que é esperado para a safra 2018/19.

“Entre os meses de fevereiro e junho, a precipitação sobre o cinturão canavieiro registrou 378 mm, 31,4% abaixo do ano passado e 33,4% abaixo da média histórica. Com as chuvas escassas, o nível de umidade no primeiro 1,6 metro de solo também caiu para 346,8 mm no mês de junho, 16,6% abaixo da média de 10 anos”, relata Botelho.

Dentre as 18 empresas consultadas pelo novaCana para o levantamento de estimativa de safra publicado em julho, a que prevê a maior moagem para 2018/19 é a Job Economia, com 585 milhões de toneladas de cana-de-açúcar – um número inferior às 596,31 milhões de toneladas vistas em 2017/18. Por sua vez, a MB Agro apresenta a menor previsão de moagem: 551 milhões de toneladas, uma diminuição de 7,1% em relação ao resultado da última safra.

Porém, Botelho pondera quanto ao impacto do clima sobre a totalidade das regiões produtoras. Isso porque, assim como ocorreu em 2014, o estresse hídrico não está espalhado de maneira uniforme por toda a região canavieira do Centro-Sul.

“No estado de Minas Gerais, responsável por 11% da área esperada, as chuvas no acumulado do ano superam o mesmo período no ano passado”, ele avalia. Além disso, o índice de saúde vegetal do estado no começo de julho é maior que o registrado no ano passado, assim como ocorre em Goiás, responsável por 12% da área.

Mix de produção: açúcar x etanol

Além disso, Botelho projeta um mix 60,1% alcooleiro para as usinas nacionais: “Esta seria a maior concentração da produção canavieira no etanol desde a safra 2008/09”. O valor também está 4,1 pontos percentuais acima da primeira projeção da consultoria para a safra, quando a FCStone esperava um mix de produção 56% alcooleiro.

Assim, em julho, a projeção da consultoria previa uma produção nacional de 29 milhões de toneladas de açúcar, ante as 36,06 milhões de toneladas vistas em 2017/18. Essa é a terceira redução consecutiva na projeção para a produção do adoçante.

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Já em relação ao etanol, a consultoria manteve o mesmo número de março: 28,2 bilhões de litros. A FCStone seguiu o rumo das demais empresas especializadas, que apostam em uma tendência de aproveitamento da onda de bons preços, consumo em alta e valorização do etanol em relação à gasolina.

Desses, 9,5 bilhões de litros seriam de etanol anidro e 18,8 bilhões de litros de etanol hidratado.

Excedente global de açúcar

É essa queda na produção de açúcar que, para João Paulo Botelho, impedirá que o superávit global da commodity supere as máximas históricas. Segundo avaliação divulgada pela consultoria em julho, a expectativa é de saldo global em 10,8 milhões de toneladas de açúcar, com a produção asiática continuando a surpreender pelo desempenho na Índia e Tailândia.

O valor está 600 mil toneladas abaixo da média do levantamento realizado pelo novaCana no mesmo mês e 4,4 milhões de toneladas acima do previsto anteriormente pela própria FCStone, em março.

Balanço do açúcar

A consultoria destaca que as usinas indianas acumularam produção de 32,1 milhões de toneladas até o dia 15 de junho deste ano. Dessa forma, a FCStone espera que ainda haja um aumento para 32,3 milhões de toneladas (valor branco) – quantidade que representa expansão de 59,0% ante a temporada 2016/17 e alta de 4 milhões de toneladas no comparativo com a safra 2014/15, que até então detinha o recorde produtivo no país.

A programação completa do NovaCana Ethanol Conference está disponível aqui.

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